Feias, despudoradas e sujas

Por Márcia Pinna Raspanti.

Os movimentos de emancipação feminina sempre tiveram uma imagem negativa. E isso permanece, infelizmente, até os dias de hoje. Feias, peludas, sujas, despudoradas, mal amadas –  esses são alguns adjetivos que aprecem na mídia quando as mulheres se mobilizam e saem às ruas para se manifestar na esfera política – entendida aqui em seu sentido mais amplo. O movimento feminista hoje está bastante fragmentado. Há setores identificados com questões específicas, como racismo, transexualidade, trabalho doméstico, assédio. Há mulheres sem nenhuma ligação com movimentos feministas, mas que também querem participar das ações políticas. Enfim, são diversas situações e correntes de pensamento, e ninguém precisa estar de acordo com todas elas.

O que parte da mídia e os grupos mais conservadores fazem é generalizar comportamentos, tentando desqualificar as reivindicações das mulheres. Não se atacam as ideias, mas as pessoas, sua aparência, condição social ou comportamento. E isso não é nenhuma novidade. Na virada do século XIX e nas primeiras décadas do século passado, as feministas sofriam um preconceito terrível. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, as sufragistas foram violentamente reprimidas. E no Brasil, não foi diferente: “Nas primeiras décadas da República, o celibato associava-se ao feminismo. E este, à feiura e masculinização”, lembra Mary del Priore, em “Conversas e Histórias de Mulher”.

De acordo com a imprensa da época, quem não era agraciada com beleza física suficiente para se casar vingava-se aderindo aos movimentos de emancipação. Num artigo intitulado “Leilão de moças”, em que se apregoavam os leilões matrimoniais como solução para as feias, a revista Fon-Fon dava um exemplo: “Talvez fosse o único, excelente, maravilhoso meio de acabar de uma vez com as sufragistas, as literatas, as neurastênicas, as cochichadeiras, as beatas, horríveis espécies femininas da classe imensa, descontente, vingativa e audaz das vieilles filles” —  moças-velhas, nome que se dava para solteironas.

Atualmente, no Brasil, este tipo de associação perversa ganha cada vez mais força. Sob essa ótica, a mulher emancipada que luta pelos seus direitos não passa de uma frustrada, além de ser pouco atraente. “O medo da mulher inteligente, preparada, da que lia ou escrevia era visível. A emancipação era percebida nos mais diversos setores políticos e sociais como ameaça à ordem estabelecida e ao domínio masculino”, diz Mary. Nas primeiras décadas do século passado, a literatura e a atuação de mulheres independentes começavam a dar a resposta a este tipo de ideia.

Em O Quinze, clássico sobre a grande seca no sertão do Ceará, em 1915, Raquel de Queiróz pinta Conceição, a protagonista, como alguém que “dizia alegremente que nascera solteirona”. Na contramão das dependentes, pintadas por escritores, essa é bonita, segura, inteligente e culta. E contrariando os juristas que valorizavam a proteção oferecida às mulheres pelo casamento, feministas como Maria Lacerda de Moura mostraram que, sob a aparente proteção, havia, sim, prisão, subserviência e obediência. O celibato, defendiam Ercília Nogueira Cobra, Bertha Lutz e outras, era a melhor opção.

A “mulher indivíduo”, como a definia Maria Lacerda de Moura, seria aquela capaz de viver honestamente e longe dos caprichos masculinos. Numa crônica de 1946, Lúcia Miguel Pereira cravava: “sempre houve solteironas, até por vocação; e ainda das que não o foram por vontade própria, muitas viveram satisfeitas, souberam ser úteis, desenvolveram plenamente sua personalidade”.

Naqueles tempos, devido à grande pressão, muitas das mulheres mais emancipadas rejeitavam o casamento para terem maior autonomia. Ser solteira podia significar também ser livre, apesar dos preconceitos. Depois de muita luta, as mulheres conseguiram avançar muito no que se refere à liberdade de escolha: há feministas casadas, solteiras, separadas, existem as donas de casa e aquelas com uma carreira sólida, as vaidosas e as não vaidosas…Entretanto, os rótulos continuam e a aparência ainda é o critério mais usado para definir uma mulher. Querem dar palpite até em questões absolutamente íntimas e pessoais como a depilação! E muitas de nós aceitam alegremente tais imposições.

Muitas não se manifestam frente a comentários machistas dos companheiros e familiares, incentivam piadas e estereótipos sobre a burrice feminina, “cultivam cuidadosamente o mito da virilidade”, como destaca a historiadora. “Gostam de se mostrar frágeis, pois acreditam que eles, assim, sentem-se mais potentes. (…) Acreditam que a feminilidade é um estado natural, a ser conservado, e que todas as despesas aí investidas, até cirurgias que acabem por desfigurá-las, são um bom negócio. São coniventes com a propaganda sexista e com a vulgaridade da mídia. Na TV, aceitam temas apelativos e não se incomodam que estes encham a cabeça das filhas”.

Há uma desvalorização das conquistas femininas por parte das próprias mulheres. Muitas se refugiam nessa armadilha da mulher perfeita, daquele estereótipo da feminilidade ideal. “Esse comportamento ajuda, certamente, a que se continue a cavar um grande fosso entre homens e mulheres, perceptível na questão salarial. É compreensível. Afinal, o chefe teve uma mãe machista! Ora, vivemos um tempo de transformações: na família, no trabalho, nas instituições. Nele, importa eliminar as pendências entre homens e mulheres, mas, sobretudo, aquelas enraizadas dentro de nós”, completa Mary.

Somos muitas, somos diversas.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.
"Deixando o banho", de Degas.

“Deixando o banho”, de Degas. A feminilidade idealizada

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