Guerra de Papel

             A maioria da gente diz amar a paz e, apesar disso, sempre houve guerras e guerras feitas até mesmo com entusiasmo.

            “Esta foi a década da Primeira Guerra Mundial. Quando nos últimos dias de julho, e nos primeiros de agosto de 1914, enquanto se sucediam as declarações de guerra, sofri uma emoção como nunca pensei experimentar em minha vida. Vi, como todos, tremer um futuro previsível…. Tudo isso se prenunciou com as declarações quase simultâneas de guerra – a da Rússia à Alemanha e a desta à França e com a invasão traiçoeira da Bélgica, permitindo às hordas germânicas chegarem mais depressa à França. A violação da neutralidade belga provocou instantaneamente a declaração de guerra da Inglaterra à Alemanha. A Europa ficou, assim, toda em pé de guerra… O Brasil ficou alheio ao cataclismo europeu, esperando, porém, avidamente, as notícias que de lá chegavam. Não vinham, como viriam na Segunda Guerra, a toda hora, graças ao rádio. Só a imprensa, com seus telegramas, dava-nos as linhas gerais dos combates” – conta Carolina Nabuco.

            Combates, diga-se de passagem, dos quais o Brasil não participou. Durante três anos, os políticos tergiversaram. O próprio ministro da Guerra, José Caetano de Faria relutava em enviar reforços aos aliados: teríamos pouco efetivos. Mais importante era garantir a segurança contra possíveis ataques alemães em solo brasileiro assim como controlar a presença germanófila, no Sul. Em 1917, um ano antes do fim do conflito e depois de ter tido três navios mercantes bombardeados, o presidente Venceslau Brás, reuniu-se com seus ministros no palácio do Catete e proclamou “o estado de guerra iniciado pelo império alemão contra o Brasil”.  O despreparo era total: canhões não podiam ser usados por faltar-lhes lunetas e menos de 100 metralhadoras estavam a serviço de todo o Exército – explica o historiador Carlos Darós. No fim desse mesmo ano, atendendo a pressões internacionais, o Brasil enviou uma divisão naval, uma médica e um contingente de aviadores para a Europa.

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             Os primeiros abriram fogo contra um cardume de botos, julgando estar atacando submarinos alemães. O episódio entrou para a história com o título irônico de “A batalha das Toninhas”. Aliás, sua maior luta foi contra a gripe espanhola que atingiu a tripulação causando mais de cem mortes e procrastinando as possíveis operações. Os segundos cuidaram de civis e da terrível epidemia de influenza no Hopital Brésilien, montado num antigo convento, e cujos 500 leitos abrigavam feridos graves. Os terceiros, mal saíram do chão. Dos treze aviadores enviados, apenas oito integraram a Royal Air Force em missões de patrulhamento antissubmarinos e dois deles morreram num exercício corriqueiro sobre o canal da Mancha. Outros poucos integraram a cavalaria. Pouco depois, a 10 de novembro de 1917, os brasileiros foram informados que a Alemanha capitulara. Era o fim da guerra. De fato, não havia muita fé nas forças armadas brasileiras, como se vê numa conversa entre o escritor Humberto de Campos e o ex-marinheiro e deputado José Eduardo de Macedo Soares. O militar lhe afirmou com ironia: “As nossas forças armadas, nós todos, seríamos corridos às bofetadas pela colônia alemã de Petrópolis”.

              O país se dividiu entre a Liga pelos Aliados, que contava com nomes de intelectuais como Coelho Neto, Osório Duque Estrada e Rui Barbosa e os germanófilos, o escritor Capistrano de Abreu, o diplomata Oliveira Lima e o jornalista Assis Chateubriand. Os combates mais se deram nos jornais, com troca de artigos, boletins e relatórios de atividades. Parecia tão longe, longe, essa guerra. Sobretudo quando se era criança. Érico Veríssimo, por exemplo, comemorou seu fim queimando uma bandeira alemã desenhada num papel de embrulho:

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            “Veio depois o agosto de 1914 e a Primeira Guerra Mundial. Todos nós em casa tomamos imediatamente o partido dos aliados… indignou-nos a brutal invasão da Bélgica pelos alemães. […] Tratávamos o conflito com espírito maniqueísta. Era o Bem contra o Mal. O Direito contra a Tirania. Bandidos contra Mocinhos.  A reação dos franceses no Marne fez-nos vibrar. Achávamos que Deus não podia deixar de ser aliadófilo, pois aquela era a guerra da Civilização contra a Barbárie. Nunca pude entender um socialista italiano que um dia me disse, criticamente, apontando para os remédios que se enfileiravam nas prateleiras da farmácia de meu pai. “É uma guerra comercial, menino, não se iluda. Veja todos esses produtos da Bayer e da Merck que tanto se vendem. Eu olhava obtuso para os vidros de aspirina e água oxigenada. A França e principalmente a Inglaterra não podem aguentar a concorrência comercial alemã no mundo. E não se trata só de produtos químicos, mas de automóveis, de locomotivas, de indústria pesada. Vocês odeiam o Kaiser, não é vero? Pois o chefe da Krupp manda quase tanto quanto ele na Alemanha. Não se iludam. Esta é uma guerra comercial”. Achei que o gringo estava bêbado. Como é que se podia explicar a causa da guerra mostrando caixas de bicabornato Polenc Frères e de Eurythmine Détan?

            Fosse como fosse, fizemos a Grande Guerra através das notícias de jornal e das muito bem impressas e ilustradas de propaganda que o governo inglês distribui na América do Sul, em versões castelhanas. Lembro-me até do cheiro de tinta de impressão desses panfletos. A guerra no papel era excitante e bela, principalmente a aérea. Uns dos meninos nossos vizinhos, descendentes de alemães – segunda ou terceira geração – gabavam-se das proezas do aviador “lambote” Von Richtofen, conhecido como Barão Vermelho, por causa da cor de seu avião de caça. Diziam que o diabo do homem tinha abatido quase oitenta aviões aliados. “Mentira, alemão batata!”. “Alemão batata é a avó torta!”. Foi assim que começou a Guerra Mundial em Cruz Alta. Unimos nossas forças com as do filho do açougueiro e atacamos o “exército alemão” local. Vencemos todas as batalhas, pois nossos inimigos louros estavam em minoria […]. Festejamos com júbilo a entrada dos Estados Unidos no conflito… Veio finalmente o armistício. A Alemanha estava kaputt. Comemoramos o acontecimento nos nossos arraiais. Foguetes… Acendemos fogueiras. Comemos milho verde assado em suas chamas. Queimamos um arremedo de bandeira alemã que desenhei em papel de embrulho”.

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            A I Guerra serviu para que se adotasse o recrutamento obrigatório, ajudou a formação de reservas e mudou a mentalidade de que servir ao Exercito era uma punição para os mais pobres. Doravante seria um dever cívico. No mesmo ano, a carestia, a especulação com gêneros alimentícios e terríveis condições de trabalho fizeram eclodir em São Paulo, três greves gerais. Manipuladas por militantes anarquistas e comunistas, as greves não significaram que os operários quisessem fazer uma revolução. Queriam como tanta gente, nas cidades que começavam a crescer, um salário e uma vida mais decente.

  • Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: República 1889-1930 (vol.3)”, editora LeYa, 2017.

Reprodução.

 

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