Mulheres e trabalho: preconceito, assédio e independência

       Nos anos 30, cresceu a interferência federal na regulamentação do trabalho. Em 1943, inseriu-se na CLT o item “Da proteção do Trabalho da mulher”. Por ele ficou estabelecida a equiparação salarial entre homens e mulheres e coibiu-se a participação delas em tarefas inadequadas que expusessem sua saúde a qualquer risco.

      Além dos salários baixos, do assédio sexual de chefes e das instalações insalubres das fábricas, as operárias tinham que enfrentar todo o tipo de preconceito.  E o enfrentavam em casa, junto a companheiros que comparavam às fábricas a “lugares de perdição”, a “lupanares”. Entre teares e máquinas, perdia-se a virgindade, corneava-se o marido, vendia-se o corpo.

      Médicos higienistas concordavam: lugar de mulher era em casa. Pois, acreditava-se que o trabalho fora dela, destruiria a família, tornaria os laços familiares mais frouxos e debilitaria a raça. Crianças cresceriam mais soltas, longe da vigilância das mães. E muitas cresciam mesmo. E obrigadas pela pobreza, trabalhavam desde cedo. Mas havia outro fantasma. O do espaço de trabalho como lugar de sedução. Considerada, não uma profissional, mas uma presa fácil, as mulheres ficariam na mira de patrões ou colegas. E não só nas fábricas, onde as relações de comando eram verticais. Nos escritórios, também. O resultado, a traição e a conseqüente difamação de ambos. Outro risco: ela ganhar mais do que ele. Com dinheiro no bolso, dariam mais ordens? Controlariam as despesas? A resposta nesse diálogo de Humberto de Campos com a noiva de um dos filhos de Coelho Neto, sobre o fim do noivado e as novas atitudes femininas:

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            “- que houve entre vocês?

            – Como o senhor sabe, havia entre nós um desacordo completo no modo de encarar a vida depois de nosso casamento. Eu ganho, como funcionária do ministério do Trabalho, ordenado superiora ao de Paulo. O que ele ganha, não daria absolutamente para sustentar a casa. Entretanto, ele queria que eu abandonasse o emprego antes de nosso casamento. Eu objetava a necessidade que tínhamos do dinheiro que ganho. Sem ele, seria a miséria na casa. Paulo alegava, porém, sempre, que as mulheres não querem deixar as repartições para continuar a namorar, depois de casadas. Hoje, tivemos uma discussão mais violenta e ele insultou-me. Insultei-o, também, e devolvi a aliança… Ele saiu atrás de mim, até o ônibus, e gritou-me que havia de vingar-se, pois iria difamar-me por toda a parte.”

        No campo, no interior, mulheres também sabiam ganhar sua vida: “A chácara de Dona Delminda ficava na confluência do rio Botas com o Corguinho da vila, cuja casa marcava o fim do povoado. Ali vivia minha madrinha[…] viúva duas vezes. Criou uma prole numerosa espalhada pelo Brasil afora […] vivia quase só, com seus sessenta e tantos anos e dois netos, meninos criados por ela. Tirava seu sustento da venda dos produtos da chácara: frutas, legumes, leite e criava galinhas e porcos. Tinha seu gado. Dali provia suas necessidades e ainda guardava para as emergências […] fazia questão de receber e pagar até os tostões quando devia e não os dispensava quando tinha a receber”, conta Otávio Gonçalves.

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        Dona Delminda era mulher de poucos recursos. Mas, no campo, mesmo quem os tinha em abundância, trabalhava também. Veja-se o diário de Cecília de Assis Brasil, filha de um dos estancieiros mais ricos do Rio Grande do Sul, ao descrever suas atividades em Pedras Altas:

       “Fizemos enorme colheita de morangos e aspargos. Colhi muitos ovos e deitei uma galinha com vinte […] De tarde ajudei mamãe a plantar um viveiro de várias verduras. Pegou-se um enxame de abelhas. Bordei durante todo o tempo que pude. Debulhamos favas. Fiz uma caixa de papelão para o ovo de socó e para um de bem-te-vi… Depois fomos courear o guaraxaim. Num momento tiramos o couro, que ficou estaqueado na porta do galpão. Antes do chá, agachei a bordar e a ensinar os pequenos do tio Diogo a falar inglês. De tarde fomos pescar lambaris no açude”.

       Ela ainda menciona “fazer vestidos novos de vestidos velhos… tirar leite e fazer manteiga… fabricar rede para a quadra de tênis” e ainda crava: “minhas companheiras tentaram convencer-me que São Paulo e Paris são melhores do que Ibirapuitã. Quando for a esses lugares saberei ao certo, mas por enquanto agarro-me ao meu ideal: a vida no campo. Sou assim, e agora? Tenho plena confiança que meu amor ao campo nunca cessará de crescer”.

       Em Bom Jardim, vale do Paraíba, depois da crise do café nos anos 30, os parentes de Marta Novís resolveram investir no plantio de cana. Sua tia Júlia “comprou máquinas de costura de última geração fabricava enxovais completos. Na usina, ninguém nascia sem ganhar uma cesta com fraldas, camisinhas de pagão, cueiros e toucas. Também não havia noiva que não recebesse seu vestido e sua arca com lençóis e toalhas de mesa. Júlia coordenava e financiava a oficina”.  Transferia-se para a zona rural, pelas mãos de mulheres, a mentalidade paternalista que, na indústria paulista, buscava oferecer melhores condições de vida aos trabalhadores. Não só: mantinha-se a velha tradição de trabalho coletivo, velho de quinhentos anos! No passado, senhoras e escravas costuravam e cozinhavam juntas. A Condessa de Barral foi um dos muitos exemplos que deixou a história das mulheres.

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        Júlias e Marias entre tantas outras foram trabalhadoras que ajudaram a construir o país, nas primeiras décadas do século. Como bem diz a historiadora Margareth Rago, nesse contexto foram definidos códigos sociais, conceitos morais, noções de certo e errado, assim como a legislação trabalhista que regeu por décadas as relações de trabalho, com consequências na vida social e doméstica. Ao homem público, todas as honras. À mulher pública, os opróbrios e xingamentos. Ainda assim, as mulheres recusaram, alteraram e recriaram muitas das práticas que os homens lhes havia imposto no mundo do trabalho.

  • “Histórias da Gente Brasileira: República 1889-1950 (vol.3), de Mary del Priore. Editora LeYa, 2017.

 

De Julien Dupré - Rehs Galleries, Inc., New York City, Dominio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6066144

“Carregadoras de feno”, (1880) Galerías Rehs, Inc., Nova York. Fonte: Wikipedia

 

 

 

 

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