A primeira-dama e o vestido branco

Em meio ao agitado cenário político brasileiro da atualidade, a nossa mídia se comporta como se estivesse nos Anos Dourados, principalmente quando se refere às mulheres. Um dos exemplos dessa abordagem peculiar é o tratamento dado à primeira-dama, Marcela Temer. No dia 7 de setembro, as atenções se voltaram para o look escolhido para que a moça acompanhasse os desfiles. Houve elogios, críticas e até uma análise (pretensamente séria) sobre a mensagem que o atual presidente gostaria de passar por meio do visual da esposa. Isso mesmo: nessa perspectiva a mulher nada mais seria que uma extensão do marido. Um dos jornais mais tradicionais de São Paulo chegou a elaborar uma enquete em que os leitores escolheriam qual visual usado por Marcela seria o melhor. Apesar da moça ser jovem e bonita, houve também quem não aprovasse: uns acharam tudo muito simples, outros que o vestido não teria caído bem.

Infelizmente, no Brasil, as mulheres que entram para a vida política ainda são avaliadas pela aparência. Quem não se lembra do massacre à roupa da presidenta Dilma, na ocasião de sua posse? E isso se estende a todas, de distintos partidos e ideologias. Piadinhas sobre forma física, especulações sobre a vida sexual dessas mulheres, cobranças de todos os tipos. A mídia parece mais preocupada com futilidades que com as ideias e propostas delas. Marcela, por exemplo, estará à frente do “Criança Feliz”, um programa coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Social, que será responsável pelo atendimento às 4 milhões de crianças de zero a quatro anos do Bolsa Família. O orçamento previsto é de de R$ 300 milhões. Ninguém quis saber quais seus planos e objetivos? Quais serão suas prioridades? Nenhum repórter indagou se ela se sentia preparada para algo tão importante? O próprio marido quando questionado sobre a qualificação da primeira-dama para o cargo, respondeu que ela é “mãe” e isso bastava. E o pior: tal justificativa foi tranquilamente aceita.

A imprensa dos anos 50 apresentava um modelo ideal de mulher: discreta, obediente ao marido, boa mãe. Trabalhar fora, somente em profissões femininas e “honestas”, e em caso de necessidade. O melhor era que a vida girasse em volta do marido e dos filhos. As publicações voltadas para o público feminino traziam receitas e dicas de como ser uma “esposa perfeita”: não discutir por “bobagens”, não ser ciumenta, cuidar bem dos filhos, não questionar o marido, não dar margem a falatórios, não ter intimidades (mesmo que inocentes) com outros homens que não fossem parentes próximos. Ora, em 2016, muita gente não se cansa de glorificar o comportamento recatado da primeira-dama (quem não se lembra do “Bela, Recatada e do Lar”?), sua dedicação ao filho, e principalmente, o fato dela saber o seu lugar, não se meter em “assuntos de homem”, como política, por exemplo.

Outro ponto explorado à exaustão é a aparência de Marcela, sua beleza e elegância. A mídia se contenta em admirá-la e especular sobre suas grifes preferidas. O Brasil parece feliz em ter uma primeira-dama para enfeitar os eventos oficiais: mulher como apêndice de um homem poderoso. Nos anos 50, esse também era um aspecto fundamental: “era importante também que a esposa cuidasse da sua aparência. Embelezar-se para o marido era uma obrigação da boa esposa e fazia parte da receita para manter o casamento: a caça já foi feita, é precisa tê-la presa. Um homem que tem uma esposa atraente em casa, esquece s mulher que admirou na rua”, destaca Carla Bassanezi, no artigo “Mulheres dos Anos Dourados” (História das Mulheres no Brasil. Editora Contexto/Unesp, 1997).

Nos anos 60, tivemos outra primeira-dama que chamou atenção por sua aparência: Maria Tereza Goulart. Mais de 20 anos mais nova que o marido e belíssima, a jovem não interferia em política e estava sempre impecável. Existiam fofocas e especulações sobre sua vida pessoal, mas a imprensa da época derretia-se pelos modelitos escolhidos nas suas aparições. Seu estilista favorito era Dener. Desde então, algumas esposas de presidentes se destacaram pelo seu trabalho e outras preferiram uma atuação mais discreta. Mas, ainda hoje, nos damos conta que o modelo ideal almejado por parte da nossa sociedade é uma primeira-dama jovem, bela e calada…

As mulheres passaram a atuar mais na política. O número de parlamentares e governantes aumentou, apesar de ainda sermos sub-representadas. Por isso, soa estranha essa nostalgia pela “esposa perfeita” e, consequentemente, pela “primeira-dama perfeita”. Até quando a aparência será o único fator que faz as mulheres receberem atenção (positiva e negativa) da mídia? Mesmo em Hollywood, símbolo do glamour e do culto à aparência, as atrizes resolveram se revoltar em relação a essa obsessão. A maior queixa delas é de que, nos grandes eventos,  para os atores homens, as perguntas são sobre cinema e carreira, enquanto que das atrizes, os jornalistas só querem saber das grifes de seus vestidos e joias, e a respeito de cirurgias plásticas.

Para finalizar, vou citar alguns trechos de publicações voltadas para as mulheres dos anos 50, citados no artigo de Carla Bassanezi. O discurso soa estranhamente familiar…

A esposa jamais deve imiscuir-se nas atividades profissionais do marido, a não ser para expressar aprovação por suas obras, a não ser que o homem seja realmente incapaz, ela evitará opinar sobre suas decisões”. (Jornal das Moças, 1958)

“A mulher tem uma missão a cumprir no mundo: a de completar o homem. Ele é o empreendedor, o forte, o imaginosos. Mas precisa de uma fonte de energia(…) a mulher o inspira, o anima, o conforta“. (O Cruzeiro, 1958).

“É da natureza do homem, principalmente daquele que é bem sucedido em seu trabalho, viver mais para a carreira que para o lar. Não lhe guarde rancor, ele não faz isso para magoá-la“. (O Cruzeiro, 1959).

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti. 

 

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Reprodução da capa da revista Piauí desta semana, em uma clara alusão ao modelo de família ideal dos anos 50; Marcela no desfile de 7 de setembro, de branco. (O Globo).

 

 

 

 

4 Comentários

  1. Celina
    • Márcia
  2. Celina
    • Márcia

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