Semana Santa: abstinência e gulodice

          Em muitas regiões do Brasil do século XIX, a rotina era inalterável: homens cuidavam de exercer sua profissão, administrar propriedades ou cultivar a terra. Mulheres praticavam as artes domésticas: a doçaria e a costura, dar ordens, no caso das senhoras, ou obedecer, no das escravas. E assim se enchiam os dias. As distrações proporcionadas pela Semana Santa e as festas dos padroeiros de irmandades quando ocorriam procissões, bailes e leilões de prendas que sacudiam a modorra das vilas. Mas nos principais centros urbanos, as coisas começavam a mudar…

        Em tempo de celebrações ruidosas, festejava-se com fiambre, mortadela, ostras, camarões recheados, pimentões, rosbife com farofa. Restaurantes com chefes estrangeiros pululavam. Os intelectuais cariocas, por exemplo, eram habitués do Mangini, do Café Londres, da Maison Moderne. Em suas mesas se via Artur Azevedo, Coelho Neto, Raimundo Correia, Paula Ney, José do Patrocínio, Duque Estrada. Quem podia, mandava seus cozinheiros aprender cardápios europeus em hotéis estrangeiros como fez D. Angélica de Barros, filha do barão de Souza Queiróz, matrona rica paulistana. O seu teve aprendizado com Guilherme Lébeis, dono do Hotel de França. Mas, em sua mesa não faltava a paçoca com banana, brasileiríssima!

        Alguns costumes, contudo, permaneciam: abstinência de carne na Sexta-Feira Santa? Essa seguia obrigatória. O cônsul Burton, no vilarejo de Bom Sucesso próximo a Diamantina, em Minas Gerais, viu senhores e escravos compartilhando peixes e ovos. Ao final da refeição, todos se puseram de pé, de mãos postas rezaram e persignaram-se. Em Recife, as “ceias de Semana Santa” tinham enorme importância. À beira dos grandes viveiros de Afogados e Jiquiá se retiravam barricas de camorins, carapebas, curimãs; perto dos mangues, se compravam guaiamus e caranguejos. E em Olinda, as famílias se abasteciam do pescado de alto mar, trazido pelos jangadeiros, como conta Félix Cavalcanti, em suas Memórias.

         Câmara Cascudo lembra que um conjunto de regras tentava doutrinar os brasileiros com normas da etiqueta vindas do outro lado do Atlântico. A noção de “boa educação” começava a se sobrepor ao “estar à vontade”. Sentar-se à mesa não era sinônimo de comer. Para comer, era preciso “ter modos”. E quem recomendava era o manual de boas maneiras de J. I. Roquette: nada de colocar o guardanapo na casa do botão do colete, mas, no colo. Não partir o pão com a faca, mas, com a mão. Não deitar o café no pires, para tomá-lo aos golinhos! Nem enxugar o molho do prato com o pão. Proibido lamber os dedos. Nada de soprar a sopa para esfriar ou engolir a comida com precipitação. O almoço entre amigos excluía as senhoras, pois sua presença impediria anedotas ou confidências pitorescas. Iam para a mesa todas as comidas, inclusive as compoteiras de doces, os licores, as garrafas de vinho e as moringas d´água.

  • Texto de Mary del Priore. Baseado em “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2017.
Rugendas missa

Nas fazendas e vilarejos mais afastados, as festas religiosas eram uma distração. (Imagem: Rugendas)

Fazenda Rugendas

Imagem: Rugendas

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