As “ligações perigosas”: história, sedução e estupro

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A ideia não é nada original: adaptar para a TV o romance epistolar de Choderlos de Laclos, “As Ligações Perigosas”, publicado em 1782. O livro já foi bastante explorado pelo cinema, sendo que sua versão mais conhecida é de 1988 e conta com um elenco de famosos, encabeçado por Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer. Houve, porém, muitas outras filmagens, que tentaram, inclusive, transportar a trama para diferentes tempos e espaços. Exatamente o que uma emissora de TV está fazendo atualmente. A minissérie brasileira transfere a ação para os anos de 1920.

A minissérie causou polêmica ao mostrar uma cena de sexo entre um homem mais velho e uma jovem. No livro, o Visconde de Valmont é um sedutor muito experiente que aceita cortejar a adolescente, a pedido de uma amiga, a Marquesa de Merteuil. Ela quer se vingar do amante, que terminou o romance com ela para se casar com Cécile. A menina havia sido educada em um convento, de forma rígida, e sua inocência seria motivo de orgulho para o futuro marido. Entretanto, caso a jovem fosse seduzida e não fosse mais virgem, seria uma grande vergonha para o noivo e para a família.

Na minissérie, a cena foi muito criticada por mostrar um estupro. Mas voltemos à história original, nela Valmont entra no quarto de Cécile, com um pretexto, e tenta beijá-la e acariciá-la à força, chantageando-a, lembrando que, se ela gritasse, ele diria que ela o havia encorajado a visitá-la de madrugada em sua alcova. Sua reputação estaria arruinada para sempre, enquanto ele nada sofreria. Assim ele descreve a situação em uma carta:

“Depois de ter desfeito seus primeiros receios, como não estava ali para conversar, arrisquei algumas liberdades. (…) Mudei de tática e imediatamente tomei posição. Aqui pensamos estar perdidos ambos: a menina, muito assustada, quis gritar de verdade; felizmente, a voz extinguiu-se no choro. Ela se atirou também ao cordão da campainha, mas minha destreza reteve o braço a tempo. (…) Esta curta arenga não acalmou nem a dor nem a cólera; mas acarretou submissão. Pois bem, a terna amorosa, esquecendo seus juramentos, cedeu primeiramente e acabou por consentir. Não é que após esse primeiro momento as censuras e lágrimas tivessem deixado de voltar; ignoro se eram verdadeiras ou falsas, mas, como sempre acontece pararam logo que me preocupei com lhes dar um motivo”.

O sedutor se gaba da conquista em uma carta à amiga, Marquesa de Merteuil, dizendo que a noite acabou com ambos satisfeitos e de comum acordo sobre um novo encontro. A jovem também escreve à marquesa, arrependida e confusa com o ocorrido. E se culpando por “não ter se defendido o quanto podia”. Os limites entre sedução e estupro naqueles tempos eram nebulosos. O homem via cada conquista como uma vitória, não apenas sobre a mulher, mas também sobre o marido e a família da vítima. A culpa era sempre dela: por ter permitido chegar a essa situação, ficando a sós com um homem; por não ter lutado o suficiente; e até, por não ter morrido por sua honra.

A obra de Laclos mostra bem esse jogo perigoso de sedução, e também a fragilidade das mulheres nesse contexto. O romance é um retrato vivo da sociedade na fase final do Antigo Regime.  A ideia que perpassa a história é de representação. Os personagens, libertinos ou não, representam seus papéis sociais de acordo com as complicadas regras em vigor. A Marquesa de Merteuil, por exemplo, arquiteta uma complicadíssima vingança para não comprometer sua imagem de mulher honesta. Quando as máscaras caem, a tragédia entra em cena. Para que a história nos cative, precisamos entender minimamente como funcionava aquela sociedade às vésperas da Revolução Francesa. Como vivia a aristocracia, mergulhada no luxo e no ócio. O que significava a conquista amorosa, o casamento, o sexo, o amor…

Por isso, acho complicada a adaptação para épocas diferentes: perde-se muito da essência da obra. Talvez por esse motivo, a cena da “sedução” na minissérie tenha causado tantas reações negativas. A cena, que por sinal ficou quase igual à do filme de 1988, mostrava uma garota chorando e dizendo “não” para o sedutor. Ele, então, tapa a sua boca com a mão e deita sobre ela. A próxima tomada mostra o rosto da moça, feliz e cheia de prazer. Romantização do estupro? Sem dúvida. Outra mensagem perigosa que a minissérie passa é de que o “não” nem sempre quer dizer “não”. E de que as mulheres, muitas vezes, afirmam não querer fazer sexo apenas para manter as aparências. Se o homem insistir…

As críticas à adaptação do romance para a TV são bastante procedentes. Ao retirar a trama de seu contexto histórico, a minissérie trilhou caminhos tortuosos e correu o risco de passar a mensagem errada, digamos assim. Sem falar que a história perdeu muito de sua força e encanto.- Texto de Márcia Pinna Raspanti.

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Os personagens, Valmont e Marquesa de Verteuil,

nas versões para cinema e TV. Fotos: Divulgação.

 

7 Comentários

  1. Antonio Carlos 15 de janeiro de 2016
    • marcia 15 de janeiro de 2016
  2. celina 13 de janeiro de 2016
  3. celina 13 de janeiro de 2016
    • marcia 13 de janeiro de 2016
  4. celina 13 de janeiro de 2016
    • marcia 13 de janeiro de 2016

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