Prostituição e turismo sexual no Brasil

Nos finais dos anos 70, todo o mês de julho, a vida noturna das grandes cidades, animava-se. Em época de férias, com mulher e filhos distantes para descansar melhor, exauriam-se os maridos: “as cigarras”, como eram chamados. Sua presença em boates, nightclubs e todo o tipo de casa noturna, azeitava o faturamento da indústria da prostituição, um negócio com muitos interesses. No meio do ano, eles batiam recordes. Não só o preço das prostitutas subia, mas, acrescia a venda de bebidas alcoólicas e drogas, a freqüência de hotéis e motéis e até porteiros de boates eram beneficiados.  Em 1973, apenas em São Paulo, a polícia calculava haver 10000 prostitutas, sendo 4000 cadastrada. Entre essas, de 3000 a 3900 atuavam exclusivamente na “boca do luxo”, região onde casas como o La Licorne, Vagão, Telecoteco da Paróquia, Catedral do Samba, etc, tornavam-se terreno de caça entre cigarras e formigas. Todo esse aumento da prostituição, no entanto, não era coibido pela polícia, uma vez que vender sexo não era crime.

Em 1979, o Brasil assinou a “Convenção contra o Tráfico de Pessoas e Exploração da Prostituição”. A atividade não era crime ilegal, mas sua exploração, por lenocínio ou tráfico de mulheres, sim, conforme artigos 227 e 231 do Código Penal Brasileiro. Alerta para o fato, a Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, já chamara atenção para a situação das “madalenas”, sugerindo, inclusive, apoios: “A prostituição, como instituição legal, é uma mancha vergonhosa em nossa civilização. É a aceitação de um fato, postulado pelo egoísmo dos homens, propiciado pela fragilidade das mulheres, amparado pela hipocrisia generalizada” – registrava Dom Luciano Duarte.

turismo sexual

Capa de revista inglesa de turismo, 2014

Em outubro de 2000, a revista Época elaborou uma série de reportagens sobre as “Prostitutas do século XXI”. Se antes, o ofício nascia da miséria, da falta de oportunidades, da migração interna e da promiscuidade, as coisas mudaram. Uma das entrevistadas dizia ansiar por fazer 18 anos para assumir, sem documentos falsos, sem a condição de vítima, a condição de prostituta. Escolhera comercializar o corpo, atraída por dinheiro. Seu namorado era o “empresário” e decidiu que ela deveria aprender inglês para negociar com clientes estrangeiros. Ao despedirem-se, na porta do local de trabalho, ela e ele trocavam juras: “eu te amo”.

Cafetinas entrevistadas explicavam que as cidades grandes atraíam meninas do interior. Elas ajudavam a família e para que não houvesse desconfiança do métier exercido, usavam dados mentirosos. Atraídas pela clientela VIP, muitas delas faziam carreira e uma vez a “profissão” abandonada, casavam, mudavam e montavam negócios próprios. Não era, contudo, a realidade de todas. “Pisteiras” arriscavam suas vidas à beira de estradas movimentadas, muitas delas, menores. No Centro-Oeste e Sul prevalecia a exploração em prostíbulos na rota do narcotráfico, redes de bordéis fechados, exploração de meninos e meninas de rua e denúncias de tráfico de crianças. O jornalista Gilberto Dimenstein as registrou nas áreas indígenas, sendo trocadas por cachaça, remédios, roupas e comidas.  Nos garimpos, do Norte, mal menstruavam, meninas eram encaminhadas aos bordéis. As condições eram terríveis: leilões de virgens, venda e tráfico de crianças e adolescentes, desaparecimento e cárcere privado e turismo sexual. No Nordeste e Sudeste prevalecia o último com rede organizada de aliciamento, que incluía agencias de turismo, nacionais e internacionais, hotéis, taxistas e comércio de pornografia.

Segundo relatório da ONU, em 2001, havia 100.00 mulheres e crianças sexualmente exploradas, no Brasil. A vida destas pessoas, pouco mudou de lá para cá…Em 2003, o deputado federal Fernando Gabeira apresentou um Projeto de Lei tendo em vista o reconhecimento da prostituição como um “serviço de natureza sexual” e a legislação trabalhista tratou de inserir a atividade de profissionais do sexo como parte da Classificação Brasileira de Ocupações. Dos bordéis às boates e casas de massagem, e destas para as telas do computador, a prostituição confirma ser a mais velha e maleável profissão do mundo.

  • Texto extraído de “Histórias da Gente Brasileira – vol. IV”, de Mary del Priore (editora LeYa).

Embratur 1983

Propaganda da Embratur de 1983

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