Ser mulher e mãe nos anos 70: rupturas e permanências

A família dos anos 70 foi resultado dos desencontros entre conservadorismo e desejo de liberdade. A participação da mulher nos escritórios, nos serviços, nas fábricas, nas lojas, deu nova dimensão ao casamento. Com métodos contraceptivos mais eficientes, desde 1962, e segurança profissional, as mulheres se “reinventaram” dentro da casa e da família. As possibilidades educacionais também aumentaram para elas, com reflexos mais ou menos evidentes nas relações familiares. A historiadora Ana Sílvia Volpi Scott acrescenta que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira – a LDB) garantiu a equivalência de todos os cursos de grau médio, permitindo que as estudantes da escola normal pudessem disputar e aceder a vagas no ensino superior.

As relações verticais começaram a ser questionadas. Rompia-se, muito lentamente, o ciclo de dependência e subordinação ao marido, embora a imprensa continuasse a idealizar a figura da mãe e da dona de casa. Lembra Scott que, apesar das visões alternativas, ainda era tido como altamente desejável que a mulher se casasse e tivesse filhos, dedicando-se integralmente à família. Só que agora, angustiada. Ameaçada pelas mais jovens, seu horror era “ser trocada por duas de vinte”! Multiplicavam-se as colunas do tipo: “Como salvei meu casamento”. Para a liberada que aderisse à revolução da pílula e do amor livre, não faltavam informações para “entrar no fechadíssimo clube das cabeças que pensam e decidem”.

Só que para entrar no tal clube, era preciso ter cabelos esvoaçantes e corpo sedutor, ser “uma pantera”. O casal continuava a ser o ponto de referência. E como antes, o homem, o juiz que avaliava a mulher. Ele era o seu objetivo e razão de ser. E como antigamente, vigorava para ele o “medo de se amarrar”. E os argumentos científicos brotavam para ilustrar as diferenças: “Ele tem, biologicamente, o instinto da conquista desde os tempos pré-históricos […] a maternidade dotou a mulher de uma estrutura emocional passiva”. E a quem cabia a dupla moral masculina, velha como Matusalém? A ela, é claro: as mais livres e “sempre prontas a responder aos convites mais ousados” estimulavam a “tendência masculina ao não comprometimento” – informavam revistas femininas.

Nessa época, as mulheres também tiveram que enfrentar o fim do mito da “rainha do lar”. Questionada pelos filhos, desmoralizada pelas belezas mais jovens, ansiosas por ver mais e mais mulheres ganharem independência, elas investiam em receitas para “salvar o casamento”. Ele começava a passar por momentos delicados: a dupla jornada de trabalho da mulher, a relutância masculina em participar às tarefas do lar, conflitos em torno da criação dos filhos. O que antes tinha que ser varrido para baixo do tapete, de preferência pelas mãos da esposa, agora ficava óbvio. Como diria o poeta Vinicius de Moraes, como o amor, o casamento passava a ser “infinito enquanto durasse”.

E podia durar pouco, pois, depois de uma longa luta, quase cem anos, a lei do divórcio foi aprovada em dezembro de 1977. As mudanças abalavam, também, o mito da “rainha do lar”, além de não prometer sucesso absoluto. A nova imagem da “mulher que decidia”, que se sustentava, se cuidava, apresentava rachaduras. Ela não decidia porque gostava ou achava importante tais mudanças em sua vida. Mas porque o homem queria assim… Mais. A identificação entre a esposa e a mãe continuava. Que o diga Tônia Carreiro, prima-dona do teatro, que em entrevista, então, afirmava: “o truque de prender o homem não é nem beleza nem juventude. É uma coisa tão besta que dá raiva: é parecer com a mãe”. E a imprensa feminina seguia cheias de fórmulas para agarrar maridos.

Raras as articulistas como Carmem da Silva, atenta às mudanças em curso, e desejosa de conscientizar as mulheres, que não se cansava de fustigar:

“Com tudo isso, o papel da mulher ante o homem reduz-se a: atrair, seduzir, incitar, envolver, obter o que se deseja mediante a simulação hipócrita ou o “nhenhenhém” de criança […] pagar com fidelidade a infidelidade do marido e procurar reconquistá-lo mediante recursos de cosmética, indumentária, culinária, doçura, habilidade, astúcia, submissão […] Na qualidade de boneca de carne, exorbita a importância de seu aspecto físico, escraviza-se à moda, sofre por não manter o padrão que desejaria e repete, convicta, consoladores axiomas publicitários: “Hoje em dia não há mulheres feias”, enquanto se examina angustiadamente no espelho […Em resumo, nossas mulheres, ao mesmo tempo em que acham maravilhoso ser mulher, assim em teoria, estão descontentes com a sua sorte no que tange a realização de sua própria feminilidade; ao mesmo tempo em que afirmam as doces prerrogativas de seu sexo, admitem que seu destino biológico é doar-se em compensações, amar e sofrer por amor”!

Em setembro de 1980, a revista Veja publicou o resultado de uma pesquisa. Nem Amélia nem ativista, a brasileira dos anos 80 era conservadora e tímida, mas sabia que sua filha precisava conquistar a independência.

  • “Histórias da Gente Brasileira – Vol. 4”, de Mary del Priore  (editora LeYa). Lançamento previsto para maio.

madona litta

Madona Litta, de Leonardo da Vinci (1490-1491)

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