Moda e política no século XIX

As reviravoltas políticas do final do século XVIII e início do século XIX tornaram as saias mais modestas e murchas, sem aquelas armações de outros tempos. A França pós-revolucionária passou a ostentar vestidos do tipo império, sapatos de saltos baixos e até cabelos mais curtos. O resto da Europa copiou as modas francesas.

O Brasil assistiu a uma série de transformações: Independência (1822), o Primeiro Reinado e as revoltas regionais, as regências, a coroação de D. Pedro II (1841), o Segundo Reinado, a abolição dos escravos (1888) e, finalmente, a chegada da República (1889). Começou a predominar a “mentalidade burguesa” nas classes mais altas; as cidades maiores passaram a ter um caráter urbano. As mudanças no âmbito do vestuário também se tornaram cada vez mais rápidas: sucessivamente, os modismos chegavam e eram esquecidos.

A despeito de todas as revoluções e ideais, as saias rodadas, sustentadas pelas crinolinas (armações redondas de crina de cavalo, barbatanas de baleia ou arame retorcido), voltaram com toda a força, ainda na primeira metade do século XIX. As damas mais abastadas adotaram o visual romântico com gosto, deixando para trás a leveza dos modelos império. Os pés se esconderam novamente sob as saias, que ainda podiam ser adornadas por cascatas de babados, no caso das mais jovens. O espartilho voltou a reinar. Os penteados eram formados por cachos, à europeia. O xale ainda era indispensável na indumentária feminina, inclusive entre as mulheres mais pobres.

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Gilberto Freyre conta que, além da capital Rio de Janeiro, Recife, Olinda e Salvador eram polos mais importantes econômica e socialmente, com uma aristocracia dada à ostentação e ao luxo. A elite era formada principalmente por senhores de engenho do Nordeste, plantadores de café do Sul, criadores de gado das províncias do interior e do Rio Grande do Sul. A economia de São Paulo começou a se desenvolver na segunda metade do século, tornando-se, mais tarde, a terra dos “barões do café”. Enfim, o dinheiro “grosso” permaneceria  nas mãos dos grandes proprietários.

O hábito de marcar as diferenças sociais e distanciar-se cada vez mais dos mais pobres continuava a direcionar a moda dos ricos. As iaiás do Nordeste se vestiam com cores mais claras, rendas de bilros (de preferência do Ceará ou de Bruxelas), saiotes engomados de algodão, luvas, leques e chapéus. Os decotes eram mais discretos que no século anterior, com colarinhos fechados e broches arrematando as golinhas brancas. O tafetá, especialmente negro e de cores escuras, parecia dominar as preferências das matronas dos engenhos e senhoras das fazendas do interior. As mulheres da aristocracia rural eram mais austeras com relação aos adornos que as damas do Rio de Janeiro. Nas festas e bailes, preferiam mostrar os ombros e as saboneteiras; os braços também podiam ser exibidos, nus ou envolvidos em tecidos transparentes. Joias e mais joias complementavam o visual.

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Os homens vestiam casacas compridas ou sobrecasacas, calças de vinco, coletes, camisas brancas, relógios de bolso com vistosas correntes, bengalas, luvas, lenços e gravatas de seda. As cores eram escuras e sóbrias. Os tecidos podiam ser linho, flanela, feltro, alpaca ou lã fina. Os chapéus altos de feltro e as cartolas também eram indispensáveis para sair às ruas, bem como sapatos escuros ou botas muito lustrosas, de preferência, tudo comprado dos elegantes comerciantes ingleses. Cabelos curtos, barbas e bigodes eram cuidados com esmero. – Márcia Pinna Raspanti

Crinolina

 

Crinolina: a volta das saias rodadas.

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