Bicicleta, espartilho e feminismo

A bicicleta teve um grande impacto na vida das mulheres na virada do século XX. Ela ajudou as mulheres a conseguir mais autonomia e independência, facilitando a sua locomoção pelas ruas das cidades, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, entre as sufragistas sobretudo. O fenômeno acabou por se espalhar pela Europa e, finalmente, chegou ao Brasil. Vários artigos em revistas femininas e depoimentos de feministas da época atestam a contribuição que o uso deste meio de transporte trouxe para a emancipação feminina. Houve muita resistência ao modismo, mas os mais conservadores tiveram que aceitar as ousadas ciclistas.  

       A bicicleta teve também grande influência na moda. O início do século XX marcou uma mudança no vestuário feminino: as roupas se tornaram menos pesadas e a mulher ganhou mais liberdade de movimentação. Pois, a bicicleta também ajudou a libertar as mulheres das roupas apertadas e do excesso de volume. Como pedalar com saias cheias de tecidos, rendas e amarrações? O espartilho foi escolhido como o principal inimigo das atléticas mulheres. Nos países onde o hábito feminino de pedalar se popularizou, o uso do espartilho foi abandonado mais rapidamente.  

     Os médicos da época se dividiam quanto aos benefícios das pedaladas às mulheres – enquanto muitos achavam que o exercício era contrário à delicada estrutura física feminina, outros acreditavam que era positivo. Alguns acreditavam que a bicicleta poderia estimular indevidamente a sexualidade…Em uma coisa, contudo, todos os especialistas concordavam: o quanto um espartilho apertado, com impiedosas barbatanas e arames, podia prejudicar a saúde das mulheres.

Cabe aqui uma explicação sobre o terrível espartilho, que torturou mulheres até o início do século XX.  Um acessório feito com um emaranhado de arames (no século XVIII, de barbatanas de baleia) que apertava a cintura e acentuava as curvas femininas. As mulheres não saíam de casa sem ele, que realmente modelava os corpos. Só que os prejuízos à saúde – e à mobilidade – eram grandes. Algumas exageravam, permitindo que os arames machucassem a pele e os músculos, atingindo até os órgãos internos. Mesmo as grávidas (!) não abriam mão dele, e os médicos travaram uma batalha dura para convencer as vaidosas. Por fim, com a emancipação feminina, o espartilho foi trocado por cintas elásticas e lingeries mais confortáveis. Passamos por uma fase, nos anos 70 e 80, em que a mulherada queria mais era sair sem nada sob as roupas…Liberdade era a palavra de ordem. Há algumas temporadas, porém, o espartilho ganhou vida nova e surgiu das cinzas com outros nomes: corselet ou corselete, corset, corpete, mas com materiais flexíveis, sem  causar tantos danos ao corpo.

   Porém, voltemos à bicicleta. Esta só trouxe avanços ao sexo feminino: deu-lhe a oportunidade de se locomover com mais liberdade, mostrou-lhe a importância dos exercícios físicos e ainda simplificou-lhe o guarda-roupa, ajudando as mulheres a abandonar de vez aqueles detestáveis espartilhos. Viva a bicicleta!

– Márcia Pinna Raspanti

sufragistas

Referências bibliográficas:

“Livres para Pedalar”, de Victor de Melo e André Schetino, na Revista de História da Biblioteca Nacional, nº 57.

“Recônditos da Vida Feminina” de Mariana Maluf e Maria Lúcia Mott, em História da Vida privada no Brasil, vol.3,

Dicionário da Moda”, de Marco Sabino

“História Ilustrada do Vestuário”, organizada por Melissa Leventon.

 

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  1. Celina

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