O “Adão” Pernambucano e a “Capitoa”

Publicado em 16 de janeiro de 2017 por - artigos

       Jerônimo de Albuquerque veio com a irmã, Brites Coelho, e o marido dela, Duarte Coelho para a capitania de Pernambuco, em 1535. O nobre português logo iniciou uma série de uniões com mulheres indígenas, o que ajudava a selar a paz com os povos nativos. A convivência não era fácil: em uma das várias guerras sangrentas com os indígenas, Jerônimo foi atingido por uma flecha no olho, o que lhe rendeu o apelido de “o torto”.

      As disputas eram ferozes e as táticas de guerra nem sempre justas. Frei Vicente da Conceição Veloso contou que, após convocar uma reunião com diversos chefes indígenas, o “torto” escolheu alguns para negociar e aprisionou os outros: “a uns mandou pôr em boca de bombardas e mandou dispará-las à vista de todos, para que vissem voar em pedaços; outros entregou aos chefes aliados, que os mataram no terreiro e comeram”.

      A união com as índias era uma forma de diplomacia. Jerônimo se casou com a tabajara Muira-Ubi, que depois passou a se chamar Maria do Espírito Santo Arcoverde. E tiveram mais de uma dezena de filhos. Como entre os indígenas o casamento era visto de outra forma e o que chamamos de “poligamia” era aceito, o bravo português se uniu a várias outras nativas e teve outras dezenas de descendentes…Até que a a rainha Catarina de Portugal, em 1562, ordenou que ele se casasse, de acordo com as leis da Igreja, com Felipa de Melo. Ele obedeceu e teve mais uma dúzia de filhos com a moça. E parece que Jerônimo também deixou descendentes com as africanas que começavam a chegar à Colônia.

      Não se sabe ao certo quantos filhos ele deixou, mas 36 foram reconhecidos. Por essa grande disposição e fertilidade, Jerônimo ficou conhecido como o “Adão Pernambucano”.

      Já a sua irmã, passou para a história como exemplo de castidade e retidão. A jovem D. Beatriz (ou Brites, como era conhecida) Coelho acompanhou o marido Duarte, bem mais velho, na sua missão em Pernambuco. Morando em uma casa de pau a pique, a nobre portuguesa teve seus filhos em condições precárias e enfrentou todas as dificuldades com coragem. O casal enriqueceu mais ainda, com o tempo. Em 1553, Duarte Coelho voltou para Portugal, levando os filhos para apresentar ao rei, e Brites assumiu o posto de governadora da capitania.

      A “capitoa” cumpriu seu papel com mão firme e manteve a ordem exigida pela Coroa de forma exemplar, fazendo de Pernambuco uma das capitanias mais prósperas da Colônia. Os filhos vinham e voltavam para a Europa, mas ela é quem exerceu o poder de fato. Brites morreu em 1584, em Olinda.

 Esses e outros personagens com suas histórias surpreendentes nos são apresentados por Jorge Caldeira, em “101 Brasileiros que fizeram História”, Estação Brasil, 2016. A tarefa parece ambiciosa: apresentar um painel da nação brasileira por meio de seus principais atores. A própria escolha desses personagens já representa um grande desafio. Entretanto, obra se destaca exatamente pelas figuras não tão conhecidas, principalmente no período colonial.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.   

 

adãoPE

O Adão Pernambucano.

Saiba mais:

“Albuquerque: a herança de Jerônimo, o Torto”, de Cândido Pinheiro Koren de Lima. Fundação Gilberto Freyre, 2013.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Comentários

Deixe o seu comentário!