Mulheres do Brasil, a história não contada

Por Paulo Rezzutti.

     Não, eu não sou uma mulher e, por isso, não posso falar com autoridade absoluta sobre todas as questões que envolvem o seu gênero. Não posso entender tudo o que elas passam unicamente por serem mulheres. Mas sou provido de algumas coisas, como a curiosidade, a fome pelo saber, a empatia e, principalmente, vivo em um universo feminino desde que eu nasci, e aprendi a escutar as mulheres. Hoje mesmo, trabalhando como escritor, meu universo é quase que inteiramente feminino. Minhas duas últimas editoras foram a Martha e a Fernanda, hoje é o Rodrigo, que responde às mulheres da editora. Na Veja, falo com a Mônica e com a Maria Clara; na CBN com a Tânia; a minha “irmã de letras”, a Mary, às vezes me dá uns toques pra eu não escrever alguma bobagem e, neste blog, eu falo com a Márcia.

     Minha primeira biografada foi Domitila, a marquesa de Santos; a terceira foi d. Leopoldina; o D. Pedro foi um ponto fora da curva. Na biografia de Domitila, me deparei com algo que, para mim, em 2010 quando comecei a pesquisa, era desconhecido: o processo de apagamento da história das mulheres no Brasil. Lembro-me da minha primeira estranheza ao ver na Genealogia Paulistana, escrita pelo Silva Leme, que as linhas eram predominantemente patrilineares e só me dar por isso ao notar que os filhos bastardos que a marquesa de Santos teve com d. Pedro I não constavam das tabuas genealógicas.

     Tanto Domitila quanto d. Leopoldina tiveram seus papéis políticos apagados. Uma assumiu o arquétipo de mulher santa, sacrificada no altar do lar por um marido mulherengo e irresponsável, e a outra, da amante, da mulher cruel que usou o seu sexo para ascender socialmente à custa da esposa-vítima. O homem sai de pobre coitado, do tipo “a carne é fraca” em quase todas as histórias contadas sobre eles. Domitila se deu “ao desfrute”, ela não “se deu o devido respeito”. E aí a curiosidade acendeu e quis saber mais sobre as duas, além do maniqueísmo e dos preconceitos. Descobri várias coisas, o suficiente para escrever livros sobre elas, e comecei a me questionar quantas mais tiveram as suas histórias apagadas ou editadas para se encaixarem em um discurso patriarcal.

     No livro que estou lançando em maio de 2017: “Mulheres do Brasil”, da minha série, “A história não contada”, são mencionadas mais de 200 mulheres, e algumas histórias pouco conhecidas são reveladas. Muitos já ouviram, por exemplo, sobre a “musa” modernista Pagu, Patrícia Galvão. Mas ela foi muito mais do que uma “musa”, foi uma militante comunista que sofreu preconceito de gênero dentro do próprio partido. Foi a primeira mulher no Brasil a desenhar quadrinhos e falar, por meio de seus traços, de temas como violência de gênero e aborto e foi a responsável por trazer a soja para o Brasil, por exemplo.

      Não foi só sobre vieses pouco conhecidos de mulheres conhecidas que eu me debrucei. Procurei também as invisíveis, aquelas que só chegaram até nós, quando chegaram, tendo um único nome. Muitas invisíveis se tornaram coletivos, como “as mulheres índias”, “as primeiras colonizadoras do Brasil”, ou as “mulheres negras”. Algumas acabaram de alguma forma sobrevivendo em relatos, como foi o caso da Florisbela, uma “vivandeira”. Assim como diversas outras mulheres que seguiram seus maridos, filhos, irmãos e amantes para a Guerra do Paraguai, Florisbela também chegou a pegar em armas e lutou pelo Brasil nessa guerra.

       Pode parecer, ainda mais no atual ambiente tóxico e polarizado que estamos vivendo no Brasil, que esse é só mais o caso de um homem querendo tirar o lugar de fala das mulheres. Não é. Esse é o caso de um homem que viu, durante o seu trabalho com as mulheres de nossa história, o quanto a trajetória que nos chegou delas até a atualidade foi editada pelo discurso patriarcal, quando não foi completamente apagada. A trajetória das mulheres na nossa história precisa ser revista e revisitada inúmeras vezes com diferentes focos para que juntos, homens e mulheres, possamos pavimentar um futuro mais igualitário.

Lançamento do livro “Mulheres do Brasil – a história não contada”. Imagem da capa: Divulgação

“Mulheres do Brasil, a história não contada”

Paulo Rezzutti

Ed. Leya/Casa da Palavra, 2018

Preço de capa R$ 59,90 

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