Crianças perversas, pais arrogantes

Publicamos hoje, na seção “Professor: queremos ouvir sua história”, mais um relato impressionante das terríveis situações a que são submetidos os nossos educadores. Desta vez, uma jovem professora, que prefere não se identificar, nos mostra o lado mais sombrio das salas de educação infantil, com crianças fora do controle e pais completamente desorientados. Uma realidade cheia de humilhações, violência e medo.
Sou estudante de Pedagogia. Durante o estágio remunerado, já vivenciei agressões físicas e verbais por parte dos alunos.Durante um semestre, convivi com um garoto de seis anos com transtornos de comportamento. A criança fugia da sala, saía correndo pela escola e fazia ameaças do tipo “vou cortar sua cabeça” “vou enfiar uma faca na sua barriga” “vou socar sua cara até sangrar”. Tratava-se de uma criança muito perversa, que machucava as outras só para se divertir. Ele continua matriculado na educação regular.

Uma vez, outra criança começou a me chutar, a despeito da advertência da professora. Olhava para a professora, olhava para mim, e continuava me chutando. Tudo isso porque impedimos que batesse em uma colega e que saísse correndo da sala.

Já fui chamada de idiota, de gorda, de baleia pelas crianças.

Já presenciei, em uma escola, pai de aluno gritando com a professora e com a coordenadora. Ao não concordar com a média das notas, o pai gritava: “sou engenheiro, sei fazer conta! Quero uma explicação”.

Já vi crianças da Educação Infantil que passaram por mais de três escolas. Alunos de 4, 5 anos que já tinham trocado de escola tantas vezes… E por motivos fúteis e que até mostram a ignorância das famílias:

  • porque ficavam brincando o tempo todo (a brincadeira faz parte do desenvolvimento infantil e prepara a criança para a alfabetização e para o aprendizado de outros conteúdos, fato comprovado cientificamente desde o início do século passado através de trabalhos científicos como os de Piaget e Vygotsky);
  • porque a professora não trocava a fralda ou dava comida na hora que a família mandava (na escola todas as crianças tem seus horários ajustados para que façam as atividades em grupos e isso é feito gradualmente, sem maltratar a criança);
  • porque os filhos não eram alfabetizados na Educação Infantil (a alfabetização é um processo que tem início com a escrita ideográfica — desenhos — e continua no Ensino Fundamental, com base nos conhecimentos científicos sobre o desenvolvimento infantil. Não se cobra escrita correta de crianças com menos de 6, 7 anos e cada uma tem o seu tempo para aprender. A alfabetização e o letramento são processos que acontecem tanto na escola quanto no contato que a criança tem com a linguagem escrita no dia a dia. Pedagogas estudam bem esses processos e sabem fazer avaliações diagnósticas, preparando atividades adequadas para cada faixa etária, de acordo com o conhecimento científico que possuem, o conhecimento sobre a legislação vigente e os documentos norteadores publicados pelo MEC – RCNEI e PCN).

Acho que seria importante dar voz às professoras da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Falar sobre a feminização do magistério e do preconceito contra as docentes e sua forma de inserção no mercado de trabalho. Discutir a violência contra as professoras por parte das famílias, das crianças e do Estado (balas de borracha e spray de pimenta nas greves). Abordar o trabalho docente, o uso de jogos e brincadeiras na Educação,o currículo da formação docente (extremamente amplo e difícil), o fato de que as professoras não conseguem mais estudar quando começam a lecionar por falta de tempo e dinheiro, as imposições dos movimentos sociais no currículo escolar associada à falta de uma formação docente de qualidade e com respeito pela prática e experiência das professoras, e ainda a judicialização da Educação (processos movidos contra a escola e contra as professoras).

 Mande seu relato para o nosso blog: historia.hoje@bol.com.br . Participe! 

teaparty

 A infância nem sempre é doce. (“Tea Party”, Museu de Londres).

3 Comentários

  1. Anônimo 14 de julho de 2015
  2. Paulo Santos Freitas Júnior 17 de abril de 2015

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