José Bonifácio: a perseguição aos “inimigos da ordem pública”

Em 2 de novembro de 1822, foi aberta a devassa que passou à história batizada de “Bonifácia”. Sim, pois a vingança é um prato que se come frio. O grupo de Joaquim Gonçalves Ledo foi acusado de “inconfidência ou conjuração, ou demagogia”. Uma portaria encorajava delações e estendia a devassa às outras províncias. Todos os que tinham assinado o pedido de uma Constituinte foram considerados “conspiradores” e presos e deportados. “Terríveis monstros desorganizadores”,“Facciosos inimigos da ordem pública, traidores do Império”, de todos eles Bonifácio se vingava. José Clemente, o Cônego Januário e Pereira da Nóbrega foram exilados e partiram para a Europa. Ledo fugiu para Buenos Aires, sob a proteção do cônsul da Suécia, não sem antes enviar a D. Pedro uma representação de inegável altivez.

Em apoio aos opositores, Cipriano Barata denunciou traços do mesmo despotismo usado pelo Marques de Pombal, na violenta repressão conduzida por Bonifácio: “Só maus príncipes lançavam mão de meios tão abomináveis quando estão em desconfiança e temores de seu mau governo”. E recomendava que Bonifácio voltasse a ler o Testamento Político de Montesquieu, para evitar “o sistema de terror e arbitrariedade” que se via no horizonte do país. Indignava-se com os antigos revolucionários, como Antonio Carlos, seu colega nas Cortes de Lisboa, que, ao chegar ao poder se tornavam ditadores. A ele endereçou violenta reprimenda por meio de seu jornal, “Sentinela da liberdade na Guarita de Pernambuco”: “Mas agora quero eu envergonhar Antonio Carlos: dize homem alucinado pela soberba: não tens peio de favorecer o Governo Absoluto e de promoveres o despotismo? Tu que, em 1817, andastes puxando pelas ruas atado em cordas, cuspido, vituperado, sujo no rosto com xichelos de monturo e gatos mortos, assoviado e apupado, tu te atreves a favorecer o despotismo?”. Para Cipriano Barata, Bonifácio se tornara um ditador também.

Alheio ás críticas, Bonifácio espezinhou seu antagonista direto: publicou no Espelho, 38 versos quebrados, contando a trajetória de Ledo, sob o título de “O fim da impostura”. Desde a sua caricatural descrição física a acusações de conspirar para “exaltar aos mais lucrativos empregos do Estado” e aspiração a títulos de nobreza, não o poupou: “Viu que os intentos/ desse embusteiro/ eram, de todos/ ser o primeiro/ e que a nobreza aborrecia/ só porque nobre/ já não se via/ viu que da intriga/ nos labirintos/ ele envolvendo/ homens distintos/, os afastava/ com mil desgostos/ para dos mesmos/ entrar nos postos”. Ao jornalista Luís Augusto May, português dono do célebre Malagueta, Bonifácio mandou recado que o esperasse em casa. May mandou preparar um chá e aguardou. Ao abrir a porta, foi moído de pancadas com paus e espadas nuas, rendendo-lhe a visita de Bonifácio e seus asseclas, doze contusões e um aleijão no dedo indicador da mão direita. Em meio à escuridão, May teve que fugir para a casa do vizinho.

Em 1º de dezembro do mesmo ano, D. Pedro foi sagrado e coroado, não rei, mas Imperador do Brasil, para mostrar que, apesar do direito monárquico, também fora eleito pelo “povo”. A exemplo de Napoleão que admirava e que criou a Legião de Honra, “Para perpetuar a memória deste dia ele criou a Ordem do Cruzeiro, puramente brasileira; e bem a Guarda de Honra para sua pessoa”. A guarda da Casa dos Pássaros – primeira tentativa de um museu de História Natural – entregou todos os tucanos de papo amarelo para a confecção da capa do soberano. Uma segunda cerimônia teve lugar no dia 10 de dezembro. Segundo a tradição do Antigo Regime, manteve-se a pompa dentro e a população fora do templo. “Um espetáculo estranho nos fastos lusitanos e assombroso para a América” cravou o jornal O Espelho. O império nascia sob as bênçãos do Antigo Regime. Tudo certo e calmo?

A Borboleta Duriense envenenou os leitores portugueses. No dia chuvoso da coroação, as janelas estavam desertas apesar das salvas de tiros. Somente as famílias cuja ausência seria imperdoável, se mostraram. “O Imperador ia vestido de amarelo e verde, rodeado pela gentalha que dava vivas […] O silêncio com que se cortejava uma gente a outra, sem parar a conversa, mostrava bem a desconfiança em que todos estavam de expor francamente seus sentimentos. Todos confirmam que José Bonifácio é Duque. Agora subirá os degraus da baixeza porque o novo imperador tem subido para a consumação do ato de hoje”.

  • Texto de Mary del Priore.
José Bonifácio de Andrada e Silva

José Bonifácio de Andrada e Silva, por Benedito Calixto. Fonte Wikipedia

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