O Brasil na 2ª Guerra Mundial

        Em Natal, Rio Grande do Norte, 10 mil soldados americanos entre 1942 e 1945, operavam as bases militares mais importantes dos aliados no Hemisfério Sul – o Campo de Parnamirim e a Base Naval de Hidroaviões. Espécie de cotovelo entre a América e a África, o Nordeste brasileiro era considerado pelos americanos um dos pontos mais estratégicos do mundo. Os aviões militares, que partiam da Miami, nos EUA, faziam escala em Porto Rico, Trinidad e Belém – para depois partirem rumo a Senegal, Togo e Libéria e daí à Europa, levando carga ou os próprios bombardeiros, como as fortalezas voadoras B-17 e B-24.    Parnamirim virou o aeroporto mais congestionado do mundo, com até 800 pousos e decolagens por dia. “Antes pacata e tranquila, a vida noturna de Natal alterava-se profundamente: era agora agitada e trepidante; bares e boates surgiam da noite para o dia”, escreve o jornalista Murilo Melo Filho em seu livro de memórias, Testemunho Político. Ali se consumia Coca-Cola, fumavam-se cigarros Lucky Strike e se dançava o foxtrote. A americanização logo chegou aos trajes. Os homens abandonaram os ternos e as calças de risca-de-giz e passaram a vestir roupas cáqui de inspiração militar. As calças de brim azul, usadas nas horas vagas por recrutas americanos, chegaram ao Brasil via Natal – embora só fossem se espalhar pelo país na década de 50. As moças – que antes só passeavam na companhia de pais e irmãos, vestidas com saias rodadas – agora andavam sozinhas, de calças compridas, mascando chicletes, o sinal inconfundível da modernidade. Além dos soldados, Natal recebeu estrelas do showbiz, enviadas pelo governo dos EUA para levantar o moral das tropas. Humphrey Bogart veio animar a estréia do filme Casablanca no teatro da base, em 1942. A orquestra de Glenn Miller tocou no Cine Rex. Nos prédios das bases militares, sucediam-se festas, “for all” – para todos, onde os combatentes americanos se misturavam aos jovens – e, principalmente, às jovens – natalenses, festas conhecidas, ou melhor, “traduzidas” popularmente como forró!

       Seis de outubro de 1944: naquele dia, desembarcaram na Itália os 350 membros do 1° Grupo de Caça da Força Aérea Brasileira (1º GAVCA). Até o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, em maio do ano seguinte, os pilotos, mecânicos e pessoal de apoio viveriam ali uma longa trajetória de combates contra forças nazifascistas. O 1º GAVCA realizou a primeira missão como unidade independente já no dia 11 de novembro de 1944. Nas asas dos caça P-47 Thunderbolt, os pilotos brasileiros participaram de 445 missões até o fim do conflito. No dia 22 de abril de 1945, um grupo de apenas 22 pilotos realizou 44 vôos, com onze esquadrilhas de quatro caças fustigando alvos entre as 8h e 17h. Em todos os ataques, os brasileiros lançavam bombas em pontos estratégicos e passavam a procurar novos alvos, como blindados e caminhões, durante retorno à base. Para tornar o esforço possível, pilotos chegaram a voar duas ou até três missões, em um só dia. “Só quem esteve em combate sabe o que é voar mais de uma missão no mesmo dia”, escreveu o Major-Brigadeiro do Ar Rui Moreira Lima, em seu livro Senta a Pua!.

O Globo noticia o o afundamento do navio Buarque, em 1942

            Para se ter uma ideia do imenso esforço, a cada missão realizada a bordo dos caças P-47 Thunderbolt, os pilotos chegavam a perder até 2 quilos, em razão do forte calor e do desgaste físico. Eles também enfrentavam a morte, que poderia vir dos disparos da incansável artilharia antiaérea inimiga. Enganam-se os que pensam que o esforço acabou ali. Por mais três dias, depois de 22 de abril, os pilotos brasileiros voaram o suficiente para colocar dez esquadrilhas no ar diariamente. No mês de abril, eles quebraram recorde de missões na campanha da Itália: 135 em apenas 30 dias, o equivalente a 31% dos seis meses anteriores.

      Entre 6 e 29 de abril de 1945, o Primeiro Grupo de Aviação de Caça do Brasil realizou 5% das missões de ataque dos países aliados na região na Itália, mas foi responsável por 15% dos veículos inimigos destruídos, 28% das pontes atingidas, além de 36% dos depósitos de combustível e 85% dos depósitos de munição danificados. A maioria dos brasileiros chegaria ao final da guerra com mais de 50 missões. Destacaram-se, sem dúvida, pois um piloto americano retornava aos Estados Unidos depois de 35 missões, ficando fora de combate por seis meses. Entre os brasileiros, o Tenente Alberto Martins Torres alcançou a marca de 100 missões de combate. E ele já era veterano do combate contra submarinos no Atlântico Sul. Como tantos soldados aliados, os brasileiros conheceram a sensação de que a cada momento, rugindo e impaciente, a morte poderia fazer sua aparição.

      O Exército Brasileiro sofreu com os invernos europeus e a rala ração que recebia. Houve sede, fome, frio e a angústia frente ao fogo incessante e sob a abóboda do céu cheia de fumaça e fogo. Porém, a tomada de Monte Castelo a 21 de fevereiro de 1945, depois de 12 horas de combate, ficou na história. Ao todo, o Exército teve 465 mortos – 444 soldados, treze oficiais do Exército e oito oficiais da FAB – e 1517 feridos em combate, mais 658 acidentados. A FEB capturou mais de 20 mil alemães, 80 canhões e 1500 viaturas. No dia 18 de julho de 1945, os primeiros pracinhas retornaram ao Rio de Janeiro sendo recebidos apoteoticamente.

      E Wilson Lins ainda a lembrar o reencontro com seu amigo e homônimo, que por pouco escapou da carnificina:

Lutou bravamente, mas voltou da guerra. Quando regressou, fomos visitá-lo, loucos para saber como foi a luta. Ele falou de tudo menos da guerra. Inquirido sobre o assunto, desconversava […] Soubemos por outros que, certa vez, quando em missão, descera de um jipe para observações, tão logo se afastou da viatura essa foi completamente destroçada por uma bomba […] Essa foi em Monte Castelo – cemitério de brasileiros. Passavam os batalhões inteiros constituídos de moços fortes e vibrantes. Voltavam as centenas feridos e mortos. Dias após dias os aviões alemães despejavam fumo e fogo sobre os aliados. Os pracinhas passando para morrer. Chegou a vez de seu batalhão. Chegara a sua vez de morrer, pensara ele.[…] Na manhã seguinte, na hora de seguir, no instante de partir para nunca mais…Os pracinhas olharam para cima e todos viram: o morro parecia uma extensa favela, um imenso varal de roupas estendidas. Eram os alemães que se rendiam”.

       Os que retornaram, não esqueceram os rios de sangue. Aprenderam que a guerra não era uma aventura romântica, de onde se voltava ungido por uma coroa de louros, mas a barbárie. A mecanização sem alma, a tornou mais bestial e desumana. Quantos não ficaram, pelo caminho, em pedaços, sem nem mesmo ter visto o rosto do adversário?

  • “Histórias da Gente Brasileira: República (vol.3)”, Editora LeYa, 2017, de Mary del Priore.
General alemão Otto fretter-Pico se rendendo à tropa brasileira em abril de 1945

General alemão Otto fretter-Pico se rendendo à tropa brasileira em abril de 1945. Foto: Sívio S. da Fonseca. Fonte: Wikipedia

 

 

 

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