Dos “pés-rapados” à gente “de casaca”: a obsessão pela tal civilidade

          No século XIX, na zona rural, escravos andavam descalços e seminus, com um pano sujo passado entre as pernas, ou calças de riscado, o tronco nu ou com um molambo de camisa aberta no peito. Donos de engenhos e fazendas andavam ordinariamente descalços, camisa meio rasgada, calças de tecido de algodão, chapéu de palha e rosário pendente do pescoço. Em dias festivos, portavam chapéu de feltro preto, calças brancas curtas e botas compridas, presas por correias abaixo do joelho e jaqueta de chita de cor por cima do colete branco. O traje feminino compunha-se de vestido de montar, de pano azul ou verde, ornado de botõezinhos e, por baixo, longo vestido branco, bem amplo de modo a permitir montar a cavaleiro à maneira masculina. Com frequência, viam-se duas mulheres montadas num só animal. Mais comumente ainda, o homem trazia sua mulher à garupa. Atrás do casal, também a cavalo, seguiam os parentes. Fechavam o cortejo, a pé, os escravos, a pé, em fila indiana. As mulheres abrigavam a cabeça com um lenço, sobre o qual encarapitavam um chapéu de homem, redondo, preto. Ao pescoço, penduravam rosários e escapulários. E tanto os homens, quanto as mulheres não dispensavam o guarda-sol. Mesmo a cavalo.

          A indumentária opunha a “gente de casaca”, ou seja, os mineiros que andavam mais arrumados com casacas de casimira preta, aos demais que andavam de jaleco e em manga de camisa: “os pés-rapados”. Para se proteger da chuva que caia fria, até nos meses de verão, os moradores usavam “guarda-chuvas cobertos de algodão e os escravos, mantos feitos com capim-mumbeca ou buriti.

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          O assunto preferido nessa época, segundo Joaquim Felício dos Santos, era a “civilidade”. Como comportar-se para parecer um “reinol”? A etiqueta era alvo de indagações: devia um cavalheiro sentar-se à mesa com espadim, sim ou não? Podia assoar-se na manga da camisa? E limpar o nariz ou escarrar em público?

          Eram repetidas, então, as reuniões de família, “quando a música eletrizava os espíritos”. “Todos dançavam, não essas contradanças modernas, compassadas, monótonas, lentas, sem significação; era o minueto engraçado e expressivo, com lânguidos e voluptuosos requebros; contradanças ardentes e animadas; valsas figuradas onde cada figura parecia significar um desejo… o doidejante fandango, regulado pelo som do xiquexique de prata”.

          Leituras e bibliotecas ocupavam muito o tempo dos moradores. Burton encontrou mineiros que estudavam o hebreu o sânscrito, como o professor de latim Dr. Aureliano Corrêa Pimentel. Gardner deliciou-se com as obras em francês e latim da pequena, mas bem fornida biblioteca do vigário de Formigas. E em Diamantina surpreendeu-se com o Ivanhoé de Sir Walter Scott, na biblioteca de uma donzela mineira. Fazendeiros e tropeiros que iam a Corte, traziam na volta, os últimos números da Gazeta do Rio.

          Jogar peteca era passatempo apreciado, segundo o mesmo viajante, para ambos os sexos. O baralho e o “whist” preenchiam a noite dos homens, enquanto as mulheres proseavam, bebericando chá. Os escravos reuniam-se nos “coretos” onde podiam cantar, beber e dançar a vontade. Batuques e lundus ao som dos poderosos caxambus, – tambores de pele -, as catiras com palmas e bate-pés no ritmo da viola, as rodas de Mineiro-Pau cantando quadrinhas, animavam as horas de folga. Em muitas fazendas, cativos tinham sua própria roça onde trabalhavam aos domingos e feriados. Também lhes era permitido criar galinhas e porcos.

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         O tema das conversas era sempre o mesmo: Napoleão e seus generais. “Mineiros nunca se cansam de ouvir falar de Napoleão Bonaparte e da história trágica de nossa revolução”, registrou Saint-Hilaire. Em Formiga, reunido com os principais habitantes na casa do comandante do arraial, o assunto eram as mulheres francesas. “Seriam tão livres quanto afirmou outro viajante” perguntavam ao estrangeiro? Diante da confirmação, a reação dos mineiros era rápida: “Deus nos livre de tamanha desgraça”!

           Porque as suas, na maior parte das vezes, nem se mostravam à janela. “Na região do Rio Grande e em geral na Comarca de São João se deixam ver mais frequentemente que em outras partes de Minas. Entretanto, como esse não é um costume muito difundido nem muito bem aceito, as que se apresentam diante de seus hóspedes só o fazem desafiando os preconceitos. Ali, como no resto da província, a dona da casa e suas filhas esticavam o pescoço por trás da porta entreaberta a fim de me verem escrever ou estudar as plantas, e se eu me voltava bruscamente à cabeça via seus vultos recuando apressadamente. Centenas de vezes me foi dado assistir a essa pequena comédia” – diria Saint-Hilaire.

           Sim, as mineiras, além de elogiadas pela beleza, eram curiosas. As que jantaram com Mawe na fazenda Mantiqueira bombardearam-no com perguntas sobre as modas na Inglaterra. Como se vestiam as damas por lá? Surpreenderam-se quando o viajante lhes falou que elas cobriam as cabeças com “bonnets” visto que as senhoras brasileiras só cobriam as cabeças em idade avançada e para ornamento do cabelo preferiam um pente ricamente trabalhado. De preferência, de ouro. A que hospedou Marianne North mostrou-lhe seu guarda-roupa com “roupas elegantes e rendas, feitas à mão por ela mesma”.

  • Texto de Mary del Priore, “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2)”, Editora LeYa, 2016.
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liteiraJulião

Aquarela de Carlos Julião.

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