Dia da Mulher: a reinvenção da sexualidade?

Revolta ou revolução?  Nos últimos meses, graças ao caso Weinstein, vimos mulheres falar, e homens, escutar. Tivemos a impressão de que assistimos à reversão de uma ordem, tão antiga quanto o mundo: a dos sexos e a dos discursos. Denúncias, insultos, agressões foram explicitadas por milhares de testemunhas. Vítimas se tornaram ameaças. Em alguns casos, até algozes. Pelas ruas lia-se em cartazes: “Vingança das Mulheres”. A liberação da palavra feminina acionou a denúncia massiva de abusos sexuais, colocando no centro da cena a batalha pela igualdade entre os sexos. Porém, enquanto escrevo sobre tais avanços, mulheres estão sendo estupradas em algum canto do Brasil, pois ainda não rompemos com a arcaica herança patriarcal.

Sim, em termos de valores e direitos começamos a deixar o patriarcado para trás – haja visto a multiplicação de delegacias de Mulheres e a consolidação da Lei Maria da Penha. Enquanto, em público, as sociedades não cessam de promover a paridade entre gêneros, e houve evolução nas medidas anti-discriminatórias, na vida privada, a carga doméstica, a evidência da desigualdade salarial, as relações hierárquicas persistem. Vivemos, atualmente o que os sociólogos denominam de “igualdade desigual”: um hiato entre discursos e práticas.

E por que essa contradição modela as relações entre os sexos? Há nela uma longa história. A partir do século XVIII, o patriarcado moderno de que somos em parte herdeiras, substituiu a justificação religiosa tradicional para a subordinação das mulheres, por argumentos biológicos e médicos. O doutor substituiu o padre nas regras que foram impostas e aplicadas às mulheres, no seu cotidiano. O que antes era pecado virou “anormalidade” e doença. E as mulheres eram lidas pelos homens, nessa chave: se antes santas ou pecadoras, doravante normais ou anormais. E a diferença de sexos era a justificativa “natural” de uma complementaridade ou assimetria entre homens, ativos e mulheres, passivas. Entre dominação e submissão. Essa hierarquia foi o ponto de partida para que, durante séculos, se perseguisse tudo ao que fugisse à norma. Ao que fosse “contra a natureza”: prostituição, histeria e loucura, homossexualidade.

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Essa naturalização do gênero será contestada pelas primeiras feministas que vão lhe opor o princípio universal de igualdade. Princípio que, lembre-se, foi construído nessa mesma modernidade. E será a contradição entre uma modernidade que, enquanto cria novas formas de subserviência, forja, também, os conceitos de “liberdade, igualdade, fraternidade”, que durante dois séculos de lutas, conduzirá ao lento, mas inexorável abandono do patriarcado. Tal contradição será o ponto de apoio para ações transformadoras.

Atualmente, sociedades pós patriarcais reconhecem que o gênero é menos uma questão de diferença entre os sexos ou entre o masculino e o feminino e mais uma relação de poder que fabrica desigualdades e as transforma em violência e discriminação. Em tais sociedades, é ignorado o fato sociologicamente estabelecido de que os indivíduos são designados como “homens” ou “mulheres”, desde seu nascimento, permanecendo assim ao longo da vida, gerando, por conta de tais protocolos consequências sociais de desigualdade. Tais protocolos são chamados de “prisões de gênero”: homens são ambiciosos, mulheres, diplomáticas. Virilidade se opõe a feminilidade e etc… Por isso mesmo todos os setores da vida social, da organização do trabalho à família e às políticas assim como a educação investem em abolir as diferenças fazendo com que quadros tradicionais de comportamento desapareçam. Permitindo a que meninos se interessem por bonecas e meninas, por carrinhos; que eles sejam frágeis e elas, ambiciosas; ajudando-os a compor de forma singular, e desde o início da vida, suas próprias formas de masculinidade ou feminilidade.

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Sem dúvida, há, aí, uma palavra que merece ser mais bem discutida: patriarcado. No Ocidente cristão, as relações entre homens e mulheres foram, durante séculos, geridas pela instituição do matrimônio. Isso quer dizer que elas foram administradas, não pela norma heterossexual, mas por uma transação entre homens. Pais davam suas filhas em casamento em troca de compensações financeiras ou alianças políticas. Ao se submeter ao ato sexual, marido e mulher sabiam que se estavam se curvando às mesmas obrigações, mas, não estavam vivendo a mesma experiência. Ela submissa ao poder dele. E ele exercendo, desta maneira, seu poder sobre ela. Com a emergência de movimentos feministas, assistiu-se ao começo do fim dessa ordem falocrática, assim como da moral que a acompanhava.

Mas, – pergunta que não quer calar – onde fica a pulsão sexual nessa história? Sabemos que querer regular uma ordem injusta por uma ordem justa não resolve o problema da relação entre sexos, pois o sexo é o outro nome da desordem. Como bem diz Camille Paglia, ele é o ponto de contato entre o indivíduo e a natureza, é o lugar onde as boas intenções cedem espaço às urgências primitivas. Ou, como preferiu Michel Foucault, na modernidade ele se tornou a razão de tudo: “nosso corpo, nossa alma, nossa história”. E se, a revolta ou revolução a que estamos assistindo marca uma nova etapa da emancipação feminina, não restam dúvidas: a heterossexualidade terá que ser reinventada. Assim como reinventar-se será também o objetivo de uma sociedade arcaica. E isso, para que essa que vivemos hoje, não seja mais uma simples revolta. Mas uma verdadeira revolução…

  • Texto de Mary del Priore.
georgina de albuquerque

Obra de Georgina de Albuquerque.uma das primeiras mulheres brasileiras a conseguir firmar-se internacionalmente como artista

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