A paixão pela História

      Para começar é preciso dizer que minha trajetória, diferentemente daquela feita por colegas da minha geração, é muito tardia. Comecei a estudar junto com meus filhos: eles, na escola maternal e eu, na PUC de São Paulo. Deixando para trás fraldas e mamadeiras, e com a relativa dose de maturidade que se costuma adquirir aos trinta anos, determinei o que “desejava fazer”: estudar história do Brasil colonial. Sempre fui uma apaixonada pelo período. Sabia poder encontrar ai uma série de temas passíveis de aproximação com aqueles que estavam sendo desenvolvidos à luz da abordagem das mentalidades. Em 1985, ainda cursando o pós-graduação, tive a oportunidade de realizar na Escola de Altos Estudos em Paris um curso de demografia histórica. A técnica em si não me interessava, pois tenho pavor de números. Interessavam-me os debates historiográficos em curso e os trabalhos nascidos da experiência resultante do contato da demografia com a história social. Conheci então Jean-Louis Flandrin, que se tornou um querido amigo, inspirando minhas pesquisas sobre história da sexualidade e da mulher.

         Outro fator determinante para as reflexões que elaborei no início de minha carreira foi a influência de meus colegas de pós-graduação: Renato Venâncio, Ronaldo Vainfas, Fernando Londoño, Luciano Figueiredo, entre outros. Trata-se de uma geração que quis voltar aos arquivos, interrogar documentos, sobretudo os manuscritos, valorizando as fontes primárias. Passávamos a maior parte do tempo entre velhíssimos papéis, lendo-os, interpretando-os e transcrevendo-os. Diria que essa conjunção benfazeja, feita de pesquisas e de forte influência da historiografia francesa me empurrou para temas que, entre os anos 80 e 90, foram abundantemente tratados: mulheres, crianças e vida privada, entre outros. Penso, contudo, que Ao sul do corpo só interessou aos leitores, não porque tratasse de mulheres ou da dominação a que estavam sujeitas, mas porque abria um leque para outros temas marcantes na época: sexualidade, feitiçaria, corpo, medicina, prostituição e violência. Não há dúvidas que o livro deve imensamente às fontes documentais que nele falam mais eloquentemente do que as teorias sobre o papel da mulher na sociedade colonial.

       A história do Brasil ainda está para ser escrita e, sobretudo, lida. É preciso fazer um esforço para conhecer os trabalhos de nossos pares, rompendo o hábito pernicioso de ler apenas os nossos colegas. Quantas vezes não nos deparamos com teses ou trabalhos publicados que fazem questão de ignorar a produção que não é do “grupo”. Seria cômico se não fosse sério. A carência a ser suprida é, a meu ver, mais ética do que prática. Mas falando sobre os efeitos concretos da presença desses novos objetos diria que no que diz respeito à história das mulheres sempre houve clássicos: o livro de Maria Odila Silva Dias sobre as mulheres pobres em São Paulo ou os trabalhos de Miriam Moreira Leite, reveladores da riqueza documental que existe sobre mulheres, são dois exemplos. No Nordeste, Luzilá Ferreira, no Sul, Joana Maria Pedro e em Minas Gerais Tânia Quintaneiro  trouxeram contribuições importantes para ampliar o debate sobre o objeto. Irmã Rizzini e Martha Abreu, no Rio de Janeiro, tem formado grupos de estudo e pesquisado incansavelmente sobre história da criança, cuja pioneira, entre nós, segue sendo Maria Luíza Marcílio. A história da vida privada consolidou-se com a iniciativa de Lilly Schwartz em publicar uma versão brasileira do livro. Tive o privilégio de participar do volume organizado por Laura de Mello e Souza, sob a direção de Fernando Novais, um professor paradigma para os membros de minha geração. O alcance dessas contribuições, diante das lacunas que ainda precisam ser preenchidas sobre história política, econômica ou regional, é, pequeno. Creio que, proporcionalmente, ainda temos poucos trabalhos sobre o assunto mulher/criança/vida privada. O importante a destacar é que obras de referência como História das Mulheres no Brasil, História das Crianças no Brasil ou História da Vida Privada no Brasil revelam a crescente pluralidade de abordagens, a multiplicidade de técnicas, a riqueza de vertentes temáticas empregadas pelos historiadores brasileiros. Sempre tive o cuidado de convidar colegas de fora do “grupo” para participar das coletâneas que dirijo, pois estou convencida que mais do que tentar detectar as “principais influências” é preciso dar voz a todas as tendências.

       Como digo no prefácio do livro “História das Mulheres no Brasil”, trata-se de apresentar uma história relacional da mulher, ou melhor, de fazer uma história da mulher nas suas relações com o homem, a família, a sociedade, as instituições, etc. Mais uma vez, procuramos valorizar a documentação da qual se extraem vozes femininas: processos-crime, livros de medicina, crônicas de viagem, cartas, testamentos, etc., tudo que a engenhosidade do historiador é capaz de utilizar para fabricar, como dizia Fébvre, “seu mel”. O interessante é perceber, ao longo da obra, como essa documentação vai se tornando mais e mais caudalosa, mais e mais eloquente, até chegar à mídia, os jornais e os artefatos da sociedade de massas na qual vivemos. A pergunta subsumida a essa seria, por que não uma história de gênero? Procurei não interferir nos textos dos autores. Há entre eles, os que trabalham com o conceito, como é o caso de Joana Maria Pedro ou Raquel Sohiet e outros para quem “mulher” é o objeto em si. Cá comigo, tenho receio de aplicar tal conceito às realidades com as quais trabalho. E por quê? O gênero refere-se a um lento processo de construção social e cultural. Processos não são conceitos de época mas, ex post. Em geral, se referem à evoluções mais ou menos profundas da economia, da política, da sociedade e são raramente detectados em sua época. E menos ainda conceitualizados. Os personagens da Belle Époque, por exemplo, tiveram que atravessar a guerra de 1914, sofrendo a seguir as agruras de uma tremenda inflação, para lembrar-se do passado como “belo”. Nessa perspectiva, não creio que uma escrava de ganho no Rio de Janeiro do século XVIII tivesse a menor ideia do que fosse “gênero”.

        A discussão capaz de relacionar história das mulheres com história de gênero, simplesmente não aparece em meus livros. Jamais tive qualquer intenção de fazer epistemologia. O debate sobre se faço uma ou outra nasceu a minha revelia. Tampouco escrevi uma única linha sobre questões teóricas no tocante ao assunto. No longo capítulo sobre a história das mulheres que fiz para o livro Historiografia Brasileira em perspectiva, me limitei a fazer um balanço, o mais abrangente possível sobre a questão. Sobre a questão historiográfica, bem entendido! O sincero desinteresse pelo debate teórico trata-se, sem dúvida de uma das muitas fragilidades do meu trabalho. Mas prefiro, francamente permanecer fiel à historiografia francesa que durante decênios abandonou a reflexão epistemológica aos filósofos como Raymond Aron ou Paul Ricoeur. Lucien Febvre dizia que o melhor é “que o historiador comece por fazer história”. Tenho emprestado conceitos às disciplinas vizinhas, modelando-os e fazendo-os perder o seu rigor. O empréstimo de conceitos e sua utilização determinada e, sobretudo, contextualizada, permite ao historiador apropriar-se de questões de outras disciplinas, submetendo-as a interrogações diacrônicas que são, aliás, a dimensão própria da história. A história possui essa característica: de poder colocar-se no terreno de outras disciplinas sem perder sua especificidade. Não é isso uma riqueza? Por fim, penso, com alguns teóricos como Antoine Prost, que nenhuma teoria dá, sobre a história, uma ideia clara. As teorias históricas parecem buscar, perpetuamente, a conciliação de contradições. É preciso trabalhar sobre fatos extraídos dos documentos? Sim, mas sem perguntas, os fatos tornam-se mudos e nem mesmo podem ser considerados fontes. Então, é preciso ser historiador para saber que questões colocar às fontes e para dominar os procedimentos que a fazem falar. O método crítico que confirma os fatos, supõe um saber histórico consolidado? Ora, então é preciso ser historiador para fazer história. Quanto ao tempo, à dimensão diacrônica constitutiva da questão histórica, ele não é um quadro vazio que enchemos de fatos, mas uma estrutura esculpida pela sociedade e pela história já escrita. A história mais me parece uma prática empírica que respeita exigências contraditórias; razão bastante para, sem querer desqualificar a reflexão epistemológica, não valorizar excessivamente os conceitos.

        Quando realizei o capítulo “Ritos da vida privada”, para o História da Vida Privada, por exemplo, busquei trabalhar com um conceito elaborado outrora. A ideia de “privado” como demonstrei, já existia no século XVIII. É, portanto, um conceito herdado, que funcionou, como elemento heurístico para a compreensão do passado colonial. Designava-se uma realidade que hoje não tem equivalente. Lucien Fébvre alertou para os riscos do anacronismo que consistia em trabalhar com conceitos como, por exemplo, “ateísmo”, na época de Rabelais. Foi o que evitei fazer: usar a noção de privacidade concebida no século XX para examinar a América portuguesa. Acredito também que uma verificação da validade histórica dos conceitos é fundamental para quem trabalha, como eu, com o período colonial. Daí a utilização sistemática que faço dos dicionários de época como o Bluteau e o Viterbo. Posteriormente, em Revisão do Paraíso, busquei trabalhar o tema da xipofagia entre vida pública e vida privada. O procedimento ai foi outro. Procuramos, através dos vários capítulos do livro, reconstruir fatos que não se tinham expressado através da linguagem e de faze-lo com a ajuda de indícios e métodos. Numa abordagem de longa duração – são quinhentos anos de história da sobreposição entre público e privado – tentamos colocar ordem no real, compreendendo suas as significações e especificidades. Localizamos, através de usos, práticas e representações, as formas pelas quais nossos antepassados viviam ora como parte do Estado, ora como parte de uma sociedade mestiça que se desenvolveu marginalmente. O conceito ai não foi usado como um signo colado às coisas, mas uma clivagem, em cuja tensão ou em cujo esgarçamento se construiu a história.

         No Brasil temos um longo percurso de pesquisas a realizar, resgatando, ao mesmo tempo, o lamentável estado de alguns dos nossos arquivos. Só gostaria de sublinhar que repetir propostas feitas no estrangeiro não é suficiente. O fundamental é saber se há documentação disponível para desenvolver as teses que florescem no exterior. Um exemplo? Recentemente encontrei indícios de que a América portuguesa teve pintoras: as pernambucanas Luciana, Lucinda, Teresa e Verônica Sepúlveda Teve também mulheres à frente de companhias de teatro e ópera tão eficientes que lhes cabia fechar os contratos com as Câmaras das cidades onde se exibiam. Caso de Maria Benedita Queirós Montenegro. Logo, mulheres que deixaram os limites do privado para trocá-lo pelo público. Mas, e os documentos – mesmo que saibamos que “tudo é documento” – que permitam interpretar e construir as suas histórias? A asserção de Perrot incide, contudo, sobre outra questão. Aquela da distinção entre a pertinência social e a pertinência científica de fazer o estudo da vida privada ou pública de mulheres e crianças. A primeira se baseia numa demanda cada vez maior da sociedade brasileira – e por que não dizer, das mulheres brasileiras – em compreender o seu próprio passado, extraindo dessa compreensão respostas para projetos sociais, políticos, identitários, etc. A segunda é aquela que faz avançar a história, obedecendo a perguntas ou a fatores internos da disciplina. Essa dupla polaridade possui certamente um enraizamento social, pois os historiadores, como indivíduos ou como grupo não são exteriores à sociedade em que vivem. Se as brasileiras estão cada vez mais ocupando os espaços públicos parece-me inevitável que transformem essa mudança em objeto de estudo.

        O livro que organizei sobre História das Crianças tem um débito com pesquisas que se iniciaram na década de 90 na USP, sob a direção de Maria Luíza Marcílio. Grande parte dos seus autores está ligado a esse projeto. Foi, igualmente, uma resposta a um desafio lançado por Gilberto Freire que em 1923 dizia ser impossível “conhecer o homem, sem entender o menino”. Trinta anos antes de Philippe Áries, nosso sociólogo já pensava em escrever sobre a perenidade ou as diferenças de tratamento acordadas à infância, em diferentes épocas e classes sociais. O conjunto de contribuições aporta inúmeras informações para a história cultural da família e da criança brasileira.

         A possibilidade de amarrar narração e argumentação consiste, a meu ver, na parte mais apaixonante de nosso ofício: passar da pesquisa à narrativa, vigiar as lacunas, alimentar a intriga que percorre o texto, cuidar do aparato crítico que envolve o argumento, enfim, fazer história. O texto histórico como dizia Michel de Certeau possui ainda um “eu” proscrito. Ele coloca entre parênteses a personalidade do historiador. Devo confessar que faço isso com alguma dificuldade. Meus textos são muito adjetivados. Ora, esse procedimento me implica no texto quando esse deveria ser o mais abstrato possível, prestando-se a certa cientificidade. História é pensamento, representação e não emoção. Por outro lado, é preciso dar carne e sangue às palavras, fornecendo à imaginação do leitor, os pontos de apoio que lhe faltam. Escrever bem é necessário, já o disseram todos os grandes historiadores de Bloch a Braudel. Mas manejar as palavras não é obra simples. O maior desafio continua sendo achar a palavra certa. Eis porque escrever história, já disse alguém, deve ser uma arte, um trabalho, e, sobretudo, um prazer. Razão provável para que eu goste tanto do que faço!

  • Texto de Mary del Priore. 

 

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  1. JOÃO UMBERTO NASSIF

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