O fim da família tradicional?

     Apesar das mudanças pelas quais passou na segunda metade do século XX, a família segue como a mais velha instituição das sociedades humanas. Valorizada, temida ou inquietante, ela existe! No Ocidente cristão, sobreviveu ao controle da Igreja católica que a queria encerrada na imagem da Sagrada Família. Sobreviveu também aos anarquistas, que, em maio de 68, decretaram sua morte. Hoje, a família pode ser monoparental ou recomposta, constituída por casais mistos casados, não casados, homossexuais, feita de filhos de vários leitos, adotados e “fabricados”, filhos cuja parentela biológica não corresponde, nem remotamente, à parentela doméstica. E a Constituição de 1988 a consagrou: é a união estável entre homem e mulher ou qualquer dos pais e seus descendentes.

       No seio da família, um nó: o casamento. No passado, ele foi o grande divisor entre a casa e a rua, os que casavam perante a igreja e os que viviam amasiados. Ou entre as esposas e as “outras”. Ou entre os casados e os “desquitados”. Estabelecido pelo Código Civil em 1942, o desquite estabelecia a separação a separação, sem dissolução do vínculo matrimonial.  Os “fracassados” que tinham escolhido esta via eram frequentemente vistos como párias, sobretudo as mulheres. Ficavam, inclusive “mal faladas”, se casavam de maneira informal novamente. No máximo conseguiam receber uma indenização por serviços domésticos, o que equivalia uma ajuda para a alimentação dos filhos. Falhar na importante tarefa de constituir e manter uma família era considerado desonroso. O renomado jurista Ataliba Nogueira em entrevista à revista Realidade chegou a afirmar: “sou contra o divórcio e a favor do desquite, porque o desquite cria uma situação horrorosa para os dois. Então, eles preferem continuar vivendo juntos, e fica salva a família para bem dos filhos que crescerão em presença dos pais”. Em 1966, pesquisa realizada por Realidade, 79% dos brasileiros se mostravam a favor do divórcio, 16% contra e 5%, a favor do desquite.

     Sob a capa das críticas, o caldo já começava a ferver. Em 1968, o tema da traição feminina visitava, em letras garrafais, as páginas de O Cruzeiro: “Por que as mulheres traem?”. O articulista se apressava em explicar: casamentos precoces, brigas sistemáticas, falta de atenção entre os parceiros levavam à “traição circunstancial” ou a “deliberada”. Se o homem havia “domesticado” seus instintos sexuais e poligâmicos, resistindo às “pressões externas”, agora, porque trabalhava e estava longe de casa, também a mulher estava “mais exposta às oportunidades de traição”. Afinal, por que “não variar um pouquinho?”. Para eles, porém, a infidelidade delas “não era um perigo eminente, mas um perigo possível”. Vítimas de críticas e de tabus, elas não tinham chance de avaliar as razões do mau passo. Razões? Segundo eles, “martirizante necessidade de carinho”, “para provar que não sofria de frigidez”, “excesso de imaturidade, leviandade, de espírito de aventura”, “por uma fuga do dia a dia que a exaspera”, “por rebeldia aos tabus e ao companheiro dominador”. E o articulista, cheio de dúvidas, finalizava: “quem as irá compreender um dia…”. Já, segundo O Cruzeiro, o marido traía, porque “vivia atormentado pela necessidade de provar que era macho”, “porque tinha que provar a si próprio a capacidade de conquista”, “porque a esposa perdia encantos”, “porque temia o fracasso”, “porque com a esposa havia limites que tinham que ser respeitados”, por narcisismo ou insegurança. E cheio de culpas por viver uma vida dupla, por ter uma “dupla conjugalidade”, se roia por dentro ou acabava num divã de psicanalista.

     Dúvidas e mudanças se acumulavam. Daí que desquites, desenlaces ou “traições” aumentavam e, na segunda metade do século XX, a moral sexual se flexibilizou. Casais não casados, eram cada vez mais aceitos, já podendo circular socialmente. A sexualidade ainda era vivida como um pecado, aos olhos da Igreja, mas um número crescente de católicos começava a acreditar que amor e prazer podiam andar juntos. O Concílio do Vaticano II e a encíclica Gaudium et Spes convidavam a olhar o mundo com simpatia e compreensão. Falava-se em paternidade responsável, em planificação familiar por meio de métodos naturais e muito importantes, em amor conjugal: o amor entre esposos como um bem incalculável para os filhos, a interação entre amor físico e espiritual e a renovação contínua do amor. Uma agenda, sem dúvida, revolucionária e generosa para seu tempo.

  • Texto de Mary del Priore.
Murillo: A sagrada família

Murillo: “A sagrada família”, 1645-1650

Deixe uma resposta