“Amai…e não vos multipliqueis”: maternidade e sexualidade

           Na representação santificada da mãe-esposa-dona de casa ordeira e higiênica, a sexualidade só aparecia associada à procriação. A ascensão da figura da mãe inibia a sexualidade conjugal. A mulher destinada à maternidade não podia procurar prazer, e a ideia do orgasmo materno se torna escandalosa, mesmo impensável, no início do século passado. E mais: o amor aos filhos deveria ser o principal fator de união dos casais.

            “A maternidade é um instinto, que brota naturalmente de cada mulher, precisando antes ser sufocado nos seus impulsos de exagerada ternura, do que desenvolvido por meio de teorias e discursos eloquentes. É até uma forma de egoísmo observada em criaturas más, que de outra forma não sentiriam o doce palpitar da afeição humana. Mas o filho representa um pedaço delas mesmas, feito com seu sangue, continuação de sua existência – e a mulher ruim, a ladra, a vagabunda até a assassina adoram o seu pequeno tão ardentemente como qualquer alma transcendental. É uma posse animal, espontânea, muito forte, que vem lá do fundo das entranhas femininas, e não se analisa, não se define, não se discute. É o amor de mãe. Ensiná-lo pareceria até um pleonasmo”.

O texto é de março de 1905. Escreveu-o para A Semana a escritora Carmem Dolores, pseudônimo de Emília Bandeira de Melo, autora de crônicas para O País, importante diário da República Velha, para o Jornal das Senhoras e o Correio da Manhã. Marcando presença num território exclusivamente masculino, ela fez parte das pioneiras que lutaram pela educação da mulher, sendo a favor do divórcio e do sufrágio feminino. E prosseguia com ideias consideradas escandalosas no início de século, antecipando conquistas que só viriam nos anos 1980: “O casamento representa uma experiência, bem ou malsucedida. A maternidade é uma aliança de doçuras e amarguras e o divórcio, uma necessidade”.

Outra figura notável do nascente feminismo foi Maria Lacerda de Moura. Focada em conscientizar as mulheres de sua condição de servidão à família, de reduzir-lhes o peso das superstições sobre a sexualidade e a tendência de conservar-se “caladas e sofridas”, publicou, em 1932, Amai… E não vos multipliqueis. Nele afirmava:

“A família verdadeiramente constituída será a que se basear na Maternidade consciente, na livre escolha da mulher escolher o pai para os seus filhos, ou o companheiro do seu amor. Essa é que há de ser a base das relações sexuais do amor no novo ciclo da evolução humana […] E um e outro pensador (e já são muitos) e algumas mulheres heroicas reivindicam para a mulher o direito e o dever de se ser mãe fora da lei e das convenções sociais”.

A mãe de Adalgisa Néri concordaria. Para ela, a maternidade foi um sofrimento: “Minha mãe, uma criatura singela, gastava a sua vida com a família que aumentava todos os anos. Não me recordo de tê-la visto, senão esperando um filho. Tinha um ar abatido e frágil. Possuía uma enorme cabeleira que se abria como um manto pelas costas quase até os joelhos. Penteava seus cabelos em duas grossas tranças que deixava caídas como cobras. Eu tinha a impressão que o peso de sua cabeleira a fatigava demais. Queixava-se constantemente de dores, de canseiras e tinha as impaciências naturais de uma mulher com filhos pequenos e problemas de família e talvez seu ar triste fosse o traço de lamentações pelos seus desconhecidos e perdidos sonhos”.

Não escapava à Maria Lacerda de Moura que a política de expansão demográfica desejada pelo Estado getulista, tinha a ver com o desejo de engrossar o exército brasileiro por meio de propaganda sedutora. Vivia-se o período entre as duas Grandes Guerras mundiais. Fazer filhos para a pátria? Não, ela respondia. As mulheres não deviam se prestar a produzir “buchas de canhão”: “Mas a expressão usada na literatura, no jornalismo, na cátedra, no púlpito para dourar a pílula engolida pela idiota milenar, não será ‘fabricar carne para canhões’”, – admoestava -, “e sim, fala-se na ‘maternidade sagrada’, ‘direitos das mães’, ‘deveres para com as mães’, ‘dia das mães’, ‘rainha do lar’, ‘educadoras dos cidadãos de amanhã’, todas essas chapas convencionais a fim de arrastar a deusa e santa, através dos filhos para o açougue canibalesco…”.

Neomalthusianismo e pacifismo andavam de mãos dadas em seus textos. Trabalhar pela paz em tempos de fascismo, não fazer filhos para a guerra, exigir melhores condições para criá-los e, sobretudo, tirar dos ombros das mulheres, principalmente das pobres, a responsabilidade da sobrevivência da família eram sua bandeira.

Na vida privada prevalecia o caráter assimétrico: a mulher, reduzida ao papel de mãe e esposa. O pai, dedicado ao trabalho, à posse da mulher e à fiscalização dos filhos. As mães, porém, cabia punir tudo o que era considerado “indesejável” com “surras e cascudos”. Ou com pressão psicológica. As ameaças de retirada de afeto (“Você age assim e ninguém gosta…”), as ameaças de abandono e solidão (“Moça assim não casa…”), os castigos do Céu (“Nossa Senhora está olhando você e está triste), remorso (“Quando eu morrer, você vai ver a falta que vou fazer…”) ou culpa (“Só quero o seu bem…você está fazendo uma ingratidão”) abatiam-se sobre as costas dos filhos. Antes, a preocupação era que os filhos fossem bem-educados, que respeitassem os idosos, que fossem alvos de elogios.

Médicos orientavam as mães, porém, esqueciam-se de precaver esposas contra as doenças venéreas de seus maridos “mulherengos”. A avó de Marta Novís foi contaminada: “Foi uma gravidez difícil e um parto mais difícil ainda, realizado por tio médico e pelo avô dele, também médico” em casa. “Por sorte nasceu um menino saudável […] Mas foi o único. A doença a tornara estéril”.

  • “Histórias da Gente Brasileira: República 1889-1950 (vol.3), de Mary del Priore. Editora LeYa, 2017.
Medeia Delacroix

Medeia, por Eugène Delacroix

 

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