Gravidez precoce: as moças “perdidas”

Segundo o Perfil das Mães Brasileiras, divulgado pela Fundação Getúlio Vargas em 2005, entre os anos 1970 e 1980, o número de crianças caiu de 5,8 para 2,0. Em 2012, está em 1,86 filho por mulher. Saímos de taxas iguais às da Somália para nos igualar à média da Finlândia. No país, quanto maior a pobreza, maior o número de filhos. Segundo autoridades, programas como o Bolsa Família têm transformado mães pobres em “protagonistas sociais”. Elas se preocupam em educar os filhos, enviá-los à escola, cuidar da vacinação e da saúde. O governo reconhece o papel central delas na geração de bons resultados sociais. Contudo, apesar dos esforços, a gravidez precoce aumentou. Nos anos 1980, eram 8 filhos para cada 100 mulheres na faixa de jovens entre 15 e 18 anos. Em 2005, a taxa subiu para 9,1 O número de mães solteiras também saltou: de 2,7% antes para 16%.

O assunto não é novo. Historiadores vêm detectando o alto nível de maternidade precoce por meio do estudo de “jovens seduzidas”. No passado, eram as chamadas “meninas perdidas” e, em geral, pobres. Sobre elas recaía o dever de zelarem pelas regras e condutas sexuais “higiênicas”, de serem honestas, recatadas, bem comportadas como as “mocinhas de elite”. Parentes, vizinhos, namorados lhes “faziam mal”. “Murchava-lhes a flor”. Sem pílula ou outro meio de contracepção, as consequências eram inevitáveis. As jovens tinham sorte quando não eram expulsas de casa.

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Moças pobres também valorizavam a honra e a virgindade, mas tinham motivos práticos para entrar com processos contra seus “sedutores”: dividir responsabilidades de uma gravidez, driblar uma proibição familiar, ascender socialmente etc. Mais raramente, as “vítimas” pretendiam, com o processo, punir os “ofensores” com a prisão. Conta a historiadora Marta Abreu que “meio viciado, a devassidão de costumes, os instintos perversos, a falta de educação” foram expressões que marcaram o olhar de médicos, juízes e jornalistas no julgamento sobre “ofendidas” pobres, negras e brancas ao longo dos últimos 150 anos de nossa história. Os acusados retrucavam: elas tinham mais modos de “mulher da vida do que de moça honesta”.

Hoje, a gravidez na adolescência não é mais o caso de “civilizar” ou higienizar o Brasil. Desde os anos 1960, ela é tratada como um problema de saúde pública. A maior parte dos estudiosos diz que por trás dessas jovens existem famílias abandonadas, esquecidas por programas de políticas sociais. Os riscos de saúde a que estão sujeitas as adolescentes têm a ver com a precária situação econômica. Os resultados são o retorno ou o aumento da pobreza, abandono dos estudos e dificuldade em encontrar emprego. Alguns estudiosos explicam que a gravidez precoce se dá num quadro adverso, em que as desvantagens citadas anteriormente já existem. Outros afirmam que, provenientes de lares matrifocais, tais adolescentes sentem-se atraídas pela maternidade. Algumas a veem como um passaporte para a vida adulta, um reforço para ser “alguém na vida”, pois muitas fazem do “ser mãe” um projeto existencial.- Mary del Priore.

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“Madona e criança”, de Pompeo Batoni.

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