Os alemães e o Brasil

     Até 1871, não existia o Estado alemão. Antes da unificação, a região era composta por diversos principados, condados, reinados e ducados. As potências europeias enxergavam uma Alemanha unificada como uma ameaça, e mantê-la fragmentada fazia parte da política da época. As guerras napoleônicas deixaram lastros de destruição no interior do país. Após a queda de Napoleão Bonaparte, muitos alemães que o haviam servido passaram a ser perseguidos e isso motivou a ida de alguns para o Brasil. Somado a isso, o processo de industrialização avançava sobre algumas regiões alemãs, o que desestruturou o mercado de trabalho no qual havia ainda resquícios de feudalismo, aumentando a pobreza entre os camponeses. Em decorrência, muitas pessoas viam na emigração uma saída para as suas mazelas. Os alemães que imigraram para o Brasil eram normalmente camponeses insatisfeitos com a perda de suas terras, ex-artesãos, trabalhadores livres e empreendedores desejando exercer livremente suas atividades, perseguidos políticos, pessoas que perderam tudo e estavam em dificuldades, pessoas que eram “contratadas” através de incentivos para administrarem as colônias ou pessoas que eram contratadas pelo governo brasileiro para trabalhos de níveis intelectuais ou participações em combates

       Mesmo tratando-se duma emigração pequena, ela teve um impacto notável na composição étnica do país, em especial da população do Sul do Brasil. Diferentes fatores levaram a esta grande influência. Em primeiro lugar, a imigração alemã para o Brasil é um velho fenômeno que começou em 1824, muitas décadas antes do início da imigração de outros grupos étnicos da Europa para o Brasil. Por exemplo, o primeiro grupo significativo de italianos a imigrar para o Brasil só chegou em 1875, muitas décadas após a chegada dos primeiros alemães. Quando a migração de outros europeus ao Brasil começou, os alemães já lá estavam, há muitas gerações. Outro fator foi a alta taxa de fecundidade entre as mulheres teuto-brasileiras. Entre 1826 e 1828, a primeira geração teuto-brasileira tinha uma média de 8,5 filhos e a segunda geração tinha uma média de 10,4 filhos por mulher. As taxas de fecundidade entre as mulheres teuto-brasileiras eram maiores do que as de outras brasileiras, resultando num crescimento proporcionalmente mais rápido da população de origem alemã do que da população de origem não alemã. O imigrante alemão difundiu no Brasil a religião protestante e a arquitetura germânica; contribuiu para o desenvolvimento urbano e da agricultura familiar; introduziu no país o cultivo do trigo e a criação de suínos. Na colonização alemã, não se pode negar, está a origem da formação de um campesinato típico, marcado fortemente com traços da cultura camponesa da Europa Central.

       A primeira colônia alemã no Brasil foi fundada ainda antes da independência de Portugal. No sul da Bahia, em 1818, o naturalista José Guilherme Freyreiss criou a colônia Leopoldina, onde foram distribuídas sesmarias para colonos alemães, porém o projeto fracassou. Os colonos se dispersaram e a mão de obra imigrante nas sesmarias foi substituída pela escrava. As outras duas tentativas de assentamentos alemães na Bahia, de 1821 e 1822, tiveram o mesmo destino fracassado. Trazidos a mando do Rei Dom João VI, em 1819 o governo português assentou famílias suíças nas serras fluminenses. Estas fundaram o atual município de Nova Friburgo. A colônia também fracassou: foi mal estruturada, situando-se longe do mercado consumidor, o que levou muitos dos suíços a abandonarem os assentamentos. De forma a evitar a sua extinção, em 1824, a colônia recebeu 350 alemães.

     O fracasso das colônias baianas e fluminense é frequentemente ignorado pela historiografia, que consagrou a colônia de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, como o marco inicial da imigração alemã no Brasil. Em julho de 1824, os primeiros alemães chegaram ao Sul, sendo assentados à margem sul do Rio dos Sinos, na atual cidade de São Leopoldo. Trazidos por Georg Anton von Schäffer, alemão radicado no Brasil e major do exército brasileiro, Schäffer, amigo da imperatriz Leopoldina, foi incumbido pelo governo brasileiro de ir à Alemanha e trazer soldados para formarem o Batalhão de Estrangeiros, necessário para reforçar a defesa dos territórios do Sul. Como recebia dinheiro de acordo com a quantidade de pessoas que trouxesse, Schäffer se esforçou em atrair grande número de indivíduos, dentre os quais muitos de origem duvidosa. Os documentos atestam o recrutamento de centenas de presidiários alemães em cadeias e casas de correção de Mecklenburgo para serem mandados para São Leopoldo. Contudo, milhares de alemães indigentes, ao saberem que o Brasil estava oferecendo terras, foram para Bremen e Hamburgo em busca de uma passagem, mas se recusaram a assinar contrato de serviço militar. Schäffer recebeu autorização do Rio de Janeiro para permitir a vinda deles mesmo assim.

      Em 1829, as primeiras colônias alemãs foram criadas em Santa Catarina e no Paraná. A primeira fase da imigração se encerrou em 1830, em decorrência da falta de recursos financeiros e da dificuldade de trazer imigrantes, agravada pela eclosão da Guerra dos Farrapos. Nesse período, entraram no Brasil cerca de cinco mil alemães, entre soldados e imigrantes destinados à produção agrícola. No Sul, desenvolveram um sistema produtivo baseado na pequena propriedade com mão de obra familiar, em lotes que mediam cerca de 80 hectares cada. Os alemães iniciaram um processo de ocupação das terras de floresta desprezada pelos latifundiários gaúchos, resultando na ocupação de extensa área relativamente próxima a Porto Alegre. O mesmo se deu em Santa Catarina, onde a primeira colônia estava próxima da capital, Desterro, hoje Florianópolis.

      Após 1845, a imigração foi retomada, com a fundação de uma colônia alemã no Rio de Janeiro, em Petrópolis. No Sul, os assentamentos alemães de São Leopoldo avançavam sobre o vale do rio dos Sinos e em Santa Catarina surgiram três novas colônias nos vales dos rios Cubatão e Biguaçu. Nesse momento, cresceram os debates políticos acerca da conveniência de se trazer alemães para o Brasil, devido à entrada de muitos luteranos num país onde a religião católica era a oficial. Apesar das vozes contrárias, a partir de 1847, alemães foram engajados no sistema de parceria nas plantações de café de São Paulo, que se mostraria um fracasso e, no mesmo ano, 38 famílias oriundas do Hunsrück e Hesse fundaram a colônia de Santa Isabel no Espírito Santo.

      Após 1850, mudanças fundamentais foram feitas para atrair maior número de imigrantes. As despesas com demarcação de lotes e assentamentos de colonos foram transferidas do governo imperial para as províncias. Visando diminuir suas despesas, o Estado permitiu a atuação de companhias particulares de colonização, que compravam as terras e as revendiam aos imigrantes. Em 1850, a Lei de Terras estabeleceu que os colonos apenas pudessem ter a posse da terra por meio da compra e não da simples posse como ocorria anteriormente. As denúncias contra o sistema de parceria em São Paulo, materializadas com a revolta dos colonos da fazenda Ibicaba, em 1847, contra as péssimas condições de trabalho nas fazendas cafeeiras, fizeram com que a Prússia proibisse a imigração para o Brasil em 1859. Mais tarde, essa restrição seria revogada apenas para os três estados sulinos. Isso contribuiu para a concentração da imigração alemã no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

  • Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2016.

Pedro Weingärtner

 

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