Isabel: princesa, mãe e “redentora”

     Muitos conhecem a estátua, outros a avenida no Rio de Janeiro. Poucos conhecem Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, nascida a 18h25 do dia 29 de julho de 1846. Junto com sua irmã, Leopoldina, cresceu aos pés da mãe, a Imperatriz Teresa Cristina, na Chácara Imperial de São Cristóvão. Menina viveu num mundo à parte: a sociedade fechada em torno do palácio. Sem familiaridade com criados ou cortesãos, as jovens princesas viviam afastadas do público. As grandes moradias em São Cristóvão ou Petrópolis garantiam seu isolamento. Isabel era obediente e dócil, como se esperava que fossem todas as filhas. Sua aia e amiga Condessa de Barral a descrevia: “gorda”, “bondosa” e dona de “candura angelical”.

     Desde pequena, Isabel conhecia a escravidão. Existia a preocupação de que as meninas não conversassem com “molequinhos” ou os vissem nus, se banhando na praia. Isso podia comprometer sua pureza. Mas elas sabiam perfeitamente o que era um cativo. Aos 18 anos, Isabel listava os seus: “Marta, negrinha de quarto, Ana de Souza, sua mãe, Francisco Cordeiro, preto do quarto, Maria d´Áustria, mulher dele, Minervina, lavadeira, Conceição, Florinda e Maria d´Aleluia, engomadeiras, José Luiz, preto músico, Antonio Sant´Ana, preto que me serviu algum tempo”. Ela estudou para desempenhar o papel de esposa do lar: cuidar da casa, dirigir escravos, educar filhos. Apesar das inúmeras horas de estudo a que lhe obrigava seu pai, D. Pedro, ela era dispersiva e alegava “indisposições” durante as aulas. Estudou muito e aprendeu pouco.

     Aos 14 anos foi prestar o juramento solene de princesa imperial do Brasil, frente às Câmaras, conforme prescrevia a Constituição. E seus pais passaram a ter uma única preocupação: arranjar-lhe um marido. Não era fácil. No coro das grandes monarquias, o Brasil não tinha prestígio: era pobre, longe, selvagem. Um império atrasado e escravagista. Graças ao tio, o príncipe de Joinville, casado com Francisca, uma irmã de D. Pedro, dois jovens atravessaram o Atlântico. Gastão, conde d´Eu, foi escolhido por todos: sogros, aia e a futura noiva Isabel. Como nos contos de fadas, casaram-se e foram felizes para sempre. Ela coberta por rendas de Bruxelas e grinalda de flor de laranjeira. Ele, de uniforme de marechal, coberto de comendas. Diferentemente dos casamentos arranjados na época, o de Isabel e Gastão foi definido pelo coração. A lua de mel foi passada em Petrópolis. Recém-casada, ela registrava apaixonada: “Oh, meu querido, eu nunca me arrependerei de o ter escolhido para mim, pois antes que me escolhesses, eu pensava em ti, e amava tanto”.

      Visitaram à Europa, para que Isabel fosse apresentada às Cortes europeias e, ao voltar, o Brasil acabara de declarar guerra ao Paraguai. Representante de uma família de bravos soldados, os Orléans, Gastão queria engrossar os batalhões. A princípio, D. Pedro não deixou. Foram anos de outras batalhas. A infertilidade do casal preocupava. Quem iria governar o Império se não houvesse sucessão? O casal sofreu. Corriam boatos maledicentes.  Foi quando veio a ordem: Gastão tinha que partir para substituir Caxias. Isabel quase enlouqueceu. Acusava o pai de querer matar-lhe o marido. Durante o tempo em que esteve no front, Gastão recebeu todas as provas de dedicação amorosa: cartas molhadas de lágrimas, violetas secas, pantufas de veludo bordadas pela esposa. Voltou em glória, aplaudido pelo general Osório e adorado pelos soldados. E liberal como era, deixou a marca de seus princípios: aboliu a escravidão no Paraguai.

Dez anos depois de casada, Isabel foi mãe

     Dez anos depois de casada, Isabel foi mãe. Um parto malfeito levou-lhe a pequena Luiza Vitória. Seguiram-se três filhos: Pedro, Luiz e Antonio. Extremamente católica, num momento em que Roma se fechava em conservadorismo, ela cantava no coro da igreja e organizava os terços do mês de Maria. Era acusada de “fanática” pelos republicanos. O casal tinha vida social discreta e o envolvimento de Isabel com o movimento abolicionista foi, também, discreto, até fevereiro de 1888. Nessa época escreveu à Condessa de Barral: era preciso fazer alguma coisa, pois a sociedade brasileira assim o exigia.  A partir de então, pressionada pelo amigo André Rebouças e pelo jornalista José do Patrocínio organizou uma batalha de flores e concertos beneficentes em prol da libertação de cativos. O Brasil fervia em favor da abolição. Durante a regência, enquanto seu pai se tratava em Paris, Isabel aproveitou uma ruptura com o conservador ministro Cotegipe para mencionar durante a Fala do Trono, “a extinção do elemento servil pelo influxo nacional”. Pressionada de todos os lados, sobretudo por uma representação de deputados paulistas e exortações de Joaquim Nabuco para que todos se unissem em torno da Abolição, viu passar o regime de urgência de votação. Isabel veio de Petrópolis no dia 13 de maio para, com uma caneta de ouro, transformar o projeto em lei. Sim, ela assinou a lei. Mas quem fez a Abolição foi a luta dos próprios escravos, dos abolicionistas, dos republicanos e de uma parcela imensa do povo brasileiro que não queria mais ter a mancha de escravista.

  • Texto de Mary Del Priore.
Isabel e D. Pedro

No dia 13 de maio, com uma caneta de ouro, Isabel assinou a Lei Áurea

2 Comentários

  1. Daniel B Miguel
  2. JAIRO BRAZ DE SOUZA

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