As brasileiras e o mundo do trabalho

          No interior ou na cidade grande, as mulheres trabalhavam. Permanecia o trabalho doméstico como o realizado pela mãe de Érico Veríssimo, retrato da pobreza envergonhada que se multiplicou na primeira metade do século XX:

Encurvada sobre sua Singer, minha mãe agora costurava para fora. Eu sentia uma certa vergonha por saber que D. Bega, esposa de Sebastião Veríssimo, membros ambos de tão tradicionais famílias serranas, era uma modista. Cedo, porém, observei que era ela quem, com o produto do seu trabalho, pagava as despesas da casa. O ruído dessa máquina de costura, o cheiro de fazenda e principalmente a figura de minha mãe com uma tesoura na mão, cortando moldes, são imagens, impressões que se me gravaram para sempre na memória”.

           Outro recurso feminino para aumentar a renda era transformar a casa em pensão, onde se alugavam quartos e oferecia-se pasto: “Nas situações embaraçosas, quando meu pai perdeu praticamente tudo, depois de uma existência de trabalho e honradez, minha mãe sentiu que naquele lugarejo onde morávamos seria a mais difícil a sobrevivência e a educação. Viajou para Campo Grande alugou uma casa […] e foi para o fogão. Surgiu a Pensão Santa Helena, em 1937, em frente ao cine que lhe deu o nome. Nós e minha irmã Olga éramos os “garçons”. Contou Otávio Gonçalves.

          Muitos pais de família não podiam nem ouvir falar que suas filhas fossem trabalhar fora de casa. Entre os italianos a resistência ao trabalho feminino era grande, mesmo entre anarquistas e comunistas, como demonstrou a historiadora Margareth Rago. Zélia Gattai, escrevendo sobre sua irmã, confirmou:

Um dia, cansada de ouvir papai falar em “situação difícil”, Wanda anunciou que estava disposta a procurar emprego; mesmo que ganhasse pouco, sempre daria para ajudar a família. A prima não trabalhava? Essa declaração da filha quase ofende seu Ernesto. Ele jamais consentiria que sua filha trabalhasse para ganhar dinheiro: “Lugar de mulher é em casa, aprendendo a cozinhar”.

Porém, não faltaram empreendedoras como a avó paterna de Ruben Alves. Ei-la de corpo inteiro: “De perfil, nariz decidido e forte, como aquelas efígies cunhadas nas pratinhas de dois mil réis. Impassível, sem uma ameaça de sorriso, cabelo esticado para traz, terminando num coque, gola de renda”. Na foto de um calendário, Sophia – seu nome – aparentava “Uma dama elegantemente vestida, enorme chapéu, sombrinha vermelha com franjas brancas, sapato negro bicudo com fivela dourada […] No calendário estava escrito:

1917 – Boas Festas

SOHIA ALVES DO ESPIRITO SANTO

NEGOCIANTE

Perfumarias, Couros e Molhados

Praça da Boa Morte – telefone n.4

Dores de Boa Esperança – Sul de Minas

            Dona Sophia era uma negociante de sucesso. Esse era o seu sonho: queria ficar rica. Se ficasse rica ficaria feliz. […]. Nascida pobre, pôs-se a trabalhar com vontade de ferro e rica ficou. Tanto assim que ela podia se dar ao luxo de mandar imprimir o dito calendário de arte a ser distribuído pelos fregueses como brinde de Natal. E, acima de tudo, tinha telefone. N.4”.

E o memorialista explica: a riqueza que o calendário brinde de 1917 anunciava era nada, se comparada ao noticiado no jornal A Esperança, de 20 de novembro de 1927. Na página 4 o anúncio gigante estampava que a firma de Sophia passara a correspondente dos Bancos do Brasil e Comercial e também agente da Studebaker do Brasil! Em Belém do Pará, também não faltaram empresárias que souberam integrar o saber-fazer tradicional – e tradicional desde os tempos da Colônia – a uma nova forma de produção. Quem conta é Leandro Tocantins:

Além da indústria caseira de doces, compotas e licores para o consumo doméstico, hábito que veio da antiga vida rural paraense, Belém apresenta uma linha de produção industrial na Fábrica de São Vicente, a maior e mais importante do norte, no gênero. Esta fábrica surgiu modestamente em 1910, graças à inteligência e a tenacidade de uma senhora paraense, D. Maria Rita Ferreira dos Santos, a popular e alegre D. Sinhá. No principio ela só utilizava tachos de onde saíam esplendidas maças açucaradas que logo mereceram a preferência dos beleenses”.

           Os produtos de Dona Maria Rita são fabricados, até hoje, por outras conterrâneas: doce de massa de bacuri, cupuaçu, goiaba, cacau. Compotas de bacuri, murici, mangaba, caju, ananás, carambola e frutas cristalizadas: laranja, abiu, goiaba, banana, caju, abricó.

            É sabido: as brasileiras sempre trabalharam. E muito. Dentro ou fora de casa sustentavam famílias, companheiros, agregados. Não seria diferente nessa época. O que mudou foi o enorme leque de atividades em que se envolveram. No setor de consumo coletivo, nos serviços públicos e no comércio ou em profissões reconhecidamente “femininas”: enfermeiras, professoras, balconistas, telefonistas, secretárias, escriturárias, guarda-livros. A difusão da máquina de escrever tornou as datilógrafas essenciais nos escritórios. Entre as mais pobres, sobrava o caminho da fábrica. Lá, nas primeiras décadas da República, eram até 12 horas de trabalho por dia. Em São Paulo, em 1876, elas constituíam 76% da mão de obra fabril. Em 1956, representariam 23%.  Patrícia Galvão, escritora feminista e comunista em seu clássico Parque Industrial, assim descreveu o ambiente:

Na grande penitenciaria social, os teares se elevam e marcham esgoelando […] O chefe da oficina se aproxima, vagarosa, carrancudo. – Eu já falei que não quero prosa aqui […] Bruna desperta. A moça abaixa a cabeça revoltada. É preciso calar a boca […] Assim em todos os setores proletários, todos os dias, todas as semanas, todos os anos!”.

  • Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: República (1889-19500”, Editora LeYa, 2017.

Lavadeiras do Abaeté, 1957 – Jose Pancetti.

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  1. Maíse

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