A classe média, a imprensa e o golpe militar

           A frente social que se uniu contra Goulart era ampla e heterogênea. E a classe média não recebia passivamente as mensagens que emanavam de ambas as instituições. Protagonista do evento em curso, ela não queria um radical processo de redistribuição de renda que afetaria posições e privilégios já consolidados. Ela era igualmente desatenta à desigual e crescente distribuição de renda. “Pirão pouco, o meu primeiro”, dizia o ditado popular. Para ela, os militares eram bem-vindos para restaurar a ordem e a segurança de seus lares e bens. Sentimento que permitiria ao general Carlos de Meira Mattos, em entrevista ao CPDOC, afirmar com segurança que “havia muito civil conspirando (para tirar Jango) porque, quando irrompeu 64, as organizações civis, federação das indústrias, federação de comércio, de agricultura, ostensiva ou veladamente apoiavam […] Era o apoio das maiorias naquela época”.

            E a campanha prosseguia sobre as ondas. Nos anos sessenta, a utilização do rádio na luta contra o comunismo foi realizada com eficiência e teve um alcance e um impacto muito grande. As ondas sonoras cobriam todo o território nacional e chegava a todas as classes sociais. O rádio já havia se popularizado, e era muito querido pelos brasileiros. Além do sucesso das novelas que foram sucesso de audiência nos anos quarenta e início dos anos cinquenta, as técnicas de locução e a confiabilidade que os locutores passavam ao público faziam do rádio um instrumento perfeito para divulgar informações entre a população com baixa escolaridade. A notícia chegava aonde outros meios de comunicação dificilmente chegariam, sobretudo, entre os ainda despossuídos de televisão.

Dreyfus explica que o rádio era um poderoso meio de “doutrinação geral”. Como acontecia com a televisão, o IPES não patrocinava abertamente os programas de rádio. Mas oferecia apoio financeiro aos programas semanais anticomunistas, dirigidos a um público de classes trabalhadoras, como os da Rádio Tupi de São Paulo. E patrocinava programas e figuras públicas, conferências e discussões. Grande parte da propaganda anticomunista era realizada pelo rádio. Os programas iam ao ar em horários nobres e em transmissões especiais nos finais de semana com atores e atrizes de preferência popular. Na aproximação das eleições eleitorais, em 1962, a quantidade de programas aumentou e o número de rádio contratadas para divulgação também. Foram mais de trezentos programas, todos os dias, praticamente controlando o horário nobre das estações de rádio do país.  Já a classe média contava com a “Cadeia de Democracia”, compreendendo mais de cem estações de rádio em todo o Brasil.

Para atingir os leitores de jornais, utilizavam-se cartuns e charges no O Dia, a Luta Democrática e o Globo. Esses jornais de grande circulação nacional tinham suas matérias reproduzidas em jornais de circulação regional por todo o país. Seus focos eram “a iniciativa privada, a produtividade e a pluralidade política, assim como rejeição de diretrizes “estatizantes” ou socialistas”. Os cartuns vinham atender a um vasto segmento da população que tinha limitada capacidade de leitura. Para esse público foi incentivada a divulgação de livretes, revistas e folhetos com as mesmas linhas ideológicas adotados em outros meios de comunicação.

No seio das famílias, no aconchego do lar, a luta contra o perigo vermelho vestiu saias. Foram “mães, esposas e donas de casas” para as trincheiras. Mulheres de classe média e alta de todo o país reuniram-se em uniões cívicas, ligas, associações e na Campanha da Mulher pela Democracia, conhecida por CAMDE e bem estudada pela historiadora Janaína Cordeiro. As brasileiras deveriam mobilizar-se em defesa de seus lares, ameaçados pela onda esquerdista. A 22 de março de 1964, a CAMDE fez publicar nos jornais um manifesto em que convidavam as cariocas a unir-se às paulistas em manifestação contra a suposta infiltração comunista: “A hora da reação é nossa, pois temos ainda, graças à democracia, o direito de falar e o respeito dos homens. Defendamos nosso lares, defendamos nossa pátria. Já começamos a luta. Vamos lutar por um saneamento do Brasil, por uma vigilância cívica, pois a nós é dada a grande responsabilidade de povoar com bons brasileiros a nossa querida pátria. Que cada mulher seja um baluarte da democracia, uma defensora da liberdade e um agente de Deus”.

Amparadas pela Igreja católica, consideradas uma influência que podia “salvar o país”, elas se uniam para combater o comunismo-ateísmo. E martelavam exemplos: na União Soviética, filhos denunciavam os pais que não apoiassem o regime. O espectro comunista destruía famílias. Nomes importantes na sociedade carioca como os de Amélia Bastos, Lúcia Jobim ou Iací de Amorim Azevedo aproveitavam os contatos que tinham na grande imprensa para fazer circular notícias de suas manifestações e cartas às autoridades. Junto às populações carentes, agiam na criação de cursos profissionalizantes ou distribuição de alimentos, sem qualquer propósito – diziam – “paternalista”. O importante era “preparar o povo para participar de um regime de democracia fortalecida”.

Durante toda a década, observa Janaína Cordeiro, a militância das mulheres se deu em torno da defesa da “democracia”, palavra que escondia seu temor do comunismo e do trabalhismo. Em 1968, apoiariam o AI 5 contra as manifestações estudantis, na defesa da unidade nacional e finalmente, na luta contra “ideologias espúrias”.

Nas telas, na imprensa, nas ruas ou em casa, o consenso em torno do regime militar se construía. Consenso que, com tantos apoios, se sustentaria por muitos anos.

  • Texto de Mary del Priore.
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Marcha pela família, por Deus e pela Liberdade: o clamor da classe média pela “ordem”

 

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  1. Solomon 5 de abril de 2018

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