DICA DE LEITURA: “Um só corpo, uma só carne”

A segunda edição do livro “Um só corpo, uma só carne: Casamento, cotidiano e mestiçagem no Recife colonial (1790- 1800)”, originalmente a dissertação de Mestrado apresentada por Gian Carlo de Melo Silva, ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Rural de Pernambuco, em 2008, sai revisada e em boa hora. É justamente o momento em que se constata o aumento do interesse sobre os estudos relacionados às dinâmicas de mestiçagens que fomentaram o processo de formação social na América portuguesa, tornando-o muito complexo, diverso e peculiar, inserindo-lhe, ao mesmo tempo, em rede de conexões biológicas e culturais que funcionaram como potentes amálgamas do mundo. Assim entendidas, as mestiçagens são cada vez mais tratadas por historiadores brasileiros e estrangeiros, o que tem resultado em crescente quantidade de pesquisas e publicações, que, por sua vez, vêm impondo releituras necessárias da história do mundo moderno, desde a dimensão regional até os aspectos de contornos planetários.

O trabalho de Gian Carlo é fruto desta “redescoberta” das mestiçagens pelas gerações de historiadores brasileiros que vêm se dedicando à História Social e à História Cultural. E é contribuição importante, nascida do úbere universo pernambucano, que produzira no passado referência das mais evocadas sobre o tema. Afinal,  a miscibilidade em Gilberto Freyre reinventou o Brasil. Gian Carlo escolheu focar o Recife da última década do século XVIII e mergulhou no universo dos casamentos consagrados, lastreado, principalmente, nos assentos de casamento, uma documentação precisa e aparentemente “fria”. Entretanto, a exploração competente da fonte a transformou em rico manancial de informações sobre os nubentes, sobre costumes e ritmos relacionados às uniões, sobre os padres que registraram os matrimônios e sobre como os personagens envolvidos foram classificados, isto é, a “qualidade” (índio, branco, negro, crioulo, pardo, mulato, cabra, etc…) atribuída a cada um. Ao proceder assim, o autor deu mais vida às velhas anotações eclesiásticas e pôde então, a partir dos enlaces sacramentados pelos sacerdotes da setecentista Capitania de Pernambuco, ler atentamente alguns aspectos fundamentais daquela sociedade: relacionamentos, matrimônios, famílias e misturas biológicas e culturais.

É este o “enredo” do livro, cuja construção foi também amparada pelos códigos jurídicos em vigor na época, por dicionários antigos e por documentos administrativos e inquisitoriais. Facilmente se nota a ausência no texto de casais em uniões consensuais, de concubinatos e de famílias matrifocais, situações já tão comuns no Brasil daqueles tempos, mas isto foi justificado objetiva e convincentemente. O autor nos informa sobre a inexistência de fontes (perdidas ao longo dos séculos) que pudessem oferecer séries de dados sobre esses temas. Diante disso, foi necessário extrair dos registros eclesiásticos os dados com o quais os principais argumentos foram construídos. O resultado é bastante satisfatório. Dos matrimônios assentados, Gian Carlo conseguiu voltar ao cotidiano de homens e mulheres que, intencionalmente ou não, faziam do Recife mestiço setecentista mais um dos importantes pontos de conexão da rede planetária de contatos de toda natureza, na qual a América portuguesa já ocupava posição privilegiada. Basta lembrar-se, para tanto, a chegada, naquela altura, de   parcela muito significativa dos escravos traficados entre continentes (2/3deles?!), que era um   dos eixos mais importantes das transações comerciais da época. Junto com eles e a partir da realidade na qual se inseriam e que ajudavam a moldar, outras tantas dinâmicas sociais, econômicas, políticas e culturais se constituíam, o que            significa evidenciar o destacado papel  desempenhado pelo Brasil, por Pernambuco, por Recife e por seus habitantes na então consolidada integração mundial. Ao gosto do autor, declarado amante do carnaval das escolas de samba cariocas, digo ao leitor que na somatória dos quesitos o livro é contribuição nota dez.

 Eduardo França Paiva Belo Horizonte, 2014.

 gian

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