Casamento, luxúria e procriação

 “A luxúria é vício da lama que inclina a querer deleite desordenado de cópula carnal…”. A luxúria é o mesmo que sensualidade. Inclinar é predispor. Deleite é prazer. Desordenado, aqui, significa desmedido, incontrolável. Cópula carnal é cópula mesmo! Não é difícil  entender este preceito  moral estabelecido pelas autoridades da Igreja católica

Havia uma ressalva nas recomendações da Igreja: “exceto o (prazer) da cópula matrimonial”, não é pecado. E por quê? Por uma razão simples: da mesma forma que a Igreja controlava as atitudes da família, sobretudo, das de elite, ela também tentava controlar o sexo entre os pais e mães. Relações sexuais só com finalidade de procriação e desde que realizado com pudor e moderação. O sexo apenas por prazer, “por deleite”, era considerado pecado gravíssimo.

Além disso, os casais tinham que seguir o calendário religioso para fazer amor: não era permitido nos domingos e dias santos, nos dias dos santos padroeiros e durante a Quaresma. Proibia-se também sexo às mulheres grávidas, pois temiam-se os abortos; às mulheres menstruadas, pois acreditava-se que elas, nesses dias, geravam filhos leprosos; e às mulheres que estivessem amamentando, por medo de contaminar o leite com esperma!

A hostilidade da Igreja ao sexo transparecia também na perseguição aos chamados “tocamentos torpes”, toques ou beijos, que visavam apenas o gozo, sem a finalidade de procriação. Gestos de afeto, como o beijo por sua “deleitação carnal e sensitiva”, também eram considerados “indecentes e perigosos”. Além disso, as esposas deviam estar em guarda contra os chamados “tatos venéreos sensuais e carnais”, ou seja, todo o toque sobre parte de seu corpo tida por macia e aveludada… Segundo, ainda, um sisudo padre confessor do século XVIII, seriam também pecados graves “apertar a mão de uma mulher, beliscá-la, pisar-lhe o pé”.

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Os casais eram severamente perseguidos quando tentavam evitar filhos. Na época, vale lembrar, não existia nem “camisinha”, nem pílula anticoncepcional. Na maior parte das vezes, usava-se uma técnica bastante difundida na Europa: o coito interrompido que a Igreja católica condenava como revela o trecho de um diálogo entre um confessor e o padre no confessionário:

“ _ Padre, várias vezes  retraí-me, impedindo a concepção”.

E a resposta ríspida do padre:

“ _ Pois saiba, Vossa Mercê que peca mortalmente cada vez que fizer isto; e se sua mulher consentiu nisto, fez o mesmo e é ré do mesmo pecado”!

Além do cerceamento do sexo dentro do casamento, a Igreja reduzia ao mínimo o lazer erótico e qualquer situação de prazer. Um manual de confissão do século XVII, por exemplo, dizia ser “muito sujo e perigoso o passatempo de porem-se as mulheres a ver nadar os homens…e mui dignos de repressão os que sendo de um sexo se põem a ver os do outro quando se banham, quando se desnudam ou quando dormem”.

Até mesmo os sonhos eram controlados. A Igreja mostrava-se preocupada fantasias inconscientes do seu rebanho. Para prevenir homens e mulheres contra sonhos eróticos, o padre paulista Angelo Sequeira recomendava, em 1758, que antes de dormir, o pecador ou a pecadora deveria envolver “ a cintura e cada um dos pulsos com o santíssimo rosário bento…e com viva fé nos seus poderes dizer: malditos demônios, em virtude dos santíssimos nomes e corações de Jesus e de Maria mando que vos afasteis de mim e cesse toda a vexação nesta noite e neste dia seguinte”.

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Como se pode concluir a vida sexual dos casais era bastante reprimida pela Igreja; o que não significava que todos seguiam essas regras. Documentos existentes nos arquivos luso-brasileiros mostram  que os casais tinham uma vida sexual muito livre e que várias pessoas, sobretudo os homossexuais, buscaram viver seu prazer como bem quisessem. A Igreja, porém, esteve sempre por perto, ameaçando, punindo  e chegando mesmo a queimar em fogueiras, os que insistiam em pecar.- Mary del Priore.

costumes Rio- Rugendas

“Costumes do Rio de Janeiro” (detalhe): Rugendas. 

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  1. Fátima

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