Brasil: o país do futuro ou um país do futuro?

            Era fevereiro de 1942, e num chalé em Petrópolis, o renomado escritor austríaco Stefan Zweig, fugido da Segunda Guerra Mundial, matou-se com sua mulher, Lotte. Uma dose letal de barbitúricos foi o triste epílogo de uma carreira brilhante e reconhecida internacionalmente, carbonizada pelo antissemitismo. Seu biógrafo, Alberto Dines sublinha que, fascinado pela sociedade multicolorida, generosa, pacata e melancólica, Zweig enxergava no Brasil uma possibilidade de convivência, associada às extraordinárias riquezas do país. O oposto exatamente do que ele viveu sob o rancor racial e o desvario político imposto pelo nazifascismo. Amigo do empresário e economista Roberto Simonsen, patriarca das ciências econômicas entre nós, dele obteve os subsídios para, numa obra, louvar o “Brasil país do futuro”.

            Aos seus olhos, o surto de progresso dos últimos cinquenta anos devia muito à imigração de italianos e alemães, tornando “mais forte, mais variado e mais pessoal o elemento brasileiro”. A crise do café e as duas Grandes Guerras permitiram que “uma quantidade grande de artigos industriais ou artesanais que antes eram importados da Europa passam a ser fabricados no próprio país, preparando uma certa autonomia. Quem voltou ao Brasil depois de alguns anos de ausência surpreendeu-se a ver quantos artigos antes estrangeiros já foram substituídos por nacionais e como o país em tão pouco tempo conseguiu também se tornar independente de instrutores e diretores estranhos em termos de organização”.

Ou sobre suas riquezas naturais:

Depois de longos anos de incertezas e de modéstia, o país aprendeu a pensar nas dimensões de sua própria vastidão e contar com suas possibilidades ilimitadas como uma realidade palpável e atingível. Reconheceu que o espaço é energia e gera energias, que nem o ouro ou a poupança constituem a riqueza de um país, e sim o solo e o trabalho que nele é feito. Que país, porém, possui mais solo não utilizado, inabitado, não aproveitado, do que este império tão grande quanto o velho mundo? E espaço não é simples matéria, espaço é também energia psíquica. […] Onde há espaço, não há só tempo, como também futuro. E quem vive neste país escuta o farfalhar vigoroso das asas do futuro”.

Seria isso mesmo ou seria o Brasil, um pais de surdos? Zweig escreveu sob a ditadura de Vargas e para um ditador. Considerado um livro de encomenda que teria sido trocado pela acolhida de amigos refugiados, a obra foi massacrada pela crítica. Dines se pergunta: Zweig errou ou foi o Brasil que escolheu o modelo errado?

Alguns anos depois, Rose Maria Muraro resumiu o momento:

Os anos 50 foram os da difícil reconstrução da Europa, ajudada pelos americanos com o Plano Marshall. Nessa década, sobe ao poder, nos EUA, o general Eisenhower, herói da Segunda Guerra. Acelera-se a dominação americana sobre o resto do mundo. É nessa década que nasce e se solidifica a sociedade de consumo. Os americanos ganham muito dinheiro e saber tecnológico com a Guerra Fria fabricando ogivas nucleares.

            Em 1957, os russos fazem a primeira viagem espacial. No Brasil, pressionado pela oposição chefiada por Carlos Lacerda, Getúlio Vargas se suicida e,m 24 de agosto de 1954. Ganha as eleições Juscelino Kubitsckek, dando início ao período desenvolvimentista. O Brasil arranca com uma industrialização mais sofisticada. Cria-se a Petrobrás em 1954, e mais tarde a indústria automobilística, sob o controle de firmas transnacionais. Em 1959, Fidel Castro toma o poder em Cuba. O comunismo chegava aos pés do dragão! A América Latina inteira treme. Inclusive o Brasil. É então que, por graça e misericórdia de Deus, começo a participar do turbilhão”.

O historiador Renato Venâncio é quem melhor sintetiza o que houve entre o “país do futuro” e “o turbilhão”. A começar, por mudanças no eleitorado cada vez mais urbano, uma alteração no perfil dos candidatos e a consolidação do que muitos chamam de “populismo”. Depois da morte de Getúlio, o impasse sobre os rumos que devia tomar a sociedade, dividiu um velho conhecido: o Exército, agora sob a pressão da Guerra Fria e do desenvolvimento das armas atômicas. Para países periféricos, um alinhamento com os EUA significava caminhar com o capitalismo. E com a URSS, dirigir-se para o comunismo. Um novo golpe militar foi posto em marcha, mas falhou, pois um segmento dito “legalista”, dentro das Forças Armadas, exigiu respeito à Constituição. Os levantes populares após o suicídio do presidente ajudaram a calar a ação militar. No período que se estende até 1955, foram preparadas novas eleições. Elegeram-se Kubitschek e seu vice, João Goulart. O ambiente político lhes era hostil. Os quartéis voltam a dar sinais de descontentamento, esvaziados, mais uma vez, pelos “legalistas”.

Na economia, o novo presidente adotou o chamado “tripé”: associação de empresas privadas brasileiras com multinacionais e estatais. Graças ao investimento de empresas estrangeiras, a nova economia se tornou mais independente das crises do setor agroexportador. Só que o modelo convidava também ao aumento das importações com endividamento externo. A remessa de lucros para o exterior desviava recursos da economia brasileira.

No curto prazo, porém, o modelo econômico foi um sucesso. O “Plano de Metas” ou “50 anos em 5” rasgou rodovias, ampliou a fronteira agrícola na direção de Goiás e Mato Grosso, e ainda, transferiu apoteoticamente a capital, do litoral para o Brasil Central. Nasceu Brasília. Enquanto os povos indígenas da região eram silenciosamente exterminados, respirava-se certa tranquilidade política, pois o crescimento econômico ensejou aumento de salários e consumo. Sob a capa do “crescimento”, multiplicaram-se, também os partidos políticos. Muitos deram início a designações pitorescas como as que ainda existem: Partido Industrial Agrícola Democrático ou Partido Nacional Evolucionista! A fragmentação permitia a acepção de políticos não ligados a partidos tradicionais, caso de Jânio da Silva Quadros.

Eleito a 3 de outubro de 1960, com auxílio de retórica moralista e anticomunista, Jânio passou a governar sem consultar coligações e partidos que o elegeram. Seu ministério incluía inimigos dos outrora aliados. Para ele, o Congresso não passava de um “clube de ociosos”! Para combater os altos índices de inflação herdados do governo anterior, o presidente que queria “varrer” problemas, impôs a austeridade e começou a valorizar acordos comerciais com o bloco comunista. Medidas como a proibição do uso do biquíni, corridas de cavalo em dias de semana, sessões de hipnotismo em locais públicos ou brigas de galo, conviveram com a condecoração do guerrilheiro Che Guevara e a aproximação com Cuba, enchendo as páginas dos jornais.

Descontente com seu vice, o líder trabalhista e adepto de uma “república sindicalista”, o reeleito em sua chapa, Jango Goulart, Jânio tentou um golpe. Como explicou no livro História do Povo Brasileiro, seu objetivo era forçar uma intervenção militar: “primeiro, operar-se-ia uma renúncia; segundo, abrir-se-ia o vazio sucessório – visto que a João Goulart […] não permitiriam as forças militares a posse, e, destarte, ficaria o país acéfalo. Terceiro, ou bem se passaria a uma fórmula, em consequência da qual ele mesmo – Jânio – emergisse como primeiro mandatário, mas já dentro de novo regime institucional, ou bem, sem ele, as forças armadas se encarregariam de montar esse novo regime”.

E, crava Venâncio, “o aprendiz de ditador fracassa devido à vacilação dos chefes militares. Instala-se uma grave crise política, cujo desfecho teria data marcada: 31 de março de 1964”. Teve início, então, o que muitos, como Rose Marie Muraro, consideraram “o turbilhão”. Turbilhão que será assunto de nosso próximo volume, o IV, de Histórias da Gente Brasileira: República Nova: Testemunhos.

  • “Histórias da Gente Brasileira: República 1889-1950 (vol.3), de Mary del Priore. Editora LeYa, 2017.
Inauguração de Brasília

Criança junto a janela no Palácio do Planalto observa a Praça dos Três Poderes e o parlatório na inauguração de Brasília (Foto: Arquivo Público do DF/Divulgação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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