“Varre, varre a bandalheira”

             Não é de hoje que assuntos ligados à moral e aos ditos bons costumes pautam o debate político no Brasil. Aborto, sexualidade, direitos das minorias, divórcio e até a temida “dissolução das famílias”são assuntos que influenciam as eleições e causam furor nos meios de comunicação. Hoje, com o fenômeno das redes sociais, esse tipo de discussão se tornou ainda mais presente.

Vamos lembrar de uma figura do passado, que teve um papel importante nos rumos do país: Jânio Quadros.  Eleito em 1960 “para varrer a corrupção e a bandalheira para longe do Brasil”, o político ganhou grande popularidade com seu estilo peculiar. Fala rebuscada, discurso anticomunista, teatral e tendo uma vassoura como símbolo de campanha, ele obteve uma votação impressionante. Jânio renunciaria depois de seis meses de governo. Após uma tumultuada presidência do vice João Goulart, viria o golpe militar que duraria 21 anos.

Uma das características que despertou a atenção do eleitorado foi a ideia de que Jânio não era um político tradicional e que tinha uma forma diferente de fazer política. Em um cenário fragmentado e com denúncias de corrupção rondando os governos anteriores, o ex-professor conquistou boa parte dos brasileiros. Outro aspecto explorado seria o fato de Jânio ser “do povo”. Sanduíches de mortadela nos bolsos, roupas surradas, cabelo em desalinho e caspa nos ombros (dizem que era talco) eram algumas de suas ferramentas de marketing. Depois de eleito, o presidente não abandonou o estilo tragicômico dos comícios.

Segundo Renato Venâncio, em “Uma Breve História do Brasil”, Jânio passou a governar sem consultar coligações e partidos que o elegeram. Seu ministério incluía inimigos dos outrora aliados. Não poupou o Congresso que, para ele, era apenas um “clube de ociosos”. Para combater os altos índices de inflação herdados do governo anterior, o presidente optou pela austeridade, Começou a valorizar acordos comerciais com o bloco comunista, com o intuito de ampliar os mercados consumidores de produtos brasileiros e estimular o desenvolvimento do Brasil. A chamada política externa independente, por sinal, foi um dos pontos que mais causou polêmica em seu curto mandato. A aproximação com Cuba e a condecoração de Che Guevara tiveram enorme repercussão na imprensa e no cenário político.

Entretanto, o que causava grandes discussões e rendia inúmeras manchetes nos jornais da época eram suas decisões no plano comportamental.  Com seu perfil moralizador e autoritário, Jânio adotou medidas como a proibição de corridas de cavalo em dias de semana, sessões de hipnotismo em locais públicos e brigas ou rinhas de galo. Também foram proibidos os desfiles de candidatas a miss com maiôs “cavados” em concursos de beleza, a exibição em anúncios na TV “de maiôs e peças íntimas de uso feminino” e até os biquínis nas praias. O governo vetou ainda a fabricação, o comércio e o uso de lança-perfume no carnaval e proibiu a participação de menores de 18 anos em programas de rádio e televisão. No caso do Rio, interpretando o decreto de Jânio, até as transmissões pela televisão de competições de natação “e demais modalidades esportivas” foram afetadas, sendo suspensa a “exploração de efeitos plásticos inconvenientes”. (1)

Descontente com seu vice, o líder trabalhista João Goulart que fora reeleito para o cargo em sua chapa, Jango Goulart, Jânio tentou um golpe. Como explicou no livro História do Povo Brasileiro, seu objetivo era forçar uma intervenção militar: “primeiro, operar-se-ia uma renúncia; segundo, abrir-se-ia o vazio sucessório – visto que a João Goulart […] não permitiriam as forças militares a posse, e, destarte, ficaria o país acéfalo. Terceiro, ou bem se passaria a uma fórmula, em conseqüência da qual ele mesmo – Jânio – emergisse como primeiro mandatário, mas já dentro de novo regime institucional, ou bem, sem ele, as forças armadas se encarregariam de montar esse novo regime”.

        E, nos conta Venâncio, “o aprendiz de ditador fracassa devido à vacilação dos chefes militares. Instala-se uma grave crise política, cujo desfecho teria data marcada: 31 de março de 1964”. Teve início, então, o que muitos, como Rose Marie Muraro, consideraram “o turbilhão”.

Texto de Márcia Pinna Raspanti.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  • “Uma Breve História do Brasil”, de Mary del Priore e Renato Venancio. Editora Planeta, 1ª edição.
janio e vassoura

Como candidato a presidente da República, Jânio Quadros com uma vassoura, símbolo de sua campanha (Foto: George Torok/O Cruzeiro/EM/D.A Press)

 

 

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  1. Cláudia Tereza Varella

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