“Bela, recatada e do lar”

         Uma conhecida revista semanal resolveu fazer uma reportagem sobre a mulher do vice-presidente, Michel Temer. O texto causou grande repercussão nas redes sociais, e não é para menos: o que lemos foi o retrato de uma “esposa perfeita”, daqueles muito comuns nos jornais femininos das primeiras décadas do século passado. Nesse tipo de publicação, era ensinado às mulheres que o papel de boa esposa e mãe era o que elas deviam almejar. As qualidades ditas femininas eram exaltadas: doçura, cordialidade, submissão, pudor, paciência e resignação.

          Destaco que não estamos criticando Marcela Temer, nem seu estilo de vida: o feminismo sempre buscou a liberdade feminina, seu direito de escolher qual caminho seguir. O que nos chama a atenção é o indisfarçável cheiro de mofo que emana do artigo em questão.  Em especial, porque a principal personagem não é sequer ouvida: outros descrevem sua personalidade e comportamento. Ninguém pergunta a opinião dela sobre nada. Quem é exaltado, se prestarmos bem atenção, é o marido. Um homem “de sorte” por ter sabido escolher uma companheira tão perfeita…

         Voltemos ao passado para entendermos melhor as intenções do perfil em questão. Em “Recônditos do Mundo Feminino”, de Mariana Maluf e Maria Lúcia Mott (História da Vida Privada no Brasil 3, Companhia das Letras, 1998), podemos ter uma ideia de como as publicações afinadas com os setores conservadores tratavam as mulheres no começo do século XX. As mudanças no comportamento feminino, que surgiram com a industrialização e urbanização, assustavam muita gente. “O dever ser das mulheres brasileiras nas três primeiras décadas do século foi, assim, traçado por um preciso e vigoroso discurso ideológico (…) que acabou por desumanizá-las como sujeitos históricos, ao mesmo tempo em que cristalizava determinados tipos de comportamento convertendo-os em rígidos papéis sociais”.

        Cabia à mulher ser a “rainha do lar”, sendo que suas aspirações deveriam se reduzir ao tripé mãe-esposa-dona de casa. Esse discurso não era novo, obviamente, e se baseava na antiga crença de que, biologicamente, o gênero feminino era talhado para as funções da vida privada, enquanto o masculino, para a vida pública. As leis, como o Código Civil de 1916, davam respaldo à autoridade do marido. Havia regras sociais que delimitavam claramente os lugares do homem e da mulher. “Não se pode esquecer ainda que a contrapartida do marido provedor era a mulher responsável pela honra familiar. Ou seja, em troca do sustento garantido, a casada deveria se distinguir socialmente, respeitando os ditames da moral e dos bons costumes”, nos contam as autoras.

       Os jornais e revistas femininos, escritos muitas vezes por homens, insistiam em dar conselhos e louvar o modelo ideal da mulher, criticando duramente feministas e “liberadas”. A maternidade era o ponto alto da vida das mulheres. “Em quase todos os números da Revista Feminina podia-se ler o eterno refrão: toda mulher deve tornar-se mãe”. Por outro lado, a “moça dos tempos modernos” –  vestida de maneira sensual, maquiada e perfumada, perambulando sozinha pelas ruas – era vista como uma ameaça à harmonia da sociedade. Moça “direita” deveria estar sempre acompanhada e manter a discrição. Quem não se encaixasse nos padrões impostos, pagava um alto preço por suas escolhas: era vista como louca, ninfomaníaca, promíscua, masculinizada ou recalcada.

       Nos anos 50, pouca coisa havia mudado, a imprensa continuava classificando as mulheres jovens como moças de família, que deveriam ser respeitadas, e moças levianas, que mereciam apenas desprezo. Era preciso, antes de tudo, “dar-se ao respeito”. E as publicações da época não cansavam repetir tal advertência ao público feminino. As revistas deixavam claro que as moças que ficassem com má fama (de vassourinha ou maçaneta) não conseguiriam se casar – uma perspectiva vista como assustadora naqueles tempos. Mas é importante destacar que “isso não quer dizer que todas as mulheres pensavam e agiam de acordo com o esperado, e sim que as expectativas sociais faziam parte de sua realidade, influenciando suas atitudes e pesando em suas escolhas”, ressalta Carla Bassanezi, em “Mulheres dos Anos Dourados” (História das Mulheres no Brasil, Editora Contexto, 1997).

      Todos esses traços da imprensa de antigamente podem ser observados na reportagem sobre a esposa de Michel Temer. Segundo a repórter, Marcela prefere saias na “altura do joelho”; quer ter mais um filho,“uma menininha”; e quando saiu pela primeira vez com o marido (mais de 40 anos mais velho), foi acompanhada pela mãe. Ainda segundo a revista, dedica-se a cuidar do filho, do marido e “do lar”, não tem aspirações intelectuais ou profissionais. A descrição do relacionamento do casal poderia fazer parte de um desses romances adocicados “para moças”. O texto termina com a citação de um constrangedor poema de autoria do vice-presidente. O mais surpreendente é que o modelo ideal de mulher descrito nesse infeliz artigo em nada difere daquele exaltado pela imprensa conservadora das primeiras décadas do século passado. Um discurso que nem tenta disfarçar seu ranço.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.

 

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Anúncios destinados à “rainha do lar” nos anos 40 e 50; e as moças “modernas” que assustavam os conservadores nas primeiras décadas do século XX.

 

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12 Comentários

  1. Admarino Matos
    23 de abril de 2016
    • Márcia
      23 de abril de 2016
  2. Kenshin
    23 de abril de 2016
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      23 de abril de 2016
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          22 de abril de 2016

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