Lazer: rádio, televisão, música pop e…sexo

          Para os sociólogos, o lazer é a soma de práticas cujo número e variedade nunca foi tão grande! Sobre ele, poderíamos fazer um catálogo: televisão, cinema, teatro, praia, esporte, conversa na mesa do bar, viagens, etc. E para cada forma de lazer, sua evolução, suas hierarquias sócio-culturais, suas paixões. Mas vale lembrar que a tecnologia embaralhou os dados. Afinal, passou a ser possível assistir a um concerto de música clássica na televisão. Ou acompanhar o jogo de futebol e a corrida de automóveis, pelo rádio transistor! As revistas em quadrinhos ensinaram muita gente – eu inclusive – sobre a história da Bíblia. Os discos, com os sucessos musicais dos Beatles, convidavam a soltar a língua e a falar inglês. E as novelas, pouco a pouco, tratavam de temas que tinham a ver com a revolução sexual na sociedade. O lazer enfim, se libertou do espaço privado, onde esteve confinado até o início do século XX, para irrigar o conjunto da vida social. Para se divertir, ficou fácil sair de casa. As ruas atraíam embora, dentro de casa, fosse possível graças às telas, aos aparelhos hi-fi e às ondas do rádio, quebrar o muro entre a chamada alta cultura e a cultura popular.

         A relativa harmonia entre o lazer privado e o público foi, porém, temporário. Com o milagre econômico e a baixa do preço da televisão, ela pouco a pouco ajudou a degradar o tempo gasto com outro tipo de lazer. Quando começou? Em setembro de 1950, quando o sinal da extinta TV Tupi Difusora de São Paulo começou a ser transmitido, no Brasil. A primeira transmissão teve show inaugural com platéia recheada de homens de paletó e gravata e senhoras bem vestidas. Receptores foram espalhados por lojas da cidade e aparelhos estrategicamente colocados no Jóckey Club de São Paulo, onde as imagens pouco nítidas obrigaram os telespectadores a ficar e silêncio – conta a historiadora Marialva Carlos Barbosa. O primeiro programa, intitulado “TV na Taba” tinha a participação de atores entre os quais Lima Duarte, Hebe Camargo e Mazzaropi. Nos dias seguintes, entre 17 e 22 horas, seguiram-se musicais, teleteatros, programas de entrevistas e um pequeno noticiário. Tudo ao vivo e na base de muita improvisação. Reação de quem desconhecia o aparelho, misto de rádio e cinema?  Alguns acreditavam que os artistas ganhariam vida e sairiam da tela; outros se maravilhavam diante do corpo e rosto dos que só conheciam a voz. Outros ainda duvidavam que seus ídolos tivessem “aquela cara”, desfigurada pelas ondulações das imagens! Ter TV dava status e não faltou quem convidasse as amigas para um chá com os artistas: elas na sala e eles na tela. A telinha se transformava, como bem diz Barbosa, “no mais fascinante brinquedo do século XX”.

        No início o aparelho custava caro: três vezes o preço de uma radiola. Em 1952, havia cerca de onze mil televisores em todo o país. Em 2010, segundo o IBGE, 95% dos lares tinham uma telinha. Em 2014 eram 97,1% e desses 40% já sintonizados com a TV digital aberta. O impulso deste lazer veio com o hábito da população acompanhar as telenovelas. Romances adaptados da literatura brasileira, como Helena, de Machado de Assis, Senhora, de José de Alencar ou versões de filmes americanos, assim como peças de teatro, como as apresentadas no Teleteatro Cacilda Becker, inspiravam-se na estética do cinema e fidelizavam espectadores. O que aconteceria no próximo capítulo – perguntavam-se, ansiosos? Dos clássicos do romantismo passou-se ao clássico do realismo com Gabriela, de Jorge Amado, quando uma obra de 220 páginas foi adaptada para 100 capítulos. Já a petizada, assistia a O meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcellos.

        Mas não só de novelas vivia a telinha. O pesquisador Muniz Sodré chama a atenção para as mudanças importantes ocorridas na programação, a partir dos anos 70. Ele explica:

“Até o final dos anos 70, a TV não suplantava os jornais e revistas em receita publicitária, não tinha um público de massa. A partir do I e do II Plano Nacional de Desenvolvimento, o governo fez uma recomendação expressa de estímulo ao consumo. Isso significa formar novos consumidores, substituir o armazém pelo supermercado. Boa parte dos espectadores era de periferias urbanas e de migrantes nordestinos. Para agradar este público, a TV adotou uma programação que misturava a incitação ao consumo de massa com conteúdos culturais nordestinos. O grotesco é uma designação estética para esse programa híbrido que articula cidade e interior. É a papagaiada do circo no circuito eletrônico da TV”.

        E entre os programas, o que dizer dos anúncios que iam de supermercados a eletrodomésticos e a… prostíbulos! Isso mesmo. Em Recife, nos intervalos de “A Hora da Buzina” e o “programa da Bibi”, o texto era simples e direto: “A melhor noite de Recife está na Boate Chantecler”. O anúncio não explicava que se tratava da mais famosa “casa de tolerância” de Pernambuco. Recomendada até pela Marinha americana cujos navios paravam na cidade! Ninguém parecia se importar – estranhava a Veja, em 1967.

  • Texto de Mary del Priore.  

Reprodução.

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