Sexualidade feminina: da histeria à ninfomania

          Partia-se do princípio que, graças à natureza feminina, o instinto materno anulava o instinto sexual e consequentemente, aquela que sentisse desejo ou prazer sexual seria inevitavelmente, anormal. “Aquilo que os homens sentiam”, no entender do Dr. William Acton, defensor da anestesia sexual feminina, só raras vezes atingiria as mulheres, transformando-as em ninfomaníacas. Ou, na opinião do renomado Esquirol que tanto influenciou nossos doutores: “Toda a mulher é feita para sentir, e sentir, é quase histeria”. O destino de tais aberrações? O hospício. Direto!

          Entre alienistas brasileiros – explica a historiadora Magali Engel – associava-se diretamente a sexualidade e a afetividade. O médico Dr. Rodrigo José Maurício Júnior, na primeira tese sobre o tema apresentada na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1838, não hesitava em afirmar: “As mulheres nas quais predominar uma superabundância vital, um sistema sanguíneo, ou nervoso muito pronunciado, uma cor escura ou vermelha, olhos vivos e negros, lábios de um vermelho escarlate, boca grande, dentes alvos, abundância de pelos e de cor negra, desenvolvimento das partes sexuais, estão também sujeitas a sofrer desta neurose”. E ele não estava só. Muitos mais pensavam que a histeria era decorrente do fato de que o cérebro feminino podia ser dominado pelo útero. Júlio Ribeiro, em seu romance naturalista A carne, de 1888, põe na boca de um dos protagonistas, Barbosa, a certeza de que fora deixado por sua amante, Lenita, pois esta, possuidora de um cérebro fraco e escravizado pela carne tornara-se histérica. Na versão de outro médico, o Dr. Henrique Roxo, a excessiva voluptuosidade da mulher era facilmente detectável por um sintoma óbvio: “eram péssimas donas de casa”.

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           Das teses de medicina, ao romance e destes para as realidades nuas e cruas do Hospício Nacional dos Alienados, a verdade era uma só: a sexualidade feminina era terreno perigosíssimo e era de bom tom, não a confundir com sentimentos honestos. Menos ainda, amor. A iniciação a práticas sexuais seguidas do abandono do amante levava à degeneração. Acreditava-se que, uma vez conhecedora de atividades sexuais, as mulheres não podiam deixar de exercê-la, como vemos no romance de Aluísio de Azevedo, Casa de Pensão: viúva, Nini, passa a ter sintomas de histeria. A não satisfação do desejo sexual cobrava um preço alto. A paixão por outros homens que não o marido, ou seja, o adultério, também aparecia aos olhos dos médicos como manifestação histérica. O remédio eram os mesmos há duzentos anos: banho frio, exercícios, passeios a pé.  Em casos extremos, recomendava-se, – pelo menos em tratados médicos – a ablação do clitóris ou a cauterização da uretra.

          Perseguiam-se as histéricas e ninfomaníacas e também, os masturbadores. Debruçados sobre a sexualidade alheia, examinando-a em detalhes, os médicos, por sua vez, terminam por transformar seus tratados sobre a matéria, no melhor da literatura pornográfica do período.

  • Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2). Editora LeYa, 2016.
Rolla Gervex

“Rolla”, de Henri Gervex. Pintura inspirada em poema de Alfred de Musset causou escândalo no final do século XIX

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