Quando a violência muda os rumos da política

            Atos violentos sempre marcaram nossa vida política: atentados, assassinatos, execuções, suicídios. Em meio a uma campanha eleitoral conturbada, nos lembramos de alguns períodos da nossa história em que tais acontecimentos mudaram totalmente os rumos do país. 

           João Pessoa era sobrinho de Epitácio Pessoa, que ocupou a presidência da república de 1919 a 1922. Em 1929, quando era presidente da Paraíba, João Pessoa aceitou convite para ser o candidato a vice-presidente na chapa oposicionista da Aliança Liberal, articulada pelos estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul e encabeçada pelo gaúcho Getúlio Vargas. No governo estadual, Pessoa enfrentou várias rebeliões e revoltas, muitas vezes, promovidas por seus opositores.

         Para combater os focos de oposição, Pessoa ordenou que a polícia paraibana invadisse escritórios e residências de pessoas suspeitas de ter vínculos com os aos rebeldes. Numa dessas invasões – na residência de João Dantas, ligado ao Partido Republicano Paulista -, foram encontradas cartas íntimas trocadas entre Dantas e sua amante, a jovem poeta Anaíde Beiriz. As cartas foram publicadas pela imprensa alinhada ao governo estadual, causando grande escândalo na sociedade paraibana. Dias depois, em viajem ao Recife, João Pessoa foi assassinado com dois tiros desferidos por João Dantas em uma confeitaria da capital pernambucana. Divergências políticas e questões amorosas levaram ao crime.

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         A sua morte foi amplamente usada para fins políticos. Se a Aliança Liberal e as chapas de oposição ao governo central tinham perdido as esperanças com os resultados das últimas eleições, a morte de João Pessoa serviu para reacender as esperanças de uma mudança de rumos na política e uma virada em favor dos aliancistas. “Morto, ele se torna um personagem político perfeito, para conduzir a vontade da população que clamava por novos mártires que pudessem encaminhar suas esperanças de mudanças na realidade política do país. E, o Diário de Pernambuco, soube mais do que outros jornais canalizar imediatamente a notícia do assassinato de João Pessoa para a construção de um mito político que moveria vontades e canalizaria reações”, nos conta a historiadora Giselda Brito Silva (1) .

          Os líderes da Aliança Liberal trasladaram o corpo para o Rio de Janeiro, onde foi enterrado em meio a grande manifestação popular. O clima de comoção contribuiu para que os preparativos revolucionários se acelerassem, resultando na deposição de Washington Luís, em outubro, e na ascensão de Getúlio Vargas ao poder, no mês seguinte, na chamada Revolução de 30. Vargas governaria até 1945, instaurando o Estado Novo em 1937.

           O antigo ditador, entretanto, voltaria ao poder, por meio de eleições. Em outubro de 1950, os brasileiros garantiram sua vitória com 48% dos votos válidos. Ele retornava “nos braços do povo”, mas seu governo enfrentou forte resistência. Pouco tempo depois da eleição, a oposição, que reunia membros da UDN, do Exército e de setores conservadores da sociedade, queria derrubar o presidente, faltava, apenas, um pretexto. E ele veio.

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          Em Copacabana, na madrugada de 5 de agosto de 1954, dois pistoleiros tentaram matar o jornalista Carlos Lacerda, um dos mais ruidosos opositores de Vargas. Também um dos maiores inimigos dos comunistas, de quem já fora aliado, Lacerda, à frente de seu jornal Tribuna da Imprensa, desferia as piores ofensivas ao governo. Auxiliado pelo rádio e a televisão, conclamava incessantemente as Forças Armadas para que restabelecessem a democracia no Brasil. Mais uma vez Lacerda usou a folha de sua propriedade, para atacar, declarando: “Perante Deus, acuso um só homem como responsável por esse crime. Este homem chama-se Getúlio Vargas”.

            O atentado feriu levemente Lacerda, mas matou o major da Aeronáutica, Rubens Vaz que o acompanhava. “Este tiro é uma punhalada em minhas costas” retrucou Vargas, ao saber do atentado. A revelia do Ministério da Justiça, a Aeronáutica resolveu elucidar o crime e em 29 horas, prendeu todos os culpados. Ficou claro o envolvimento de funcionários do palácio do Catete e que o mandante do crime era Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente. (2)

            O episódio gerou uma grande crise política que, em particular com os militares, tornou a situação de Vargas insustentável. Havia forte pressão para que ele renunciasse. No dia 24 de agosto, em meio a um cenário turbulento, o presidente se suicidou com um tiro no coração.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.
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(1) “História do Crime no Brasil”, organizada por Mary del Priore e Gian Carlo. Artigo de Giselda Brito Silva sobre a morte de João Pessoa.

(2) “Uma Breve História do Brasil”, de Mary del Priore e Renato Venancio, editora Planeta.

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Quebra-quebra em Porto Alegre, após suicídio de Vargas

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