A bela atriz e o país de m****

Nos últimos dias, causaram alvoroço nas redes sociais as declarações de uma jovem atriz que afirmou que o Brasil é um país de m***, que vivemos na m*** e que ela chegava já desesperada para ir embora. O motivo foi uma taxa cobrada pela Receita Federal por um computador trazido na bagagem. Segundo a moça, ela teve que pagar o imposto duas vezes indevidamente. O “desabafo” gerou polêmica: muitos concordaram, outros tantos se indignaram com a grosseria. Bem, aqui não nos interessa saber se ela está certa ou errada, mas podemos fazer algumas reflexões, a partir do acontecimento banal.

Em primeiro lugar, existem regras para entrar no país com produtos comprados no exterior- como em qualquer lugar. E são bem conhecidas por quem costuma viajar. Se ela não as seguiu, seria esperado que sofresse as consequências, não é? A história teve várias versões: em uma delas um funcionário teria preenchido o formulário de maneira errada, em outra a falha teria sido do sistema. Acho que nunca saberemos o que aconteceu. Mas o que me chama atenção é a postura da atriz e de seus admiradores, aliás muito comum no Brasil.

Parece que, no fundo, todos acreditamos que determinadas pessoas não deveriam ser submetidas às mesmas regras que as outras. Por que não “deixar para lá”? Por que não aceitar a justificativa da moça famosa e rica? Teria evitado todo esse  problema. E quanto a ela, por que voltar-se com fúria contra todo um país, todos os brasileiros, todas as instituições? Ninguém gosta de pagar impostos, muito menos duas vezes, mas a indignação não foi exagerada? Façamos um exercício de imaginação: se o funcionário da Receita ignorasse a lei e a livrasse do pagamento da taxa, por causa de seu status de pessoa famosa, ela teria se revoltado contra todo o país? Arrisco-me a dizer que não.

O Brasil é o país do “jeitinho”. Desde o início da colonização, as regras que vinham de Portugal precisavam ser adaptadas à realidade local. Era preciso fechar os olhos em várias situações. Brancos só podiam casar com brancos. Mas, como faltavam mulheres brancas por aqui, fazia-se uma certa “adaptação” nas árvores genealógicas, apagando as “manchas”. Ser branco era não ter sangue negro ou judeu, e não ter parentes que executassem serviços mecânicos (trabalhos braçais). Muitas uniões foram realizadas após o “branqueamento” das origens da noiva (ou noivo). Isso salvava as aparências…

Outra questão antiga é que a justiça não alcança todos da mesma forma. Quando lemos os processos do Santo Ofício no Brasil, observamos que as penas aplicadas eram bem mais severas para a “gente de cor” e os pobres. Mesmo no que se refere ao adultério, as Ordenações Filipinas faziam distinção de classe: o marido traído poderia matar a esposa e o amante, desde que esse último não fosse de condição social superior. Sim, é verdade que eram outros tempos. Porém, será que nos desvencilhamos dessa tradição?

Já falamos em outras ocasiões sobre esse tema. A nossa sociedade, de forma geral, persegue a segregação, o privilégio. A obsessão dos “fidalgos” da Colônia era marcar de forma clara a distância que havia entre eles e a “arraia miúda”. E para isso, abusavam de joias, roupas de luxo, escravos. Os pobres tentavam imitá-los: ter um escravo que fosse, já era motivo de orgulho, era uma forma de rejeitar a pecha da miséria. Hoje, continuamos a querer ser “gente diferenciada”, nos distanciar do “povão”, que julgamos ser pobre, preguiçoso, mal educado…É o famoso “sabe com quem está falando??”

Sim, o Brasil tem problemas e não são poucos. Entretanto, achar que está  acima das leis e criticar o “jeitinho” apenas quando ele não nos favorece não contribui em nada para melhorar a situação, não é?- Texto de Márcia Pinna Raspanti.

francesasXVIII

“História do Vestuário”.

7 Comentários

  1. terezinha alves mori 20 de julho de 2015
  2. Ricardo 20 de julho de 2015
    • marcia 20 de julho de 2015
  3. Elisabeth 19 de julho de 2015
  4. Vanessa 18 de julho de 2015
    • marcia 19 de julho de 2015
  5. R. 18 de julho de 2015

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