Tiradentes, as prostitutas e outra história do herói da Inconfidência Mineira

Por André Figueiredo Rodrigues

 

Há muito tempo se faz menção de que muitos casamentos são mantidos graças aos serviços prestados por meretrizes e pelas atitudes amorosas das amantes que povoam desejos não realizados pelas esposas. Em Minas Gerais na época colonial, a atuação das “mulheres de vida fácil”, como se costumam rotular as profissionais do sexo, foi muito comum. Mulheres brancas – tanto solteiras, quanto casadas – como negras e mulatas, escravas ou forras, usavam da prostituição como fonte de renda para si, seu maridos, suas mães e proprietários.

Em Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto, um dos assíduos frequentadores das casas de alcouce, nome pela qual eram conhecidos os bordéis, era o alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido entre nós pelo apelido de Tiradentes. Nestes locais, após longas bebedeiras e contatos amorosos, Tiradentes divulgava ideias de que se planejava uma revolta contra o poder de Portugal na região de Minas Gerais. Os documentos existentes sobre essa revolta permitem acreditar que as prostitutas da cidade sabiam da existência da Inconfidência Mineira de 1789.

Infelizmente esses mesmos documentos não permitem conjecturar que elas participaram diretamente do levante, mas, apenas, que elas sabiam do que se tramava. É de um dos denunciantes da Inconfidência, Basílio de Brito Malheiro do Lago, a frase pejorativa e discriminatória que tratava as meretrizes na época e que se referia à Inconfidência como um movimento inexpressivo: “só se for levante de putas”.

Tiradentes: falastrão, corajoso, imprudente, bode expiatório… herói… patrono da liberdade… Os olhares sobre ele são muitos e tão variados quanto os olhares sobre a Inconfidência Mineira. Mas um aspecto pouco comentado e relacionado ao seu apreço pelos prazeres da carne, diz respeito ao caso que manteve com a jovem Antônia da Encarnação do Espírito Santo.

Foi graças ao processo aberto por Antônia da Encarnação, entre novembro de 1789 e meados de 1790, em Vila Rica, que tomamos conhecimento de seu envolvimento com Tiradentes. Amante do inconfidente, Antônia decidiu procurar a justiça para reivindicar, junto às autoridades locais, a posse da escrava Maria e de seus dois filhos pequenos, Jerônimo e Francisca, apreendidos pela Coroa portuguesa em 1789, juntamente com os demais bens de Tiradentes. Para tanto, como informou Paulo da Costa e Silva, em artigo publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional (abril 2007), “Antônia Maria alega que a escrava lhe havia sido doada pelo alferes, não pertencendo mais a Tiradentes, e que, portanto, lhe deveria ser restituída”. As delicadas relações entre eles são expostas no processo da seguinte maneira:

“Diz Antônia Maria do Espírito Santo, menor órfã do falecido seu pai Antonio da Silva Pais, que estando na companhia da viúva sua mãe Maria Josefa, vivendo com toda a honestidade e recato, a principiou a aliciar o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o qual debaixo de palavra de honra e promessas esponsalícias lhe ofendeu a pudicícia, de cuja ofensa resultou conceber e dar à luz um feto do mesmo alferes, que passou ao extremoso excesso de arrancar a suplicante dos braços da dita sua mãe.”

Para reaver sua escrava, Antônia Maria joga com informações que levam a crer que ela foi vítima dos encantos e das falsas promessas de Tiradentes, que a tirou dos braços de sua mãe, arrancando-lhe a virgindade e concebendo nela uma filha, sem que cumprisse, contudo, a promessa de casamento.

O alferes faltou com sua palavra de honra ao acenar com promessas de casamento que não foram cumpridas. A jovem, com idade entre 16 e 17 anos, quando engravidou, viu seu sonho de casar desmoronado, principalmente quando Tiradentes, um homem com mais de 40 anos, após regressar de viagem pelo interior de Minas Gerais, desgostou-se com o comportamento de Antônia e rompeu a promessa do matrimônio, deixando para a filha e a sogra uma casa na Rua da Ponte Seca, além da escrava Maria. Não se sabe ao certo que tipo de comportamento teria irritado tanto o alferes a ponto de abandonar a amásia e a filha. Entretanto, acredita-se que algum ato libidinoso talvez tenha sido o responsável pela fúria do alferes com sua amante. Fiquemos com a dúvida…

André Figueiredo Rodrigues é professor do Departamento de História da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), campus de Assis. Autor de “A fortuna dos inconfidentes: caminhos e descaminhos dos bens de conjurados mineiros, 1760-1850” (São Paulo: Globo, 2010). Website: www.histoecultura.com.br.

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8 Comentários

  1. Tanice 21 de abril de 2018
    • Fernands 9 de julho de 2019
  2. Joyce 22 de abril de 2017
  3. Isabel Laurinda de Oliveira silva 26 de abril de 2014
  4. genoveva ribeiro de carvalho 21 de abril de 2014
    • José Augusto Caputo Mauricio. 21 de abril de 2014
    • Anderson Santos 22 de abril de 2014
      • marcia 22 de abril de 2014

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