A corrupção nos governos militares

Apesar de ser a bandeira da “revolução” de 64, nenhum general conseguiu limpar o país da corrupção. Se o único patrimônio de Castelo Branco foi um Aero Willis preto e um imóvel em Ipanema; se Médici desviou o traçado de uma estrada para que ela não valorizasse suas terras e Geisel respondeu à esposa que queria um apartamento novo, “ – Se comprar esse apartamento vão dizer que estou roubando”, as “demonstrações de decência pessoal apresentaram parcos resultados para a vida pública do país” – como disse a historiadora Heloísa Starling. Ela enumera escândalos que vão desde a operação Capemi, (caixa de Pecúlio dos Militares) que ganhou concorrência suspeita para a exploração de madeira do Pará, os desvios de verba na construção da Ponte Rio-Niteroi e da Rodovia Transamazônica, à compra de adubo superfaturado pela Secretaria de Agricultura de Minas Gerais, às acusações de irregularidades na Federação Baiana de Futebol, entre outros. Nelson Mello e Souza concorda, acrescentando “o exemplo desanimador da Companhia Siderúrgica Nacional. Entregue a políticos, era um mar de desacertos e uma praia lodosa onde desaguavam prejuízos em cascata”.

“Tentativas de erradicar ou punir corruptos tiveram resultados pífios. Pior, a repressão corrompeu uma rede de colaboradores que iam de médicos a juízes. No DOI-Codi do Rio, o capitão Ailton Guimarães Jorge, uma vez acabada a “guerra suja” dedicou-se ao rentável jogo do bicho. Os chamados “crimes da chapa branca” faziam a manchete de jornais e revista. Um procurador atrás do outro, prometiam que “fraudadores da coisa pública não mais dormiriam tranquilos. Que a qualquer momento, oficiais de Justiça estariam batendo às suas portas. Em 1985, não eram poucos os escândalos: Sunaman, Assistência Médica da Previdência Social, Habitasul, Banco Nacional de Crédito Cooperativo entre outros”. Mas, tentativas de erradicar ou punir corruptos tiveram nenhum resultado, cravou Starling.

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Por trás dos elogios ao presidente, vale lembrar: se a “linha dura” não mais atacou, tampouco foi punida, e Figueiredo foi perdendo a iniciativa. Em fins de 1983, renunciou a coordenação da própria sucessão, transferindo-a para o PDS, a esta altura, dilacerado entre várias tendências. Licenciado em julho, para se submeter a uma cirurgia para colocação de pontes de safena numa clínica em Cleveland, nos Estados Unidos, permaneceu 44 dias fora. A partir desse período se iniciariam as tratativas para a sucessão. Sucessão que, segundo Élio Gaspari, não viria da benevolência dos governantes, nem tampouco de intensa pressão social. Ela mascarava a falência do desempenho político-econômico dos militares.

     – Texto de Mary del Priore.

 

Maluf e Figueiredo

O então governador de São Paulo Paulo Maluf abraça o então presidente João Figueiredo. Foto: Acervo Estadão

 

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  1. Walter Monte Rey
  2. Walter Monte Rey
    • Márcia
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