ZUMBI: SÍMBOLO DA CONSCIÊNCIA NEGRA?

Publicado em 20 de novembro de 2014 por - História do Brasil

Afinal, quem foi Zumbi dos Palmares? Na verdade, sabemos pouquíssimo sobre o líder do mais famoso quilombo do Brasil. Em novembro de 1695, Zumbi foi assassinado em uma emboscada, cerca de um ano após a destruição de Palmares pelo bandeirante Domingos Jorge Velho. Ao longo da História, criaram-se diferentes “biografias” a respeito desse homem, que passou de elemento perigoso a herói nacional.  “É impossível escrever uma biografia de Zumbi, pois são muito poucos os traços que os coetâneos deixaram sobre o suposto homem que liderou bravamente o maior quilombo criado nas Américas durante a vigência da escravidão, o quilombo de Palmares”. Assim começa o livro “Três vezes Zumbi“, de Jean Marcel de Carvalho França e Ricardo Alexandre Ferreira.

Os autores nos mostram as diferentes versões do personagem que foram construídas ao longo da história: no período colonial, Palmares era visto como foco de instabilidade ao sistema vigente e Zumbi tinha pouca importância neste contexto; no século XIX, passou-se a enxergar o quilombo como um empecilho à civilização, e Zumbi era retratado como um bravo guerreiro, mas o verdadeiro “herói” era o bandeirante Domingos Jorge Velho, que teria libertado a sociedade deste mal.

No século XX, Zumbi passou a ser considerado o pioneiro nas lutas contra a desigualdade e a opressão, um mártir das minorias. O antropólogo Luis Mott chegou a levantar a hipótese de um Zumbi homossexual, fazendo dele um símbolo de todos aqueles que quebram as regras vigentes. Os autores mostram que nenhuma destas versões é mais ou menos verdadeira, ou seja, todas são fantasiosas, mas refletem um contexto histórico mais amplo.

Como pouco se sabe sobre ele, Zumbi é perfeito para encarnar nossos ideais e medos. Ontem, li uma artigo que falava sobre a suposta desconstrução da historiografia “de direita” da imagem de Zumbi dos Palmares. O fato de alguns historiadores destacarem que havia escravidão no quilombo – como era prática comum também na África – seria uma forma de manchar a imagem do herói da resistência negra e tornar a escravidão, aos nossos olhos, menos cruel. Sempre digo: cuidado com os anacronismos, mesmo os bem intencionados…É inegável, contudo, que alguns autores descobriram o nicho das versões politicamente “incorretas” e, infelizmente, vendem muitos livros ridicularizando a nossa História e seus personagens, distorcendo os fatos e criando sensacionalismo.

Ora, Zumbi não era e não poderia ter sido um líder em busca da libertação do negro. Mesmo porque não havia o conceito de um “negro”, uma identidade cultural que unisse todos os africanos. Eles vinham de etnias e regiões diferentes, muitos eram inimigos e trouxeram suas diferenças para as terras coloniais. É como falar do “europeu” ou do “branco”, como se isso bastasse para criar uma cultura homogênea. Ingleses, franceses, portugueses, espanhóis, holandeses e outros travavam lutas violentas entre si e não se viam como um “povo”. O mesmo se dava com os africanos.

Zumbi não queria acabar com a escravidão e nem libertar o “povo negro” da opressão do branco. Ele apenas lutava pela sua liberdade e do grupo que formou o quilombo. Havia, inclusive, laços de amizade entre os quilombolas e os comerciantes ou outros “brancos” com quem eles conviviam. Havia escravidão dentro do quilombo, havia regras de comportamento e castigos físicos para quem não as cumprisse.

Não podemos esperar de Zumbi atitudes de um homem do século XXI. Nos tempos coloniais, muitos ex-escravos juntavam uma determinada quantia em dinheiro e compravam…escravos! Chica da Silva é outra figura histórica que já sofreu muitos ataques por se comportar como uma mulher de seu tempo. Ela queria apenas ser aceita pela sociedade, livrar-se do preconceito e da miséria. É interessante notar que certas pessoas ficam “decepcionadas” com este comportamento.

Por outro lado, acho que é muito importante que paremos para refletir sobre a escravidão e os seus efeitos na sociedade brasileira. Escolher Zumbi dos Palmares como símbolo deste “Dia da Consciência Negra” não faz dele um herói contemporâneo, mas a sua história é um exemplo de como os escravos resistiram à opressão, cada um à sua maneira. Havia muitas formas de lidar com o cativeiro, nem todas heróicas, mas acredito que sempre sofridas. Também discordo da ideia de que desmistificar personagens históricos seja uma prática negativa: idealizar o passado só dificulta que compreendamos o presente.

– Márcia Pinna Raspanti.

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Representação de Zumbi dos Palmares.

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17 Comentários

  1. annie disse:

    farsantes idiotas sao vcs! nao tem direito de falar mal dele pois da mesma forma que quem diz q ele e heroi pode estar enganado vcs tambem! nao se pode ter certeza de nada! mais para mim ZUMBI sera sempre um herói em quem me espelho a seguir em frente todos os dias! #ZumbiVive

    • Isabela disse:

      Mais é claro que eles tem direito de falar mal do Zumbi dos Palmares.
      É verdade, nos sempre vemos o Zumbi como um herói, mais isso não quer dizer quele não seja um. Esta personalidade foi muito importante e inspiradora para muito outros negros, escravos, ou outras pessoas que tenham sua liberdade limitada. Mesmo assim, ele também cometeu alguns erros, poque esse era o pensamento do homem ultrapassado, não podemos julgar ele, nem quem fale dele.

  2. Adalberto Ricardo Pessoa disse:

    Saudações. Um certo vereador que é contra cotas e o dia da Consciência Negra, justifica a sua opinião, entre outras coisas, alegando de modo descontextualizado na História, que o Zumbi dos Palmares era uma ASSASSINO e não poderia ser elevado ao status de um “herói”. Procurei textos para saber se ele era mesmo um assassino, e entre vários que eu li, encontrei o texto de vocês. Diante do que eu li, acho complicado simplesmente dizer que ele era um “assassino” sem considerar o contexto da época, em que os negros escravos eram mortos e torturados de modo comum pelos brancos. Penso que no contexto da época, ele foi o personagem de resistência que ele pode ser. O texto de vocês me foi esclarecedor, e vou inclusive, compartilhá-lo. Muito Obrigado.

    • Márcia disse:

      Obrigada, Adalberto. O anacronismo de algumas análises são inacreditáveis, além do que os personagens históricos são como todos nós, cheios de contradições. Gosto muito desse livro citado no artigo “Três vezes Zumbi”, de Jean Marcel de Carvalho França e Ricardo Alexandre Ferreira. Vale a pena a leitura.

    • Adriana disse:

      Compartilho a posição de Adalberto, num curso de formação da Igreja, um Padre falou que Zumbi não existiu e se existiu era um escravo que escravizou outros escravos, fiquei indignada, pois senti como uma forma de desqualificar as referências do negro na sua atuação de luta. Procurei informações na internet, os textos que encontrei não foram coerentes, como se fosse um branco falando do negro, ou seja, tendenciosos. O seu texto esclareceu, nos chama atenção para o óbvio, a época, e como não podemos julgá de acordo com as nossas concepções atuais o comportamento dos homens da época – na época, sim, ele resistiu! Não precisamos de heróis, precisamos conhecer a história e, portanto, deixemos claro que nenhum bandeirante era herói!

  3. Candeeiro disse:

    Interessante a lógica de Narloch ao falar que Zumbi tinha escravos. Vejamos.

    1-Primeiramente Narloch fala que O QUILOMBO tinha escravos com base na obra de Edison Carneiro, O Quilombo dos Palmares:

    “Os escravos que, por sua própria indústria e valor, conseguiam chegar aos Palmares, eram considerados livres, mas os escravos raptados ou trazidos à força das vilas vizinhas continuavam escravos…” (Edson Carneiro, O Quilombo dos Palmares)

    2-Em seguida, com base nesse trecho do livro que fala do Quilombo, Narloch diz que ZUMBI tinha escravos.

    3-E, logo após, na mesma página, Narloch fala:

    “Não dá para ter certeza de que a vida NO QUILOMBO era assim mesmo…” (Leandro Narloch, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, pág. 86)

    Bom, se não dá para ter certeza de que a vida do Quilombo era assim, forçosamente então não dá para ter certeza de que a vida de Zumbi também era como ele narra.

    • Márcia disse:

      O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil não é a fonte mais indicada para essa discussão. A obra analisada no artigo é uma boa referência sobre o assunto.

  4. Pablo disse:

    Gostei do texto, entretanto quais seriam as referências bibliográficas e fontes? Isso é comprovado?

    • marcia disse:

      O texto é uma resenha do livro “Três vezes Zumbi”, de Jean Marcel de Carvalho França e Ricardo Alexandre Ferreira, Ed. Três Estrelas. A obra é resultado da pesquisa dos autores.

  5. Candeeiro disse:

    Sobre Zumbi no Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (4/4)

    Uma análise em quatro partes sobre aquilo dito de Zumbi nessa polêmica obra. Abordaremos aqui os principais trechos do livro relacionado ao líder negro do Quilombo dos Palmares principalmente no que diz respeito ao capítulo Zumbi tinha escravos. Temos na obra, entre outras coisas, o seguinte:

    D) “Para obter escravos, os quilombolas faziam pequenos ataques a povoados próximos. ‘Os escravos que, por sua própria indústria e valor, conseguiam chegar aos Palmares, eram considerados livres, mas os escravos raptados ou trazidos à força das vilas vizinhas continuavam escravos’, afirma Edison Carneiro no livro O Quilombo dos Palmares, de 1947”. (Narloch, Guia Politicamente Incorreto da Historia do Brasil)

    Se alguns escravos foram à força para o Quilombo dos Palmares, naturalmente podemos entender com isso que havia escravos dentro do Quilombo. Todavia, estes seriam, nesse caso, os escravos dos senhores de engenho, não necessariamente escravos do Quilombo. Além disso, em nenhum momento da obra de Edison Carneiro é dito que negros são lá (no Quilombo) escravizados, pelo contrário, o autor diz logo na abertura do livro o seguinte:

    “A floresta acolhedora dos Palmares serviu de refúgio a milhares de negros que se escapavam dos canaviais, dos engenhos de açúcar, dos currais de gado, das senzalas das vilas do litoral, em busca da liberdade e da segurança, subtraindo-se aos rigores da escravidão e às sombrias perspectivas da guerra contra os holandeses.” (Edison Carneiro, O Quilombo dos Palmares)

    Logo, seria muito estranho enxergarmos negros sendo escravizados dentro do Quilombo, mas totalmente lógico compreender que havia negros escravos dos senhores de engenho naquelas terras que haviam sido roubados. Essa parte é condizente com outras partes da carta anônima de Fernão Carrilho em 1687, comandante de várias expedições aos Palmares. Trechos dessa carta são citados por Edison Carneiro quando este toca no constante estímulo dos mocambos dos Palmares para os escravos das redondezas. Acredito ser importante mostrar na integra o trecho do livro. Vejamos:

    “Ora, na sua carta anônima de 1697, Fernão Carrilho, comandante de várias expedições aos Palmares, dizia, peremptoriamente que ‘os negros, o em que se fiam mais para obrarem maldades é dizerem que seus senhores o que lhes podem fazer é açoitá-los, mas que matá-los não, porque os brancos não querem perder o seu dinheiro’. Os escravos das vilas vizinhas eram, assim, recrutas potenciais dos Palmares, “uns levados do amor da liberdade, outros do medo do castigo, alguns induzidos pelos mesmos negros, e muitos roubados na campanha por eles”. (Edison Carneiro, O Quilombo dos Palmares)

    Aqueles, por conseguinte, forçados em direção a Palmares não eram escravizados, mas recrutados para a luta. Não sem motivo diz o autor que bastava a esses escravos roubados libertar um negro cativo para voltar à casa do senhor de engenho, uma “alforria”, se assim eles desejassem. Tal como podemos ver aqui:

    “Os escravos que, por sua própria indústria e valor, conseguiam chegar aos Palmares, eram considerados livres, mas os escravos raptados ou trazidos à força das vilas vizinhas continuavam escravos”. E continua: “Entretanto, tinham uma oportunidade de alcançar a alforria: bastava-lhes levar, para os mocambos dos Palmares, algum negro cativo”. (Edison Carneiro, O quilombo dos Palmares)

    Em suma, foi uma maneira encontrada para fortalecer a campanha e ter a maior quantidade possível de negros libertos. Outros pontos são abordados por Leandro Narloch na obra dele, mas nada na obra que venha a fixar concretamente a ideia de Zumbi ter sido um escravocrata nos moldes dos senhores de engenho. O feito por estes visava à continuidade da exploração e o Quilombo dos Palmares e Zumbi a liberdade do seu povo.

    • marcia disse:

      Boa tarde. O “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil” não é a fonte mais indicada, na minha opinião. Recomendo a leitura de “Três Vezes Zumbi”, de Jean Marcel de Carvalho França e Ricardo Alexandre Ferreira. Ed. Três Estrelas, 2012. Uma excelente discussão sobre o mito de Zumbi. Obrigada!

      • Candeeiro disse:

        Concordo, o Guia Politicamente Incorreto não é a melhor fonte. Minha intenção foi somente de expor uma análise referente à essa obra. Já sobre o seu texto, li e vejo que o mesmo também possui ideias parecidas com as da obra citada aqui. Contudo uma das maiores dúvidas é com relação a esse trecho:

        “Zumbi não queria acabar com a escravidão e nem libertar o “povo negro” da opressão do branco. Ele apenas lutava pela sua liberdade e do grupo que formou o quilombo.”

        Se Zumbi desejava apenas a liberdade daqueles que viviam no Quilombo, o mesmo lider negro deveria ter aceito o acordo de paz juntamente com Ganga Zumba, tendo em vista que, entre outras coisas, determinava-se, conforme lembro agora, a liberdade dos nascidos no Quilombo e a residência deles num local chamado Cucaú. Alguns até afirmam que Zumbi foi contra esse acordo de paz porque ele desejava lutar pela liberdade dos demais negros que continuavam sendo escravizados. Por isso é muito estranho afirmar que Zumbi não queria acabar com a escravidão. Já sobre a relação do Quilombo com os comerciantes locais brancos, isso era normal para manutenção do Quilombo tendo em vista ser esse um meio de obter os mais diversos produtos assim como obter informações sobre o ocorrido fora de Palmares. Parabéns pelo texto.

  6. Messias de Morais Junior disse:

    Nos brasileiros somos um povo “carente de heróis”, por isso os criamos onde não existem, é “a rainha dos baixinhos”, “rei do camarote”, “rainha das embaixadas” e até os “desocupados do BBB, um programa que é sinônimo de mau gosto ja foram chamados de heróis.
    o racismo no Brasil é hoje uma situação que beira quase a hipocrisia. Basta observar como os que são verdadeiramente se tratam, o atendente negro trata melhor o cliente branco, o policial negro é mais ríspido com o suspeito negro e, dificilmente você encontra um negro de alguma projeção social casado com uma negra e vice versa.
    A escravidão é uma mancha na historia mundial com destaque na brasileira mas, na época, era a lei vigente e os Quilombos não eram esta comunidade romântica que querem mostrar, eram bandidos, estupradores e escravizavam outros negros pois as diferenças étnicas na Africa existem até hoje o problema é que no Brasil a maioria nunca conversou com um Africano de verdade.
    E assim segue a historia do Brasil contada por historiadores hipócritas que manipulam os fatos e não tem compromisso étnico com o publico e as futuras gerações e enquanto isso, nos esquecemos dos verdadeiros heróis!!

  7. Celina disse:

    Perfeita análise. Zumbi é um mito criado que se presta a muitas versões, portanto pouco autênticas. Não se pode “inventar” a história. E quem questiona ainda é chamado de direita. Que mundo estranho estamos criando! Olha o trabalho que os historiadores do futuro terão para recuperar a história.

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