Uma velha conhecida: a febre amarela

 

              Desde sempre o Brasil bracejou contra epidemias violentas que atacavam à população, sobretudo, as camadas mais desfavorecidas. E, desde sempre, para as pestes ou as doenças corriqueiras, aquelas que jogavam as pessoas na solidão da cama, faltavam médicos. Quantas guerras o corpo não travou, sozinho, contra o ataque das dores e das febres? Os memorialistas não as esqueceram. No início do século XX, uma velha conhecida há, pelo menos 500 anos, voltava a assombrar os brasileiros:

            “Grassava no Rio a febre amarela, sobretudo no verão, mas nós permanecíamos na cidade. Mamãe nos fazia invocar São Roque, o santo tradicionalmente ligado ás epidemias. Nessa época do perigo, acrescentávamos na oração da noite as palavras: “São Roque, valei-nos”… O sintoma da prova eram os vômitos negros. Não havia mosquiteiros nas nossas caminhas, sinal de que se ignorava ainda o meio de transmissão do mal… As vítimas eram crianças em geral ou estrangeiros chegados de pouco. O modesto orçamento sob o qual viviam meus pais, nesses primeiros anos da República, não lhes permitia pensar em tomar casa em Petrópolis”, lamentou Carolina Nabuco.

De 1903 a 1907, Oswaldo Cruz concentrou-se em medidas estratégicas para acabar com o aedes aegypti, conseguindo em quatro anos debelar a doença que assolava a capital brasileira havia mais de 50 anos, com o sacrifício de 60 mil vidas. A caça ao mosquito foi implacável. Afugentavam-se os insetos adultos das casas, com queima de pó-da-pérsia, folhas de eucalipto, enxofre ou fumo; para eliminação de possíveis criadouros de larvas as equipes sanitárias limpavam o lixo das ruas e terrenos, eliminando todos os recipientes onde se acumulava água, lavavam caixas d’água etc. Campanhas semelhantes foram eficazes para o saneamento de outras regiões do Brasil, como Vitória, Manaus e o estado do Pará, alcançando os mesmos resultados, permitindo afirmar que a doença estava regredindo. Engano.

Na década seguinte, a febre amarela mostrava resistência no Norte do país-segundo as historiadoras Aleydis Tasco e Christina Campos. Em 1923, a Fundação Rockefeller, instituição filantrópica estadunidense, fez um acordo com o governo para orientar a solução do problema da luta contra a doença no Brasil em todas as principais cidades do litoral entre o Estado do Rio de Janeiro e o Ceará, excetuando o Distrito Federal. Problema sem fim, em meados de 1928, a febre amarela abalou os estados de Sergipe e Pernambuco. Vários casos também foram registrados em Salvador. Apesar dos combates mantidos pela Fundação Rockfeller, em maio daquele ano descobriu-se casos na capital do Brasil, onde a doença não fora detectada desde a memorável campanha de Oswaldo Cruz. Os médicos culparam o poder público pela volta da enfermidade, alegando que as autoridades não tinham mantido a campanha de combate clássica e permitido a ingerência de um país estrangeiro. Apesar das críticas nacionalistas, o mosquito seguiu se multiplicando e segue presente e ativo, até hoje, assim como o lixo das ruas e das casas.

  • “Histórias da Gente Brasileira: República 1889-1950 (vol.3), de Mary del Priore. Editora LeYa, 2017.

 

 

oswaldo cruz - mosquito

Oswaldo Cruz em uma charge da época. Revista Tagarela, 1903

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