“Cativeiro sem fim”: crianças sequestradas e adotadas ilegalmente durante a ditadura militar

O livro reportagem “Cativeiro sem fim”, do jornalista Eduardo Reina, é resultado de uma parceria com o Instituto Vladimir Herzog e Alameda Casa Editorial. A obra conta as histórias de 19 bebês, crianças e adolescentes que foram sequestrados durante a ditadura.  Onze desses casos estão ligados diretamente à Guerrilha do Araguaia e outros oito ocorreram no Rio de Janeiro, em Pernambuco, no Paraná e no Mato Grosso. Segundo Reina, o objetivo dos sequestros era difundir o terror entre a população; vingar-se das famílias; interrogar as crianças; quebrar o silêncio de seus pais, torturando seus filhos; educar as crianças com uma ideologia contrária à dos seus país, além da apropriação das vítimas. Confira o depoimento do autor:

Por Eduardo Reina.

Os militares sequestraram e se apropriaram de bebês, crianças e adolescentes durante a ditadura no Brasil (1964-1985). Eram filhos de guerrilheiros, militantes de esquerda e de oposicionistas ao regime de exceção. Essas vítimas de sequestro foram adotadas ilegalmente por famílias dos próprios militares ou por famílias ligadas às Forças Armadas. Os casos desses sequestros foram sistematicamente escondidos, ocultadas da história nacional; e negadas. Agora, 34 anos depois do fim da ditadura, são descobertos.

Até agora identifiquei e comprovei 19 casos de sequestros e apropriação de bebês, crianças e adolescentes durante a ditadura no país. Todos guardam semelhanças com crimes desse tipo ocorridos na Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia durante períodos de repressão militar.

Dos 19 casos identificados até agora no Brasil, 11 são ligados à guerrilha do Araguaia. As vítimas são filhos de guerrilheiros e de camponeses que aderiram ao movimento. Era o segredo dentro do segredo. Os 11 sequestros no Araguaia foram realizados entre 1972 e 1974, durante as gestões dos generais-presidentes Emílio Garrastazu Médici – quando o ministro do Exército era Orlando Geisel, irmão do sucessor de Médici – e de Ernesto Geisel. Há também casos originados no Rio de Janeiro ou Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco e, até, cinco crianças indígenas levadas de aldeia no Mato Grosso.

Há bebês e crianças entregues a famílias de militares ou a orfanatos; que acabaram adotados de forma irregular. Crianças e adolescentes levadas para quartéis e outras abandonadas após seus pais biológicos terem sido presos e desaparecidos. Nem indígenas escaparam.

Em todos os casos narrados há depoimentos das próprias vítimas, de seus familiares e de pessoas que estiveram envolvidas com os algozes ou com os próprios sequestrados durante a ditadura. Enorme quantidade de documentos, certidões, fotos das vítimas que vivem um cativeiro sem fim. Todos os episódios estão relatados em livro em fase de conclusão.

Um garimpeiro chamado Dejocy Vieira da Silva, que mora em Serra Pelada no Pará, conta que foram 11 as crianças sequestradas naquela época. Eram filhas de guerrilheiros com camponesas e filhos de camponeses que aderiram à guerrilha do Araguaia. Dejocy esteve inicialmente com os comunistas do PCdoB. Depois, durante combate na selva com militares, levou tiro. Sobreviveu, mas ficou com sequelas. Então, se bandeou para o lado do major Sebastião Curió e passou a ajudar o Exército.

Dejocy confirma a existência de ordem para sequestrar e desaparecer com os filhos dos guerrilheiros e de camponeses. Afirma se lembrar da história do sequestro de Giovani, filho do líder dos guerrilheiros, Oswaldão. Não presenciou o crime. Diz que foram realizadas em segredo as operações de sequestro dos filhos de guerrilheiros e de lavradores. “Fizeram tudo às caladas”, diz o garimpeiro-guerrilheiro.

O sequestro de bebês, crianças e adolescentes filhos de militantes políticos ou de pessoas ligadas a esse grupo tinha como objetivo difundir o terror entre a população; vingar-se das famílias; interrogar as crianças; quebrar o silêncio de seus pais, torturando seus filhos; educar as crianças com uma ideologia contrária à dos seus país, além da apropriação das vítimas.

Na região do Araguaia, os militares sequestraram por engano Juracy Bezerra de Oliveira. Inicialmente pensavam que ele era Giovani, filho do líder guerrilheiro Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão. Em comum com Giovani, Juracy tinha a pele morena, a idade aproximada – cerca de sete anos quando foi levado – e o nome da mãe biológica: Maria.

Foi levado para Fortaleza (CE) pelo tenente Antônio Essilio Azevedo Costa. Acabou registrado em cartório com o nome do militar como seu pai biológico. O nome da mãe foi mantido: Maria Bezerra de Oliveira.

Viveu na capital cearense até completar a segunda década de vida. Depois voltou ao Araguaia em busca da mãe verdadeira. Juracy também teve o irmão mais novo – Miracy – levado por outro militar. O sargento João Lima Filho foi com Miracy para Natal (RN). Anos depois, Juracy e a mãe fizeram buscas pelo menino. Não foi encontrado.

“A mágoa que tenho deles (militares) é de terem me tirado da minha família biológica. Hoje em dia meus irmãos têm terra, gado. Eu tenho nada. O Exército tinha prometido me dar meio mundo e fundos. E não deu”, desabafa Juracy.

Depois do sequestro de Juracy, militares encontraram e levaram Giovani, o filho de Osvaldão com Maria Viana da Conceição. Além do pequeno Giovani, desaparecido, foi pega na mesma ação Ieda, outra filha de Maria Viana. A mulher morreu dentro de casa quando os soldados fizeram o cerco para sequestrar Giovani.

“Eu tinha seis anos. Quando cheguei (no nosso barraco) tinha acontecido isso. (Os militares) Tinham matado minha mãe e carregado o irmão meu, mais minha irmã, que sumiu também”, relata Antônio Viana da Conceição, filho de Maria e irmão de Giovani e Ieda.

Entre novembro de 1973 e o início de 1974, seis filhos de camponeses aliados aos guerrilheiros do Araguaia foram sequestrados: José Vieira, Antônio José da Silva, José Wilson de Brito Feitosa, José de Ribamar, Osniel Ferreira da Cruz e Sebastião de Santana. Eram todos jovens, adolescentes que trabalhavam na roça para o sustento de suas famílias. Foram enviados a quarteis.

José Vieira é filho de Luiz Vieira, agricultor que foi morto pelas forças militares durante a guerra no Araguaia. José foi preso junto com o guerrilheiro Piauí, então subcomandante do Destacamento A, em São Domingos do Araguaia.

“Sai de lá com o Piauí. Ele era o comandante dos guerrilheiros. Eu fiquei lá e a tropa chegou e me cercou. Soube que eu tinha ido lá para falar com minha mãe. Mas antes de minha mãe chegar em casa, a tropa cercou. Aí me pegaram. Eu mais ele, o Piauí”, descreve Vieira.

Seu nome está registrado em documentos do Centro de Informações do Exército (CIE) junto com os nomes dos outros cinco filhos de camponeses sequestrados pelos militares entre o fim de 1973 e o início de 1974. Era a fase mais grave de repressão da guerrilha do Araguaia.

Inicialmente Vieira ficou preso e foi torturado na base de Bacaba, erguida no km 68 da Transamazônica. Depois foi levado para o quartel general do Exército em Belém do Pará; onde passou um mês e 12 dias. Depois foi para a 5ª Companhia de Guardas, no bairro de Marambaia, também em Belém. Na sequência foi transferido para Altamira.

Nessa cidade paraense foi incorporado oficialmente ao Exército como soldado no dia 5 de março de 1975. Serviu no 51º Batalhão de Infantaria de Selva, de acordo com Certificado de Reservista. O documento apresenta data de nascimento alterada para que o sequestrado pudesse servir a corporação.

O primeiro caso de sequestro de bebê filho de militante político por militares no Araguaia a ser descoberto foi o da filha de Antônio Teodoro de Castro, chamado de Raul. Castro foi morto e seu corpo está desaparecido até hoje.

Em 1974, ainda bebê, foi levada por dois militares do Araguaia para Belém do Pará. Foi entregue numa casa de acolhida de crianças, fundada por um sargento da Aeronáutica. Tempos depois acabou adotada por casal que cooperava com a instituição e recebeu o nome de Lia Cecília.

Em 2010, ela mesma descobriu que poderia ser filha de Castro ao ver fotos de irmãs do guerrilheiro num jornal. Manteve contato elas. Já fez dois exames de DNA que constataram que os genes de todos têm quase 100% de compatibilidade.

Geisel – Caso emblemático de sequestro de bebê por militares é o de Rosângela Paraná. Foi pega assim que nasceu, no Rio Grande do Sul ou Rio de Janeiro. Acabou entregue a Odyr de Paiva Paraná, ex-soldado do Exército pertencente a tradicional família de militares. Seu pai – Arcy – foi sargento; e seu tio-avô Manoel Hemetério Paraná, médico que chegou ao posto de major e ex-superintendente do Hospital Geral do Exército em Belém do Pará.

Odyr manteve relações de trabalho, através de prestação de serviços, com o ex-presidente da República e general Ernesto Geisel. Foi seu motorista por algum tempo no Rio de Janeiro. Também trabalhou na Petrobras e Ministério de Minas e Energia.

Rosângela descobriu sua condição de sequestrada em 2013, depois de uma discussão em família. Hoje, debilitada fisicamente e emocionalmente, procura seus pais biológicos. Sua certidão de nascimento é falsificada. Foi registrada em 1967 em cartório no bairro do Catete (RJ). O documento aponta 1963 como ano de seu nascimento.

A certidão apresenta local de nascimento imóvel numa rua no bairro do Flamengo. Mas levantamento em cartório demonstra que a casa citada na certidão pertence a autarquia de previdência dos servidores públicos desde 1958.

A família Paraná fez um pacto de silêncio para que não se fale o nome dos pais biológicos ou de onde a bebê veio. Odilma, irmã de Odyr, o pai adotivo já falecido, confirma apenas que Rosângela foi adotada e que a mãe “era uma baderneira”.

“Hoje vivo na angústia de não saber quem sou, quantos anos tenho, e sequer saber quem foram ou quem são meus pais. Todos se negam terminantemente a falar sobre esse assunto. Só desejo saber quem sou, e onde está a minha família. Acredito que esse direito eu tenho, depois de sofrer tantos anos. Hoje só sei que sou um ser humano que nada sabe sobre seus pais. Desejo Justiça”, fala Rosângela.

Índios. Em 1966, cinco crianças Xavante Marãiwatsédé foram levadas com anuência de militares e órgãos governamentais que tinham como principal missão defender os indígenas. A aldeia Suiá Missu onde habitavam ficava entre os rios Xingu e Araguaia, no Mato Grosso. Usineiro paulista comprou a terra e efetuou a transferência de toda a tribo, com quase 290 integrantes, para uma outra aldeia, localizada numa missão salesiana chamada São Marcos, na cidade de Barra do Garças, cerca de 400 quilômetros ao sul de onde estavam.

O desaparecimento das cinco crianças é confirmado pelo padre Bartolomeo Giaccaria, que recebeu os índios na missão. A maioria da tribo morreu numa epidemia de sarampo. Parte da história da disputa por essas terras e da transferência é contada pelo repórter Rubens Valente, da Folha, no livro Os fuzis e as flechas: histórias de sangue e resistência indígena na ditadura.

Há ainda o caso do sequestro de filha de militante de esquerda contrária ao regime militar. Foi levada após seu nascimento no Paraná, na década de 1970. Foi entregue a um general em Brasília. Essa vítima da ditadura, atualmente, não quer ser identificada. Mas todos os documentos sobre essa mulher comprovam a irregularidade.

Outro caso identificado de sequestro é o de Iracema de Carvalho Araújo, filha de Lúcia Emília Araújo, integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Iracema foi abandonada numa praça em Recife (PE), na década de 1960 depois que sua mãe foi presa. Antes, ambas haviam sido torturadas em delegacia no Recife. Anos depois, Iracema foi adotada por uma família no Rio de Janeiro. Já adulta, se mudou para São Paulo e depois retornou a Pernambuco.

Exército. Exército e Aeronáutica não querem se manifestar sobre os casos identificados. Instituições envolvidas mantêm a posição de negação. Assim como se nega a prática da tortura e do assassinato nos porões do DOI-CODI, nas bases militares, nos quartéis e nas prisões.

A divulgação desses 19 crimes hediondos, que não prescrevem, deve ser feita para que a história da ditadura do Brasil seja contada sob o olhar de todos os envolvidos. E tomara que a comunicação desses sequestros de bebês, crianças e adolescentes pelos militares leve outras pessoas a revelarem o que sabem e novos casos possam ser identificados.

Assista ao trailer: 

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One Response

  1. Mckenzie Broger
    13 de dezembro de 2019

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