Submissão no século XXI?!

Más notícias: as mulheres continuam submissas! De nada adiantou a propalada revolução sexual, a queima de sutiãs em praça pública, a difusão da pílula. É como se quiséssemos continuar como as eternas representantes do “sexo frágil”, a quem tudo se impõe. Mudamos muito, mas mudamos para continuarmos as mesmas. O que há de ruim nisso? Há um fato novo e quase imperceptível para a maioria de nós. Trocamos a dominação de pais, maridos e patrões por outra, invisível, e por isso, mesmo mais perigosa. A dominação da mídia e da publicidade. É ruim e até pior, pois diariamente enfrentamos a tarefa de ter de ser eternamente jovens, belas e sadias. Não há prisão mais violenta do que aquela que não nos permite mudar. Que nos bombardeia com imagens de eterna juventude, nos doutrinando a negar as mudanças.

Como envelhecer, quando tudo que nos cerca — o outdoor, a televisão, as fotos na revista — é construído de forma a negar o envelhecimento; envelhecimento definido, em nosso tempo, como sinônimo de perda? Os sociólogos têm denunciado o fato de que vivemos um terrível paradoxo: a possibilidade oferecida de, enfim, prolongar seus dias é vivida como algo de negativo. Moldada em torno de valores como o progresso e a juventude, nossa sociedade lida mal com o número crescente daqueles que, envelhecendo, beneficiam-se de um alongamento sem precedentes da esperança de vida.

Os efeitos dessa constatação entre as mulheres é perverso. Em sua grande maioria, investem tudo o que podem na aparência exterior. O modelo de Giseles, Xuxas, Veras parece não deixar opção. Não há limites para continuar magra, turbinada e vitaminada. As cirurgias plásticas, no entender de uma conhecida atriz, tornaram-se uma questão de “higiene”. O silicone nos seios substitui, como explicou saudoso, um comediante, o “tradicional leitinho”. Ora, a identidade corporal feminina está sendo condicionada não pelas conquistas da mulher no mundo privado ou público, mas por mecanismos de ajuste obrigatório da tríade beleza-juventude-saúde. Leia-se: a mulher deve explicitar a beleza do corpo por sua juventude, sua juventude por sua saúde, sua saúde por sua beleza.

Pode não parecer evidente, mas as relações que temos tido com nossos corpos revelam o tipo de identidade que estamos construindo. As revistas femininas nos ensinam que vivemos um momento ideal de “otimismo”. “Que idade? Jovem!”. O anúncio acompanha o produto anti-rugas com o rosto sorridente da mulher de idade indefinida. A foto resume bem essa disposição para fazer com que a idade madura pareça o fim da história. Nada existiria depois dela. Nem mesmo aquele país cinza, da cor da cabeça de nossas avós. A mídia, por sua vez, cauciona essa tese sem pudores. Argumentos publicitários, produtos de beleza e medicina vulgarizada nas revistas são os mecanismos sutis, mas extremamente repressivos, que agem sobre o corpo feminino. Bom seria começar a ter uma posição crítica em relação a esses discursos. Discursos tão mais perigosos quanto aderem de maneira sub-reptícia a nosso cotidiano fazendo-nos confundir sua normalidade com banalidade. O que estamos esperando para começar a reagir?

– Mary del Priore

RokebyVenus velazquez

“Vênus no espelho”, de Velasquez.

4 Comentários

  1. Marianne Martins
  2. Thiago Milfont
  3. Fagner Rodrigues

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