“Nós todos temos uma parcela de culpa em sua morte”

           O governo Costa e Silva prometeu diálogo, respeito aos valores democráticos e proclamou “A meta do meu governo é o homem”. Apostou no desenvolvimentismo dando um basta à impopularidade. O novo ministro da Fazenda, Delfim Neto, passou a enfatizar a queda nos juros e a ampliação do crédito e dos incentivos à exportação. Em 1967, o país reagia. Crescia 4,8%. No ano seguinte, dobrou: 9,3%. A atividade industrial batia 15,5% liderada pela construção civil, com 17% de crescimento. As condições internas e externas do país ajudavam baseadas na demanda reprimida, ociosidade do parque industrial, finanças externas saneadas pelo governo anterior e um boom espetacular do mercado internacional, cujo comércio crescia a 18% ao ano. Se foram esses anos de chumbo, como lembrou Daniel Aarão Reis, foram também anos de ouro, pois a partir de 1968 retomou-se o crescimento econômico. Até 1973, o país apresentaria taxas elevadas de desenvolvimento industrial, superando mesmo os 10% ao ano. Ampliava-se o mercado de consumo de produtos industriais, sobretudo, de automóveis. A ditadura contava com a aprovação popular. Mas, contava, também, com a resistência da oposição.

            Quando da ascensão dos militares em 1964, centenas de militares foram presos ou expulsos de suas corporações. Muitos deles, após cumprir pena nos presídios das forças armadas, procuraram Leonel Brizola. Exilado no Uruguai, ele queria organizar um partido de oposição e acreditava poder repetir a experiência que permitira a posse de Goulart, em 1961. Em Montevidéu, reuniam-se militantes exilados de diversas tendências de esquerda. A primeira tentativa de luta armada se deu no Rio Grande do Sul, no começo de 1966, organizado pelo mesmo grupo de Brizola. Chefiada pelo coronel Jefferson Cardim, uma “coluna desesperada” entrou país adentro e foi detida. A seguir, entrou em ação o grupo que fundara o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR). A princípio, instalados em uma casa em Porto Alegre, o plano de guerrilha transferiu-se para a serra de Caparaó, entre Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Num sítio de criação de cabras, seus membros estocaram fuzis, metralhadoras, granadas e alimentos. Baseados nas teses do “foquismo” cubano aguardavam a eclosão de outros movimentos similares e a intensificação da reação nas grandes cidades. De início, problemas derrotaram o projeto de luta armada. O clima com chuva, frio e umidade, seguido de infecção por peste bubônica foram letais. Seguiram-se deserções em 1967. Em março do mesmo ano, os guerrilheiros foram denunciados pelos próprios moradores das cercanias. Chegava ao fim, sem nem mesmo começar, a primeira tentativa de luta armada.

Desde a eleição de Costa e Silva, o governo militar acentuou a repressão aos antagonistas. A doutrina de segurança nacional que tornou prioridade a luta das forças armadas contra ameaças internas, o crescimento da espionagem e da repressão, se fortaleceu. Além do Serviço Nacional de Informação, criado em 1964, contava-se também com o Centro de Informações da Marinha, o CENIMAR, a Operação Bandeirantes (OBAN) e o Destacamento de Operações de Informações –  Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) para citar alguns.

Mas não só se reagiu contra “subversivos”, como também contra a oposição legal: ela deixou de ser aceita. A Frente Ampla formada por Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart, que defendia bandeiras democráticas como eleições diretas, anistia e nova Constituição, em 1968, foi proibida. Correntes liberais ou corporativistas alijavam-se do governo para criticá-lo. Na grande imprensa, O Estado de São Paulo, o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil denunciavam, não só a política econômica, como as violações dos direitos humanos e democráticos.

Em abril, um tiro disparado por um policial atingiu o peito de um jovem de 18 anos: o estudante Edson Luiz, num restaurante universitário no centro do Rio de Janeiro. “Podia ser nosso filho. Nós todos temos uma parcela de culpa em sua morte. Surdos e intolerantes. Alheados. Esquerdistas e direitistas. Governo, oposição, trabalhadores, intelectuais […] Nós todos ajudamos a detonar aquela bala”, lamentava o editorial de O Cruzeiro, convidando seus leitores a dialogar com os jovens. O hino nacional entoado pela multidão encheu as ruas do centro. Sobre o caixão, cravos e lírios, enquanto das janelas, lenços brancos acenaram. Sobraram acusações ao regime. E as faixas: “Preço de uma refeição: dois mortos”, “Bala mata a fome”.

  • Texto de Mary del Priore.

 

morte de Edson Luís

Edson Luís Lima Souto foi assassinado por um soldado da PM, com um tiro no peito, em 28 de março de 1968 (Acervo da Biblioteca Nacional)

 

capa folha

Capa da Folha de S. Paulo (reprodução)

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