O que acontece com Domitila, após o romance com D. Pedro?

      Às margens do Tietê, a vida de Domitila normalizou-se. Em 1834, ela adquiriu, por 11 contos e 400 mil réis, uma das residências mais aristocráticas de São Paulo. Proprietários endinheirados constituíam quase 27% dos domicílios na parte central, mais dedicada ao comércio. As visitas, as idas à igreja e o movimento visto da janela iam constituir seu cotidiano pacato e azeitado pelas obras de caridade que fazia questão de animar. Ouvia as conversas trazidas pelos escravos do chafariz da Misericórdia. Mandava buscar os alimentos nas quitandas da Ladeira do Carmo ou nas chácaras nas redondezas, muitas delas tocadas por mulheres sós. Convivia com senhoras com razoável diversidade de níveis de vida. Umas viviam de explorar seus escravos, que  vendiam produtos variados em tabuleiros, pelas ruas: peixes, doces, formigas torradas. Outras exploravam o comércio local, ou, com a ajuda de escravas, costuravam e fiavam panos e colchas. São Paulo tinha mulheres de elite que trabalhavam, ganhavam suas vidas e prestavam contas ao fisco. Eram lutadoras, cheias de vida, provedoras da casa e capazes de assumir papéis masculinos. Mulheres como Domitila.

     Na mesma época, instalou-se na cidade aquele que viria a ser seu marido: Rafael Tobias de Aguiar, filho de um tropeiro rico, proprietário de terras, comerciante e arrematador de impostos. Era uma das maiores fortunas da época. Também tinha vida pública: membro do Conselho da Província e do partido liberal, deputado e depois presidente da província por dois mandatos. Casaram-se a 14 de junho de 1842, num oratório privado. Entrelaçavam, como de hábito entre as grandes famílias, fortuna e privilégios.

Ver mais  Lançamento: o primeiro romance histórico de Mary del Priore

     Enquanto isso, na corte, depois do casamento imperial (de D. Pedro com D. Amélia), o ano de 1830 teve clima de guerra civil. Levantes armados ecoaram em outras províncias: Pernambuco, Ceará e Alagoas. Pequenos proprietários, tropas, índios e negros se levantavam, ora contra a centralização de poder, ora contra a pobreza e exclusão em que viviam. Nesse contexto, a 7 de abril de 1831, D. Pedro renunciou ao trono brasileiro. Houve, sim, o medo de ser deposto, mas o pior acontecia em Portugal. A guerra dinástica contra seu irmão para salvar o trono da filha Maria da Glória estava no auge. Com a renúncia, o imperador buscava apaziguar os ânimos no Brasil. Como herdeiro do trono ficou uma criança, que nem tinha completado 6 anos: D. Pedro II. Na prática, a transferência de poder iria reforçar as elites regionais que já tinham mostrado sua força por ocasião da independência.

     Em carta a um amigo, o marquês de Resende, D. Pedro mostrava que a ruptura com a marquesa não deixara marcas profundas. Rupturas podiam ser construtivas. O fim do romance foi vivido como o ato fundador de outro: o casamento com D. Amélia permitiu um retorno às fontes, ou melhor, ao sangue. O novo matrimônio foi o apagamento salvador, redentor do passado e do passivo feito de carne. A paixão por Domitila, já esquecida, resultou em desprezo e ironia. O mesmo desapreço, D. Pedro parecia demonstrar por outras mulheres capazes de despertar desejos. Nas linhas endereçadas ao amigo, revelava um desdém profundo pela esposa do visconde e marquês de Santo Amaro, José Egídio Álvares de Almeida, embaixador em Paris e Londres e senador pelo Brasil, a quem tratou de “puta”.(…)

Ver mais  Amor, sexo e morte: a morbidez dos românticos

     O imperador seguiu de pé, curou suas feridas para enfrentar a última ruptura: aquela que o libertaria definitivamente de todas as outras. Em 1834, D. Pedro fechou os olhos depois de uma enfermidade contraída na campanha militar contra seu irmão. Não se conhecem as reações de Domitila à notícia. Ele tinha 36 anos incompletos. Ela sobreviveu até os 70. O cônsul inglês em Santos, Richard Burton, a conheceu, já entrada em anos. Nunca esqueceu a morena “de olhos negros repletos de simpatia, inteligência e conhecimento” que lhe contava episódios da corte. De cachimbo na boca, como era costume entre as paulistas, Domitila foi reconhecida pelo diplomata inglês como uma grande dame, “extremamente simpática e atraente”.

     No triângulo feito de carne e sangue, a imperatriz Leopoldina viveu seu destino com estoicismo, perdoou e, perdoando, sublimou. D. Pedro esqueceu o que restou da paixão bruta, feita de desejo enérgico e egoísta. E à Domitila, só restou aceitar o fim da carreira sentimental que tanto escandalizou uma época e à qual a lenda acrescentou tanto quanto a história.

  • Mary del Priore. “A Carne e o Sangue”, Editora Rocco, 2012.

Deixe uma resposta