Índios, papagaios e café: o Brasil na França

Imaginemos a cena, leitor: sexta feira, 12 de abril de 1613, uma pequena multidão se acotovela na entrada do faubourg Saint-Honoré a espera de uma centena de padres capuchinhos do convento da Paris. Ai aguarda um grupo de nobres desejoso de manifestar seu entusiasmo pelo que era considerada uma “santa e feliz conquista”. Mas não só. Estavam todos igualmente curiosos de conhecer “esses pobres selvagens revestidos de suas mais belas plumagens, maracás à mão”. A aglomeração, nessas alturas, era tão volumosa que o cortejo teve dificuldade em penetrar na igreja. Uma fila de padres tentava isolar o grupo de estrangeiros seminus dos aristocratas, sobretudo, “princesas, damas e outras pessoas de mérito” que se espremiam, na ponta dos pés, tentando enxergar melhor os embaixadores do Novo Mundo. Foi o assunto social da semana.

Três dias depois, os tupinambás, já vestidos à francesa, foram se encontrar com a rainha, Maria de Médicis, no palácio do Louvre. Em frente a sua alteza, executaram uma dança sem grandes movimentos, ritmada apenas por instrumentos, provavelmente chocalhos, contendo, no entender de um observador, “pregos”. Enquanto os companheiros exibiam seus dotes musicais, o índio Itapucu fez um discurso em sua língua natal, pedindo ao rei para enviar ao Maranhão mais profetas – referia-se aos padres capuchinhos – e outros tantos grandes guerreiros, prometendo fidelidade aos seus amigos “papagaios amarelos” – como eram chamados os franceses. A uma senhora desejosa de saber o que mais lhe agradara na França, um dos índios respondeu sem hesitar: “as mulheres”. E outra que, em tom zombeteiro, perguntou-lhe se achava as de sua terra mais bonitas que as francesas, recebeu logo o troco: “Ainda não podemos julgar, respondeu o índio, só diremos a verdade quando pudermos ver as daqui inteiramente nuas, assim como costumamos ver as de nossa terra”. O rei Luís XIII, um menino de temperamento secreto e tímido, visivelmente emocionado, prometeu tratá-los como aos seus próprios súditos enquanto a rainha lhes garantia ajuda e defesa. Não tinham ideia que a imagem da França, bem como aquela das louras francesas, teria impacto de tão longa duração no longínquo Brésil.

Ver mais  Carta de Euclides da Cunha ao filho "Quidinho"

Fim do século XIX: Chateaubriand recupera o folclore em torno de índios canibais, cujo grito não é mais um inculto desafio – como significou para Montaigne – mas um canto de amor e morte, bem ao gosto do Romantismo. Na outra ponta, o historiador, economista e geógrafo Émile Levasseur termina o extenso ensaio que publicaria na Grande Encyclopédie sobre o império brasileiro, enquanto o país participa, em Paris, da Exposição Universal de 1889. Seu pavilhão é todo decorado com ramos de café, vitórias-régias e frutas. Enquanto isso, nos trópicos, brota uma visão otimista do presente e do futuro e o final do século XIX e início do XX, foi caracterizado – no melhor sentido europeizante dos meios culturais brasileiros de então – como sendo uma belle époque. A expressão francesa bem dizia da francofilia que, então se enraíza, em hábitos, representações e práticas, fazendo da capital do país, seu palco por excelência. Novidade? Não.

Desde a primeira metade do século, a francofilia – admiração pela França e os franceses – se instala entre nós. Viajantes, naturalistas e artistas trazidos por D. João VI, quando da transmigração da família real, se encarregam de consolidar a mania. O pão francês substituiu a broa de milho e em 1828, os franceses montavam a 3.000 pessoas. O açougue francês era o melhor e, dez anos mais tarde, já existia um guia para estrangeiros sobre a cidade; escrito, “bien sür”, em … francês! A Restauração dos Bourbon recolocou o país como competidor da Inglaterra e o prestígio cultural da França se exporta, junto com as linhas de “paquebot”, mundo afora. – Mary del Priore.

Ver mais  E os príncipes se casaram...

indiadb

 “Índia”, na visão de Debret.

2 Comentários

  1. Ivan Dias

Deixe uma resposta