Da senzala à edícula: mobilidade social e racismo

      Sobre o destino de ex-escravos na pós-Abolição, pesquisas recentes revelam comportamentos diversos daqueles descritos até pouco tempo atrás. O historiador Carlos Coutinho da Costa explica que longe de representarem os responsáveis pela formação de favelas e guetos, de representarem as mazelas ou a heranças maldita do tempo da escravidão, muitos ex-escravos optaram por circular dentro dos estados ou do país. Nas entrevistas realizadas com descendentes diretos de ex-escravizados, a historiadora Ana Rios se deparou com três tipos de trajetórias de vida após a promulgação da Lei Áurea. Na primeira, encontrou histórias de extrema estabilidade. Nos últimos anos da escravidão no Brasil, na região do Vale do Paraíba, vários proprietários conseguiram manter os libertos nas fazendas, alforriando-os em massa. Tentavam construir “laços de gratidão” com os trabalhadores, no intuito de organizar um verdadeiro “exército” de trabalhadores negros.  Muitos desses grupos conseguiram permanecer nas fazendas por muitos anos, e vieram a formar o que hoje a Fundação Palmares reconhece como comunidades remanescentes de quilombolas, encontradas na região do Vale do Paraíba. Além disso, havia os que de alguma forma compraram pequenas propriedades e ali se estabeleceram, trabalhando como meeiros, parceiros, de empreitada, obtendo parte de sua subsistência através das pequenas roças. Em suma, no imediato pós-abolição, a maior parcela dessa população manteve-se no Vale do Paraíba.

      Em segundo lugar, a autora encontrou trajetórias daqueles que não conseguiram obter estabilidade: migravam de fazenda para fazenda em busca de trabalhos temporários, e raramente obtinham algum tipo de mobilidade social por conta da sua intensa movimentação. As histórias de vida são marcadas pela violência, instabilidade, pobreza e falta de laços parentais extensos. Por fim, existiam os que migravam definitivamente para os centros em ascensão. Esse último grupo, formado em sua maioria por filhos e netos, descendentes diretos de ex-escravizados, apenas migrou na década de 1920, quando a condição social e financeira de seus pais não era mais possível de ser reproduzida. Para os que residiam no campo a erosão do solo, as pragas, a diminuição do emprego por conta da desvalorização do café afetaram muito mais rapidamente o trabalhador no Vale do Paraíba. Provavelmente, para sobreviver tiveram de abrir mão do seu último bem, isto é, a terra. Afinal, toda a área desgastada passou a servir como pasto para o gado, que começava a se tornar a alternativa mais viável economicamente para a região.

      Sublinha ainda Coutinho da Costa que, ao longo da década de 1920, os jornais passaram a exercer um papel de incentivadores da migração campo-cidade. Com a diminuição da imigração europeia, em parte por conta da I Guerra Mundial, houve um aumento na necessidade de mão de obra na capital e nas periferias, e, logo, os jornais passariam a auxiliar na divulgação de informações das oportunidades de emprego na cidade do Rio de Janeiro e seus arredores. Para além do aumento da oferta de serviços, regiões no entorno da cidade ampliaram suas produções, em parte direcionadas para o mercado de abastecimento da cidade e em parte para o mercado externo – como foi o caso dos laranjais em Nova Iguaçu, Campo Grande, Madureira e Cascadura – além das indústrias, com destaque para as fábricas de Bangu. Para nutrir tais empreendimentos de mão de obra, os jornais podem ter exercido papel preponderante na divulgação de informações sobre essas regiões. Para além das informações recebidas via material impresso, as pessoas residentes no Vale do Paraíba tinham notícias da Capital através de parentes e amigos migrantes. A prática de troca de informações entre parentes, principalmente as relacionadas com novos ofícios e terras livres, era muito usual entre os camponeses.

    O mesmo historiador lembra que pouca ou quase nenhuma atenção foi dada às características sociais e culturais desse processo. Em primeiro lugar, nada deve ter incentivado mais a migração do que o desejo de muitos ex-escravos de reunir famílias separadas havia muito tempo pelo flagelo da época da escravidão. Um segundo fator a incentivar a migração pode também ter sido a busca de um maior e melhor acesso à educação. Desde o período da escravidão, muitos cativos deixaram, nas cartas de alforria, o desejo de trocar o cativeiro por longos anos de serviço obrigatório em troca de o patrão lhe assistir em caso de doença e, principalmente, dar educação aos seus filhos. Pouco ainda se estudou sobre o acesso da população preta e parda às escolas de ensino básico no Vale do Paraíba; no entanto, nas regiões periféricas, como a Baixada Fluminense, já existem estudos demonstrando a entrada de professores e alunos negros nas escolas. É bem possível que boa parte dos jovens tenha optado por migrar em busca de um maior acesso à educação, pois, viam nela uma possibilidade de mobilidade do século XIX a ferrovia transportava, além do café para a capital, passageiros

           A estória que conta Laura Rodrigo Octavio confirma que a mobilidade social era possível para os netos de escravos e ex-escravos que conseguissem estudar:

            “Vou falar na ama seca (termo paulista para babá) que mamãe levara para a Europa para olhar pelo Eduardo; era uma mulher gorda e bonita, Rachel. Meninota, foi entregue a vovó pelo juiz, e pela vida afora esteve na família, com períodos de ausência. Muito jovem, numa experiência desastrada, teve um filho, Otávio, que ainda a pouco surgiu na Nitro-Química quando Eduardo lá estava como engenheiro-chefe. Num momento da vida, tirou a sorte grande, foi para “Bonos Aires”, como dizia, junto com uma amiga. Depois montou casa; tenho lembrança que até usou chapéu! Por fim, acabado o dinheiro, voltou à sua cozinha, onde era senhora do assunto…Otávio era um mecânico perito…elevou-se estudando sua especialidade depois de ter aprendido inglês para desenvolver os conhecimentos em curso norte-americano por correspondência”.

        Para muitas mulheres que não estudaram, o trabalho doméstico seguiu como a oportunidade de emprego mais viável, o que permitia a mais fácil inserção no meio urbano. Muitas famílias preferiam as criadas de origem italiana ou alemã, às brasileiras, caso da família de Paulo Francis.

    Com umas ou outras, mantinham-se práticas do tempo da escravidão: não havia contrato formal ou regulamentação da jornada de trabalho, nem direitos como férias e 13º. salário, que só seriam implantados, muito mais tarde, em 1962. As relações com as domésticas misturavam hierarquia e paternalismo: eram consideradas da família, mas, subordinadas. Esperava-se delas, que obedecessem. Ao se casar aos 17 anos, a avó de Marta Novis vai para uma fazenda em Bom Jardim, vale do Paraíba: “sua mãe despachou Josefina, a babá para fazer companhia à filha”. Sem mais.

  • Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: República 1889-1950 (vol. 3). Editora LeYa, 2017.
"Preta quitandeira", de Antonio Ferrigno.

“Preta quitandeira”, de Antonio Ferrigno. Pinacoteca do Estado de São Paulo. Reprodução.

Deixe uma resposta