A música e o movimento negro nos anos 70

           Depois da criação de Brasília, mudou igualmente a correlação entre o interior e o litoral no país. A paisagem social transformou-se por meio de migrações maciças, pelo ingresso das mulheres no mercado de trabalho e do protagonismo cada vez maior de populações negras e pardas. Operou-se uma mutação demográfica, alterando-se de forma consistente, as taxas de nascimento e mortalidade, a proporção relativa de crianças, jovens, adultos e idosos. A economia mudou de patamar, dando um salto de qualidade. Constituiu-se uma base industrial integrada a uma agricultura moderna formada por unidades voltada para a exportação. No campo da educação e da cultura, estruturou-se um sistema de pós-graduação atualizado, aumentando de modo substancial a população matriculada nos vários níveis de ensino. Mudou, em consequência, o patamar do país na América Latina e no mundo.

         Nos anos 70, os tropicalistas nas figuras de Gilberto Gil e Caetano Veloso criticavam a ingenuidade dos músicos nacionalistas em querer, pela emoção, mobilizar o povo – como esclarece a socióloga Lucia Lippi Oliveira. A arte deveria ser agressiva e mobilizadora como se ouvia em ‘É proibido proibir’, título que remete à revolta dos estudantes franceses em maio de 68.

            Os anos 70 foram a década do soul music, inspirado nas lutas sociais dos negros americanos. Cabeleira volumosa, roupas e sapatos coloridos, a inconfundível voz de Toni Tornado cujas músicas questionavam a “democracia racial” brasileira, palavras novas como Black Panthers – referindo-se ao grupo revolucionário – ou Black Power chacoalhavam a autoestima de negros e pardos: “Eu quero um homem de cor” ou “Black is beautifull” cantava Toni.

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Os chamados Bailes da Pesada alimentados pela indústria fonográfica pipocaram em várias capitais: Black Rio, Black Bahia, Black São Paulo, Black Porto gaúcho e Black Uai de Belo Horizonte. Mas o sucesso de Toni Tornado entrou na mira da censura militar, explicam as historiadoras Sandra Pelegrini e Amanda Palomo Alves.  Suas performances sensuais no palco, as letras que acusavam a segregação -“Bebedouro mata a sede, mas não escolhe cor” -, o punho erguido ao final das apresentações, levaram-no ao exílio, temido por desestabilizar o conservadorismo das famílias brancas e causar prejuízos à “harmonia social”. “Eles (os militares) aproveitaram a oportunidade porque ‘pô, esse negão tá agitando, vamos mandar ele embora. Tá falando prá negrada não alisar mais o cabelo. Ele tá falando que o jeito de se vestir é outra, entende…Ele é pernicioso’” – explicou em entrevista. Dois anos depois, voltou para prosseguir sua carreira de ator.

Os mesmos anos 70 foram marcados pela diversidade e fragmentação das tendências estéticas e culturais. Por isso mesmo, na década seguinte se ouvia de tudo: axé baiano, festa do Peão do Boiadeiro, o novo pagode dos anos 1980 e 1990 que vendeu milhões de CDs, o baião nordestino, tudo se conectava, se cavalgava. As favelas e comunidades, por exemplo, balançavam ao som dos bailes funks e soul.

  • Texto de Mary del Priore. 
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