A “Boa Morte” nos tempos coloniais

No Dia de Finados, uma reflexão a respeito de como era encarada a morte nos séculos XVII e XVIII, no Brasil. Os manuais de “bem morrer”, que ensinavam o cristão a forma correta de proceder neste momento tão temido, representam uma ótima fonte de pesquisa para o historiador.

Neste período, a Igreja procurava mostrar que o fim da vida não deveria aterrorizar o ‘verdadeiro’ cristão – já que, se as medidas necessárias fossem tomadas, a salvação estaria garantida. Acreditava-se popularmente que o destino da alma poderia ser decidido no quarto do moribundo, nos últimos momentos. “As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia de 1707” ressaltam a importância da Extrema Unção. Havia também obras de literatura e arte edificantes que ajudavam o fiel a “bem morrer”, sendo muito populares no Brasil Colônia.

O Padre Antônio Vieira, no Sermão da Quarta-Feira de Cinza”(1673), falava sobre as providências que o fiel deveria tomar para se preparar para os últimos momentos:

“Primeiramente (que isso deve ser o primeiro) confessa-se geralmente toda a sua vida, arrepende-se de seus pecados, compõe do melhor modo que pode as suas dívidas, faz seu testamento, deixa sufrágios pela sua alma, põe-na inteiramente nas mãos do padre espiritual, abraça-se com um Cristo Crucificado, e dizendo como ele: Consummatum est, espera pela morte”.

Vieira destacava, porém, que isso não era suficiente para uma “boa morte”. Era necessário morrer em vida, ser indiferente ao mundo e aos seus enganos. Uma vida justa piedosa, dedicada a Deus, levaria a uma morte tranquila e segura. A Igreja procurava mostrar que a vida deveria ser uma preparação para a morte: o homem que vivesse cada momento para Deus, e morresse para o mundo, ganharia a salvação. O verdadeiro cristão não poderia temer a morte, devendo, até mesmo, desejá-la. “Viver bem para morrer bem”.

Esta ideia foi adotada com a Contrarreforma e procurava mudar a noção de que o destino da alma poderia ser resolvido na hora da morte. O que se procurava demonstrar era que o fiel precisava dedicar-se às práticas religiosas regulares, à devoção diária, renunciando aos prazeres do mundo. Ou seja, o verdadeiro cristão deveria ser provado todos os dias e não apenas nos derradeiros momentos. – Márcia Pinna Raspanti.

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Representações do maior terror dos cristãos: “Afresco do Inferno”, de Giovanni da Modena (1410); e “O Inferno”, dos irmãos Limbourg (1410-1411).

5 Comentários

  1. Dino Monteiro Miachon 3 de novembro de 2013
  2. Suzana Guerra Albornoz 2 de novembro de 2013
  3. Luciene Paes 2 de novembro de 2013
  4. Francisco Isaac 2 de novembro de 2013

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