O amor entre mulheres nos tempos da Inquisição

Publicado em 20 de outubro de 2014 por - História do Brasil

A Inquisição perseguia aqueles que praticavam a sodomia, também conhecida como “abominável pecado nefando”. Nos tempos medievais, a expressão significava “excessos” na vida sexual, ou seja, tudo que fugisse ao que a Igreja considerava natural. A partir do século XIII, sodomia passou a ser entendida como “coito anal” entre homens ou entre homens e mulheres, mas ainda podia ser interpretado como relações entre pessoas do mesmo sexo. No século XVII, o Santo Ofício decidiu que o alvo de suas investigações seriam os homens, ou seja, os pecadores que deveriam ser mais duramente punidos eram os homens homossexuais. E as mulheres que amavam mulheres? Como a Inquisição agia em relação a elas?

Houve uma certa tolerância com  os amores homoeróticos femininos na Europa. Não havia muitos relatos desta prática, e a maioria ocorria na vida da corte ou nos conventos. No Brasil, durante a primeira Visitação do Santo Ofício ao Nordeste (1591-1595), 29 mulheres foram arroladas por Heitor Furtado Mendonça como sodomitas. Segundo Ronaldo Vainfas, (“Homoerotismo Feminino e o Santo Ofício”, em História das Mulheres no Brasil), tais comportamentos eram difíceis de se distinguir das práticas do cotidiano feminino da Colônia. “Por outro lado, muitos namoricos não passavam de experiências de moçoilas recém-saídas da puberdade. A maioria das relações confessadas envolvia meninas de 9 e 10 anos, ou moças donzelas de 18 a 20 anos”, diz.

Várias mulheres adultas, casadas ou viúvas, também confessaram intimidades com amigas de infância. A viúva Madalena Pimentel, 46 anos, admitiu que quando moça tivera “contatos carnais” com meninas de sua idade. Guiomar Pisçara, 38 anos, casada, contou que, aos 13 anos, deleitava-se com uma escrava da família, uma “negra ladina Guiné”, chamada Méscia.

Vainfas também relata que havia mulheres casadas que preferiam o amor de outras mulheres. A mameluca Maria de Lucena, 25 anos, é um exemplo interessante. Solteira, mas cortejada por homens, Maria dormia “carnalmente” com escravas da casa, negras e índias, e foi flagrada diversas vezes cometendo o “delito”. Surpreendida em uma ocasião, gritou que fazia aquilo por gosto e não “por falta de homens”.

Um caso rumoroso, conta o autor, foi de Francisca Luiz e Isabel Antônia. Esta teria vindo de Portugal degredada por pecar com outras mulheres e tinha o apelido de “a do veludo” porque “todos sabiam que usava um instrumento aveludado em suas relações sexuais”. O romance foi complicado. “Tornou-se escândalo público, sobretudo, depois que Isabel resolveu sair com um homem”. A amante não se conteve e a esperou Isabel na porta de sua casa, depois de um destes encontros. Houve gritos, xingamentos e até agressão física, além de muito alvoroço por parte dos vizinhos.

Felipa de Souza, da Bahia, foi uma das mais famosas “sodomitas” da época. Confessou ter tido seis parceiras nos oito anos que antecederam à Visitação do Santo Ofício. Ela foi condenada ao degredo, após ser açoitada pelas ruas. “Dos raríssimos processos de sodomia feminina julgados pela Inquisição Portuguesa, a maioria é proveniente da visitação de Heitor Furtado. Nas décadas seguintes, nenhuma mulher seria processada por sodomia no Reino ou na Colônia. E, lá pela metade do século XVII, a Inquisição praticamente abriria mão da jurisdição sobre este crime, considerando que as mulheres eram incapazes de praticá-lo por razões anatômicas”, diz Vainfas.

Podemos notar que as mulheres eram mais discretas em suas relações homoeróticas e, salvo algumas exceções, raramente eram flagradas durante os atos “pecaminosos”. Outra questão é o relativo desinteresse da Igreja por este tipo de comportamento, que era, muitas vezes, ignorado pelos inquisidores. A sexualidade feminina era um mistério naqueles tempos, e, muitas vezes, causava medo e curiosidade nos homens.

– Márcia Pinna Raspanti.

 

nudez

“Retrato de uma jovem mulher”, de Rafael Sanzio (1540-45).

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