O enforcamento de Tiradentes

Relato da execução da sentença de morte de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, atribuído a um de seus confessores, o frei franciscano Raimundo de Penaforte, em 21 de abril de 1792.

“(…) Pelas onze horas do dia, que o sol descoberto fazia ardente, entrou na praça vazia por um dos ângulos da figura, que faziam os regimentos postados, o réu e o demais acompanhamento dos ministros de justiça, dos irmãos de misericórdia, do clero e dos religiosos.

Ligeiramente subiu os degraus e sem levantar os olhos, que sempre conservou pregados no crucifixo sem estremecimento algum, deu lugar ao carrasco para preparar o que era necessário e por três vezes pediu-lhe que abreviasse a execução. Não desistiram os sacerdotes de dirigir a Deus os auxílios tão necessários para avivar a fé, a esperança e a caridade em transe tão arriscado.

O guardião do convento de Santo Antônio, que também acompanhava os seus súditos, inflamando-se desmarcadamente em caridade e em justiça, subiu a escada e daí admoestou os espectadores, que não se deixassem possuir só da curiosidade e do assombro, mas que implorassem de Deus a última graça para quem tão constante ia pagar o seu delito, e que assim mesmo tinha servido de objeto de clemência da soberana, que não o punia mais gravemente, e não menos da iluminada justiça de seus ministros, que não lhe agravarão a pena.

Repetido pelo mesmo padre guardião o credo, viu-se suspenso de uma das traves da forca o corpo do infame réu, cuja alma em paz descanse. Seguiu-se a fala do costume feita por religiosos.(…) O povo foi inúmero e se não fossem as patrulhas avulsas, sem dúvida ele mesmo ficaria esmagado debaixo do peso de sua imensa massa. Como se abala o povo para ver o que deve precaver!

As janelas das casas estão vindo abaixo de tanto mulherio; cada uma apostava com a outra o melhor asseio. Não permitiu a providência, que a curiosidade roubasse a maior parte desse espetáculo; foi tal a compaixão do povo da infelicidade temporal do réu, que para lhe apressarem a eterna, ofereceram voluntariamente esmolas para dizerem missas por sua alma; e só nessa passagem tirou o irmão da bolsa cinco dobras (antiga moeda portuguesa). Era impossível que esse fato não tocasse vivamente os corações dos bons e fiéis vassalos, e que vassalos cristãos não descobrissem nele uma particular providência, e que não adorassem! Assim o sentiu a Câmara desta cidade, que determinou que se pusessem luminárias nas três noites seguintes e se fizesse uma ação de graças; para que escolheram a igreja dos Terceiros Carmelitas.

Por convite da mesma fez pontifical de manhã o bispo diocesano, e de tarde repetiu o muito reverendo padre-mestre sr. dr. Fernando Pinto, uma nervosa oração fundada sobre três pontos: Iº Render graças a Deus pelo benefício que fez aos povos de Minas Gerais em se descobrir a infame conjuração a tempo que foi dissipada e sem que fosse posta em execução, e se seguissem as perniciosíssimas consequências que dela resultariam; 2º Por não ser contaminada essa cidade da dita infame conjuração; 3º Persuadir ao povo fidelidade, amor e lealdade a unir soberana tão pia e tão clemente e rogar a Deus, que lhe conserve a vida e o império. (…)

  • Texto extraído de “Brasil: a História contada por quem viu”. Organização de Jorge Caldeira, Marmeluco, 2008.

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” Tiradentes”, de Aurélio Figueiredo de Mello;”Tiradentes esquartejado”, de Pedro Américo.

5 Comentários

  1. Marcus Braga 22 de abril de 2016
    • Márcia 22 de abril de 2016
      • Marcus Braga 22 de abril de 2016
  2. rodrigo melo 21 de abril de 2016
    • Márcia 21 de abril de 2016

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