A maçonaria e a abolição da escravatura

Em 1820, foi fundada em Londres o Anti-Slavery Society. Envolvidos com a questão o Duque de Sussex, filho de Jorge III e Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra, desde 1813, grande abolicionista, ou Frederico, duque de Gloucester cujas opiniões antiescravistas eram bem divulgadas. Do outro lado do Atlântico, também maçom e abolicionista, o já bem conhecido dos brasileiros, Benjamim Franklin. Desde 1808, negros livres eram admitidos na maçonaria inglesa. Mas, em todo lugar, opostos e contradições conviviam. De Liverpool, de onde partiam inúmeros carregamentos de produtos manufaturados para o Brasil, membros de Lojas se dividam entre abolicionistas e investidores em navios negreiros. Igualdade e fraternidade só em termos.

É possível que, durante sua estadia em Paris, José Bonifácio tenha tido contato com A Sociedade dos Amigos dos Negros no qual eram ativistas Condorcet e Lafayette.  Suas ideias, não por acaso, se pareciam muito com as do movimento. Nada de abolição imediata, pois arruinaria o comércio e os agricultores, mas, sim, abolição do tráfico e gradativa, a dos cativos. Implantação de um projeto civilizatório na África e sensibilização para as questões humanitárias que o tráfico ignorava. Os argumentos econômicos e comerciais eram desmontados por outro: a escravidão não era rentável e ela se oporia as teses mercantilistas, então em voga.  Para piorar, o tráfico arruinaria as indústrias nacionais e comerciar com os portos africanos seria bem mais interessante para os negociantes nacionais. Sociedade elitista, mantenedora de um programa moderado e gradualista, a dos Amigos dos Negros teve uma política ativa de publicações que atacavam o tráfico e defendiam os direitos iguais para os mestiços livres.

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O assunto, portanto, não era original e, ao contrário, era, também, bastante discutido no Brasil. O conselheiro Antônio Rodrigues Veloso de Oliveira foi uma das primeiras vozes. Em suas “Memórias para o melhoramento da Província de São Paulo, aplicável em grande parte às demais províncias do Brasil“, apresentadas ao Príncipe D. João VI em 1810, e publicadas pelo autor em 1822, após enumerar e criticar os atos dos capitães-generais que concorriam para entravar o desenvolvimento paulista, tratava do elemento servil e da imigração livre, que poderia concorrer para a vinda das populações europeias, flageladas pelas devastações das guerras de Napoleão. O conselheiro Veloso de Oliveira propunha que, na impossibilidade do estabelecimento de correntes migratórias, prosseguisse o comércio de escravos, mas que a escravidão do indivíduo importado fosse restringida a dez anos e que, no Brasil, nascessem livres os filhos dos escravos. Era um toleracionista como, aliás, o foi Bonifácio.

No Recôncavo, eram conhecidas as ideias abolicionistas de Domingos Borges de Barros, membro da Society for promoting Agriculture, de Filadélfia, contrário à escravidão e favorável às sociedades de colonização agrícola. O mesmo se pode dizer de Cipriano Barata que advogava direito de cidadania e de voto para cabras, crioulos, índios e mamelucos, além dos negros da Costa da Mina, Angola e etc. Em Pernambuco, o falecido Padre Arruda Câmara, líder da revolução de 1817, deixara uma carta em que pedia “se acabasse o atraso dos homens de cor, o que seria indispensável ao progresso do Brasil…Que sem ou com monarquia, a gente de cor devia ter ingresso na prosperidade do país”. Bonifácio conhecia o texto.

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Porém, o medo sempre foi mais forte do que a compaixão. Enquanto não fossem libertados, que fossem bem tratados, pois, não eram “brutos animais”, explicava Bonifácio. E o alerta: “Tudo isto com tal circunspecção, que os miseráveis escravos não reclamem estes direitos com tumultos e insurreições que podem trazer cenas de sangue e horrores”. Nada de revolução nos hábitos ou na sociedade, e, sempre, desconfiança em relação aos cativos. Em público, gostava de acusar “o urro dos sórdidos interesses que protegiam a escravatura e contra o lucro dos traficantes de escravos”. Mas, em privado, o tom polêmico era substituído pela ambiguidade e a cautela.

Ouçamos o toleracionista:

Eu também sou cristão e filantropo; e Deus me anima para ousar levantar a minha fraca voz no meio desta augusta Assembleia a favor da causa da justiça, e ainda da sã política, causa a mais nobre e santa, que pode animar corações generosos e humanos. Legisladores, não temais os urros do sórdido interesse: cumpre progredir sem pavor na carreira da justiça e da regeneração política; mas, todavia, cumpre que sejamos precavidos e prudentes. Se o antigo despotismo foi insensível a tudo, assim lhe convinha ser por utilidade própria: queria que fôssemos um povo mesclado e heterogêneo, sem nacionalidade, e sem irmandade, para melhor nos escravizar. Graças aos céus, à nossa posição geográfica, já somos um povo livre e independente. Mas como poderá haver uma Constituição liberal e duradoura em um país continuamente habitado por uma multidão imensa de bravos brutais e inimigos? Comecemos, pois desde já esta grande obra pela expiação de nossos crimes e pecados velhos. Sim, não se trata somente de sermos justos, devemos também ser penitentes; devemos mostrar à face de Deus e dos outros homens que nos arrependemos de tudo o que nesta parte temos obrado há séculos contra a justiça e contra a religião, que nos bradam acordes que não façamos aos outros o que queremos que não nos façam a nós. É preciso pois que cessem de uma vez os roubos, incêndios, e guerras que fomentamos entre os selvagens da África. É preciso que não venham mais a nossos portos milhares e milhares de negros, que morriam abafados no porão dos nossos navios, mais apinhados que fardos de fazenda: é preciso que cessem de uma vez por todas essas mortes e martírios sem conta, com que flagelávamos e flagelamos ainda esses desgraçados em nosso próprio território. É tempo pois, e mais que tempo, que acabemos com um tráfico tão bárbaro e carniceiro; é tempo também que vamos acabando gradualmente até os últimos vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar em poucas gerações uma nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes”.

  •  “As vidas de José Bonifácio” (Estação Brasil, 2019), de Mary del Priore.
“Feitores castigando negros”, de Debret.

“Feitores castigando negros”, de Debret.

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