“Úmida Trama”: duas realidades do desejo feminino

Paris é alvo de um atentado.

       Dentro do Museu d’Orsay, uma vagina é rasgada com uma faca: a tela “Origem do Mundo”, de Gustave Courbet. Um ataque à arte e às mulheres. Em “Úmida Trama”, siga os passos da historiadora Desirée por corredores de museus, e descubra as relações entre a história da arte brasileira e a francesa no século XIX. Mergulhe nas águas de Joanna Hiffernan, musa do pintor realista Courbet, e Maria Laura do Amaral Gurgel, paixão secreta do pintor brasileiro regionalista José Ferraz de Almeida Júnior.

      Esse é o resumo do novo romance da historiadora Eneida Queiroz. Sua Desirée, que já havia narrado um romance impossível em épocas de Abolição da Escravatura, entre o abolicionista Joaquim Nabuco e a financista Eufrásia Teixeira Leite, em “A Mulher e a Casa”, agora volta para dar continuidade à série de histórias poéticas em museus, com “Úmida Trama”.

       A dicotomia pauta o livro: duas realidades do desejo feminino são apresentadas, por meio de Joanna Hiffernan – modelo e amante dos pintores James Abbot Whistler e Gustave Courbet – e Maria Laura, moça religiosa e tímida do interior paulista, casada à força aos 13 anos, mãe aos 14, cerne de uma tragédia entre primos. A dicotomia segue também entre a própria narradora e sua mãe, antifeminista, mas em vias de ser convencida do óbvio por sua filha: o machismo destrói e mata das mais diversas formas, até mesmo os homens. A morte de Almeida Júnior, portanto, é emblemática: assassinado em praça pública pelo marido de Maria Laura.

       Nesses tempos que reacionários ganharam voz no mundo digital, vejo com mais clareza a importância de coletivos feministas, como “Moça, você é machista”, “Não me Khalo” e outras comunidades que falam sobre a importância e urgência do feminismo no Brasil e no mundo, e que são citadas no livro. Realmente me surpreendo com o obscurantismo que – sempre foi a marca do Brasil – mas agora se mostra visível nas mídias sociais, até mesmo no campo das artes. Exposição Queer barrada em Porto Alegre, agora no Rio pelo prefeito, performance em São Paulo insultada como pedofilia: os exemplos são incontáveis. Se você também é contra à criminalização da arte e dos corpos, venha para o lançamento do livro dia 27 de outubro, na Livraria Arlequim, Praça XV, às 18:00 horas, no Rio de Janeiro.

      Se você que tem dificuldade para falar sobre vanguarda artística, ou sobre questões de gênero, com sua mãe, seu pai, seu vizinho, tios ou avós: quem sabe um romance ambientado em belos museus de Paris e São Paulo, que vai abordando esses assuntos com calma, não é uma boa dica?

Por  Eneida Queiroz.

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